Saímos de um junho cheio de manifestações cívicas e, portanto, estamos a onze meses do início da Copa do Mundo de 2014. Em 2007, quando nos chegou a notícia de que o Brasil sediaria o maior evento esportivo do planeta, em 2014, já estava em curso as preparações para a Copa da África. Finda a Copa africana e os estádios se tornaram elefantes brancos; e o tal legado não aconteceu: o sistema de transporte urbano continua precário, hospitais continuam deficitários e a única coisa que funciona bem por lá é aquela corneta infernal, a vuvuzela — o esporte preferido na África do Sul continua sendo o críquete e o rúgby.
Aguardo com certa reserva emocional o início da Copa do Mundo e não tenho mais paciência para denunciar aos caducandos o que os mamandos já descobriram: o governo petista enfiou dezenas de bilhões de reais na aventura da Fifa e a fila do SUS não anda e a Educação continua a produzir analfabetos funcionais. E a moçada dos protestos tem razão: um governo que não tem competência sequer para distribuir equipamentos esportivos às escolas públicas não terá como entregar aeroportos e metrôs modernos, melhores hospitais, e, sequer, alguns poucos quilômetros de corredor de ônibus. E até hoje me pergunto se o governo já distribuiu as cerca de 150 mil unidades de material esportivo que até um mês atrás estavam armazenadas no Ministério do Esporte.
Garrincha só não morreu em frente à sarjeta da biliardária CBF graças ao amor generoso e solidário da cantora Elza Soares, que dele cuidou com dignidade e silêncio. E hoje Garrincha é nome do mais caro estádio de futebol do país, erigido na maior zona política: Brasília.
Previsto para torrar 500 milhões de reais dos cofres públicos, o Mané Garrincha chegou a custar 1,5 bilhão de reais. Somando o custo lupanar desse estádio, é óbvio que o governo criou para si mesmo sérios problemas de ordem social e estrutural, não só na logística como na execução das ditas e encantadas obras de mobilidade urbana, parte do tal legado da Copa, sem contar outras obras que já estão fora do cronograma e/ou paralisadas por conta de fraudes em licitação, superfaturamento e desvio de recursos — como vem acontecendo com o VLT de Cuiabá, uma das sedes da Copa de 2014. Enfim, o Brasil ainda não acordou direito.