Montagem teatral envolve alunos e público nos acontecimentos que deram aos brasileiros uma nova visão sobre estética, literatura e sociedade
Na Escola Estadual Adalberto Prado e Silva, na Vila Costa e Silva, em Campinas, tem Tarsila do Amaral pintando o Abaporupelos corredores. Mas tem também Mário de Andrade um tanto desvairado por sua pauliceia, tentando terminar a escrita de seu Macunaíma em poucos dias. Há um certo Oswald de Andrade, dividido por seu amor por Patrícia Galvão, a Pagu, e seus ideais nacionalistas. Anita Malfatti não tem medo das críticas que sofre de Monteiro Lobato e continua com seus ideais sobre liberdade na pintura, uma pincelada de fauvismo, outra de cubismo, um tanto de cor do abstracionismo. É assim que a cena se monta. Por iniciativa do professor Edison Lins, de língua portuguesa, o teatro e a leitura de obras clássicas, comparadas ao que se vê todos os dias nos jornais, tornaram-se as estratégias de motivação dos alunos e uma saída para o engessamento que o livro didático, quando única plataforma, pode se tornar.
Nos últimos três anos, para vencer a falta de estímulo e motivação para o estudo da literatura, o professor tem produzido peças teatrais que não só permitem ao aluno que entre em contato com a obra como também desenvolva outras habilidades como a expressão oral e a escrita.
“O trabalho de literatura no Ensino Médio não pode focalizar apenas a leitura das obras porque elas vão cair no vestibular ou porque os críticos as consideram importantes. Para mim, esse trabalho precisa produzir, nos alunos, outros olhares sobre o mundo”, diz o professor. Neste ano, o tema trabalhado no projeto foi a Semana de Arte Moderna, conteúdo previsto, na matriz curricular das escolas públicas estaduais, para o 3 ano do Ensino Médio.
Para começar, o professor realizou a contextualização histórica, não só ponto de vista artístico, mas enfatizando que a semana foi também um movimento político. “Os alunos puderam perceber o quanto parte da elite era contrária a toda a movimentação que se construía nas artes. Mostrei a eles que, mais do que liberdade estilística e estética, os escritores e pintores da primeira fase do Modernismo queriam também fazer valer a voz do povo”, lembra o educador. Como esse trabalho ocupou parte das aulas do mês de maio e junho, foi fácil para os alunos compararem o que ocorreu em 1922 e o que acompanhavam, eles próprios, nas ruas com as manifestações das últimas semanas. “Imediatamente, quando se mostra que a Semana de 22 não foi apenas um movimento artístico, os alunos começaram a fazer as relações. É assim que eu acredito que deva ser o ensino de literatura. Eles conseguiram identificar os conflitos de classes, o conservadorismo da época e as rupturas propostas pelo grupo de artistas e escritores”, afirma o professor.
Depois da discussão e da contextualização, Lins e a professora de artes da escola, parceira no projeto, Edwirges Thiago Ferreira, iniciaram a produção de uma peça de teatro que contasse a história do movimento e seus desdobramentos. “Nessa etapa, o projeto se tornou interdisciplinar, pois os alunos estudaram as influências nas artes plásticas. Além disso, eles desenvolveram o texto teatral, a produção do cenário, o figurino, a interpretação. Sempre que necessário, também recorreram aos professores de história”, explica Edwirges.
Em cada etapa, um novo aprendizado. Os alunos pesquisaram o papel de cada artista e escritor na Semana de 22, principalmente, do chamado Grupo dos Cinco, composto por Tarsila do Amaral (1886-1973), Menotti Del Picchia (1892-1988), Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954) e Anita Malfatti (1889-1964), precursores do Modernismo no País.
Depois, veio o trabalho de dramaturgia, em que estudaram as características do texto teatral. Para finalizar, os ensaios e a montagem do espetáculo. A peça1922, a Semana que não Acabou, produzida pelo grupo, tem 50 minutos de duração eseria apresentada apenas para as turmas do 3 ano do Ensino Médio. No entanto, o resultado ficou acima do esperado e todos os 400 alunos da escola a partir da 9 ano puderam assisti-la.
Além dos muros
Na elaboração da peça, desde a pesquisa até a encenação, estiveram envolvidos todos os 65 alunos das turmas de 3 ano da escola. Para entrarem em contato com o teatro e obter mais informações sobre os processos de produção, contaram com apoio do Espaço Cultural Casa do Lago, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde, além de assistirem a espetáculos, puderam participar de bate-papos com produtores e dramaturgos.
“Esse projeto mostrou que o aluno pode ter um papel mais ativo na construção do saber. É uma construção coletiva, em que o estudante é autônomo, pesquisa, produz, apresenta. Sinto a importância dessas atividades no Ensino Médio porque o aluno está terminando uma etapa da vida e muitos sentem-se desmotivados, querendo apenas que tudo acabe logo”, acredita o professor.
Numa das visitas à Unicamp, o grupo conheceu a atriz, diretora, dramaturga e professora Ariane Porto, uma das principais militantes pelo teatro na cidade e docente no Instituto de Artes. Os alunos se animaram ao saber que durante os anos 40 e 70, Campinas teve o Teatro do Estudante (TEC), pelo qual passaram artistas como Regina Duarte e Ney Latorraca. O TEC originou, na década de 60, o grupo Rotunda, dirigido por Teresa Aguiar, um dos mais atuantes do País, com sede no Teatro de Arte e Ofício (TAO), na Vila Nova, em Campinas. “O grupo está animado a, quem sabe, montar uma iniciativa como o TEC”, conta Lins.
Resultados
A ideia de usar o teatro para envolver os alunos no processo de aprendizagem dos movimentos literários já fez surgirem ideias para o próximo semestre, quando as turmas de 3 ano continuam estudando as fases do Modernismo. Para isso, os alunos vão assistir a um espetáculo baseado em Capitães da Areia, romance de Jorge Amado (1912-2001). A proposta de Lins é que, no segundo semestre, a escola também tenha uma montagem de Morte e Vida Severina, clássico do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999).
Por enquanto, os estudantes-atores se preparam para um novo desafio. O sucesso da peça foi tão grande que o grupo foi convidado para uma apresentação em outro colégio estadual, o Culto à Ciência, no dia 6 de setembro, quando será feita uma palestra sobre as oportunidades de ingresso para alunos de escolas públicas na Unicamp. Animados com a apresentação fora da escola, o grupo já tem um compromisso em todos os domingos à tarde: para ficarem afiados, ensaiam na Estação Cultura.