Em meados do século XIX aconteceu uma verdadeira revolução sobre a visão da biologia que se tinha na época.
Feres Chaddad Neto ( Divulgação)
Em meados do século XIX, quando o naturalista inglês Charles Darwin publicou o tratado “A origem das espécies”, aconteceu uma verdadeira revolução sobre a visão da biologia que se tinha na época. A partir da observação de plantas e animais, Darwin propôs que as espécies de organismos evoluíram de um ancestral comum. As diferenças entre as espécies aparecem por um processo que ele denominou por “seleção natural”. Segundo essa teoria, como resultado do processo de reprodução, os descendentes herdam características diferentes de seus pais. Se essas características forem favoráveis à sobrevivência naquele ambiente, elas se tornam mais comuns nas gerações sucessivas. Mas, se essas características hereditárias forem desfavoráveis, tornam-se menos comuns. Os filhos, portanto, podem ter características diferentes das dos pais, mas se essa diferença lhe trouxer vantagens para a sobrevivência, esse filho terá mais chances de viver e se reproduzir, passando esse traço para as gerações futuras, que podem, inclusive, evoluir. Esse processo levou ao desenvolvimento dos traços que distinguem as diferentes espécies. Ele observou, por exemplo, que muitas espécies de mamíferos tinham a mesma reação ao medo: dilatação da pupila, aceleração dos batimentos cardíacos, arrepiamento dos pelos. Isso acontecia tanto com os homens como com os felinos. Essa similaridade de respostas evidenciava que as diferentes espécies teriam evoluído de um ancestral comum, que possuía o mesmo traço e que era uma vantagem para fugir de predadores. Como já se sabia que o comportamento reflete a atividade do sistema nervoso, pode-se então inferir que os mecanismos encefálicos que formam a base desta reação de medo devem ser similares nas diferentes espécies. A ideia de que o sistema nervoso de diferentes espécies evoluiu de ancestrais comuns e que estes podem ter mecanismos comuns foi a base para se relacionar os resultados das experiências com animais aos realizados com seres humanos. Assim, foi possível identificar detalhes de como o impulso elétrico é conduzido pelo nervo a partir de experiências com lulas, cujos resultados são aplicáveis aos humanos. Da mesma maneira, para compreender os efeitos de drogas psicoativas no sistema nervoso, recorre-se a ratos, que apresentam sinais claros de dependência química aos se administrar cocaína repetidamente. Entretanto, outros traços são altamente especializados para cada espécie. Os macacos, por exemplo, têm um senso agudo de visão, enquanto ratos não é a visão, mas sim o senso tátil de suas vibrissas (órgãos sensoriais próprios de certos animais, que transmitem vibrações aos órgãos sensoriais situados na base). Tanto o rato como o gato têm vibrissas nos bigodes, que lhes permitem avaliar variações do ar em um ambiente próximo. Comparando a especialização do encéfalo de diferentes espécies, os cientistas foram capazes de identificar que partes do encéfalo eram responsáveis por diferentes funções do comportamento. Tamanho não é documento O desenvolvimento evolutivo vem se processando por centenas de milhões de anos. Cérebros de animais superiores não são tão diferentes, quanto às suas estruturas e a muitos aspectos operacionais, embora alguns sejam maiores em suas dimensões. O cérebro de uma baleia pesa cerca de 5 kg, enquanto o cérebro humano pesa apenas 1,5 kg. Ou seja, tamanho não é documento em termos de complexidade. Certas propriedades do cérebro humano, como cultura, consciência, linguagem, memória, o distinguem de outros animais e são resultado do processo biológico da evolução. Também entre os seres humanos, o tamanho do cérebro inteiro não influencia na sua capacidade. O cérebro do novelista russo Ivan Turgenev pesava 2.012 g, enquanto que o do escritor Anatole France, apenas 1.017 g. O brilhante físico Albert Einstein, por exemplo, tinha um cérebro também considerado pequeno para um homem: 1.230 g. Einstein faleceu em 1955 em função do rompimento de um aneurisma da aorta abdominal aos 76 anos. Durante a necropsia, o patologista do Hospital de Princeton, Thomas Stoltz Harvey, removeu o cérebro de Einstein para preservação. Em 1999, mais de 40 anos depois de sua morte, Harvey e outros pesquisadores canadenses reviram as medidas e constataram que, além de pequeno para um homem de seu tamanho, o cérebro de Einstein era mais arredondado do que o normal e faltava uma das fissuras centrais, justamente a que demarca o limite do lobo parietal inferior (área envolvida na cognição viso-espacial, na manipulação de figuras tridimensionais, no raciocínio matemático e na visualização de movimentos). Isso comprova que cada área do cérebro tem sua função específica. O artigo completo dos pesquisadores está disponível na internet sob o título “The exceptional brainof Albert Einstein”. O diferencialHoje se sabe que alguns dos mais básicos elementos do sistema nervoso podem ser encontrados até mesmo em bactérias. Mesmo sendo um organismo extremamente simples, com apenas uma única célula sem núcleo definido, a bactéria consegue encontrar alimento e evitar toxinas, pois percebe o mundo por meio de inúmeros receptores e realiza movimentos adaptativos. Mas isso não quer dizer que a bactéria tenha um sistema nervoso. O que o define é a existência de “neurônios”, células especializadas para perceber estímulos e apresentar respostas. O que difere, portanto, os receptores das bactérias e os neurônios de outras espécies? Ambos recebem entrada de diversos estímulos, realizam integração desses sinais e geram respostas. A diferença se dá essencialmente no tipo de resposta: os organismos unicelulares realizam movimentos flagelares (em reação a um componente químico, que o leva a aproximar-se ou afastar-se dele) enquanto o neurônio dispara potenciais de ação.A unidade básica do sistema nervoso – o neurônio – é o tema de nossa próxima coluna. Até lá. Envie sua pergunta ao Dr. Feres Chaddad Neto, pelo e-mail oshowdocerebro@gmail.comConfira dicas, entrevistas e outros artigos emfacebook.com/oshowdocerebroe twitter.com/oshowdocerebro