NERVOSO

A era da ansiedade

Administrar os medos é necessário para não tornar a vida um celeiro de preocupações

José Ricardo Ferreira
17/02/2014 às 09:15.
Atualizado em 24/04/2022 às 17:45

Dizer que vivemos a era da ansiedade pode ser certo exagero. Mas se pensarmos a fundo, em menor ou maior grau, a ansiedade está cada vez mais presente em nosso cotidiano.Dentre suas definições, seria razoável afirmar que ela é uma reação física de um medo, real ou imaginário. "É como se ela estivesse sempre presente, sem se mover", relata o livro "Desenvolva sua Inteligência Emocional e tenha Sucesso na Vida", da psicóloga Maria Mercedes P. de Beltrán (editora Paulinas).É um estado psicológico que atinge a todos, de qualquer faixa etária, mesmo os jovens. A publicitária Lívea Telles (foto) tem 25 anos e conta que encontra dificuldades para conciliar trabalho, o estudo e lazer. E isso a deixa ansiosa. "Falta tempo para minhas coisas, outras atividades", afirma.Para a jovem profissional, a tecnologia e a concorrência entre as pessoas geram preocupações. "É muita informação e não consigo me adequar muito a essa situação", revela.A declaração de Lívea dá uma pista do que é a ansiedade nesse mundo "tão acelerado": o medo do novo. Não que a entrevistada tenha esse medo, mas ele está presente, acredite.Sofrer muito por antecedência também é uma característica da ansiedade. Há pessoas que insistem em "antecipar o futuro". Esquecem-se que ninguém pega o futuro e o organiza ao seu bel-prazer. O futuro reúne uma possibilidade dentro das infinitas possibilidades da vida.O jornalista Ronaldo Victória, 56, revela que há anos luta contra a ansiedade. Já passou por momentos críticos, mas hoje consegue - sob orientação especializada -, administrar muito bem essa condição emocional. Ele conta que anos atrás ficava ansioso com situações corriqueiras. "A ansiedade talvez seja uma depressão mal-curada. É excesso de futuro. Você não vive com os pés no presente", afirma.Ele espera que pessoas que se identifiquem com o que relatou nessa reportagem, procurem ajuda especializada. "A ansiedade torna a pessoa intolerante", diz.Viver muito preocupado pode gerar doenças. Úlceras, insônias, pressão alta, alergias são algumas das enfermidades que podem surgir como resultado de ansiedades fora do comum, segundo diz a psicóloga Lucelena Nogueira Boaventura, que atua em uma clínica na Vila Monteiro, em Piracicaba.Fazer planos exige cuidados, segundo ela. As expectativas por dias melhores crescem e não raras às vezes, planos podem se transformar em bombas relógio."Todos nós conhecemos as famosas listas de desejos de fim de ano. Nela depositamos todas as nossas fichas nessa energia renovada que se inicia junto ao novo calendário". Mas quando os meses passam, observa-se que aquela lista foi "um exagero" de metas e sonhos. Há dificuldades para que a tal lista se transforme em uma realidade. "O tempo vai passando, e os sonhos são engolidos pelas contas a pagar, impostos, material escolar etc", diz a psicóloga.O choque entre os sonhos e a realidade pode favorecer o entendimento da diferença entre ansiedade e expectativas. MonstrosA psicóloga Lucelena Boaventura explica que devido ao corre-corre as boas expectativas podem se transformar em ansiedade. O cotidiano nos obriga a mais tarefas, mais metas e menos tempo para refletir e saber o que desejamos para valer.Ela explica que o ser humano se cobra muito para atingir metas. A questão é que essas metas, muitas vezes, estão distantes de serem atingidas. E isso é frustrante e causa ansiedade. "Parece que o desejo vai aos poucos se transformando num monstro obscuro que temos que vencer. Mas a ansiedade dificulta o enfrentamento a esse monstro", explica.Uma situação persistente de ansiedade pode levar a pessoa a "travar" por conta do medo, segundo a psicóloga. A ansiedade tira o foco do desejo e bota o medo para tapar o buraco. "E cada um reage de forma diferente a esse buraco. Uns gastam muito, outros comem exageradamente, outros dormem ou perdem o sono de vez, se estressam demais, vivem tudo como se estivesse à flor da pele, acabando com o "frio da barriga" gostoso da expectativa e sentindo um calor no estomago pela raiva e angústia que geraram o fracasso sobre suas metas", explica Lucelena Boaventura.Montar um projeto de vida ou profissional exige "sinceridade" consigo, entende Lucelena. Caso exagere "na lista", você correrá o risco de passar o ano todo preocupado e ansioso para que 2015 chegue rápido para novamente se planejar. Bike e óleos O comerciante Vanderlei Guardia, 49, já aprendeu a lidar com a ansiedade quando ela aparece: sai pedalar com sua bike. "E isso funciona muito bem. O dia a dia é muito corrido e isso cria ansiedade. Quando ela vem, pego a bike e vou pedalar", disse.A jornalista Manu Vergamini, 36, confessa que entra em pânico quando as contas começam a chegar no final do mês. Ela roí as unhas, geralmente está em TPM (tensão pré-menstrual) e come muito chocolate. Mas ela jura que consegue contornar esses momentos. "Consigo administrar. Faço meditação e cuido da alimentação evitando comidas ácidas, passo óleo de girassol no corpo e consumo óleo de prímula", conta. É o esforço de Manu para conduzir a mente para o controle das preocupações. E é válido.AlertaSe preocupar exageradamente pode ser considerado um forte sinal de que daqui a pouco a ansiedade fará parte de sua vida. É o momento quando a expectativa de atingir metas dá lugar ao medo de não cumprir seus projetos. "A pessoa comete equívocos, esquecimentos. É como perder a razão, os objetivos, a racionalidade", avisa a psicóloga Lucelena Nogueira Boaventura.A maioria das pessoas percebe que está ansiosa. É comum familiares também alertá-las. Lucelena diz, porém, que um agravamento da ansiedade pode levar a pessoa a problemas orgânicos, isto é, às "comorbidades" do tipo úlceras, dores de cabeça etc. "O corpo começa a responder ao problema emocional", diz. Mais tarde, aquele probleminha de ansiedade mal-cuidada pode se transformar em pânico, fobias e outros distúrbios.O século 21 tem se revelado um momento crucial para testar a mente humana. "Os casos de ansiedade aumentam a cada ano. As pessoas perdem o foco porque não atingem suas expectativas", afirma a psicóloga Lucelena Boaventura.É como se aquele trecho de Tempo Perdido (Legião Urbana) cada vez mais fizesse parte de nossa vida: "Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas..." Isto é, a pessoa se sente segura, mas não tanto. Se sente corajosa, mas não tanto...Procurar ajuda especializada quando a situação foge do controle é extremamente útil. Mudar de hábitos, filtrar os pensamentos, fazer aquelas 'listas' com os pés no chão já podem ser um bom começo para administrar nossas ansiedades.

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