CARLO CARCANI

Amor ou ódio?

Carlo Carcani
06/03/2014 às 21:29.
Atualizado em 24/04/2022 às 15:25

Campinas será palco nesta sexta-feira, infelizmente na mesma noite, de dois grandes jogos de vôlei. O primeiro, no Taquaral, marca a estreia do Brasil Kirin nos playoffs da Superliga. Um pouco mais tarde, a Arena Amil vai presenciar mais um encontro entre Zé Roberto e Bernardinho, duas lendas do vôlei mundial. Muito mais do que a conhecida rivalidade entre ambos, o que valoriza o jogo entre Amil e Unilever é a presença de dois monstros do esporte no banco. Se fosse listar aqui o número de títulos e medalhas olímpicas de ambos, não sobraria espaço para escrever mais nada.O tema da coluna, porém, é o modo diferente como o público de Campinas trata suas equipes de vôlei e futebol. É evidente que não há comparação entre clubes com mais de 100 anos e times formados recentemente, que, infelizmente, sempre convivem com o risco de desaparecer de repente. Mas mesmo assim, o tratamento que recebem de seus torcedores é muito diferente.Amil e Brasil Kirin contam com profissionais de altíssimo nível. Muitos estão entre os melhores do País, alguns ocupam posição de destaque no cenário internacional. Com bons orçamentos, são candidatos ao título de qualquer competição. Apesar da existência relativamente curta, meninos e meninas ainda não chegaram lá. Uma derrota em semifinal aqui, outra derrota em decisão ali e por aí vai. Sempre tem um Sesi ou outro carrasco para impedir que a taça venha para Campinas.E qual é a reação do público às derrotas de times fortes e que podem ser cobrados por títulos? Nenhuma. Nas derrotas e nas vitórias, o time é aplaudido. O público, sempre entusiasmado, tem presença constante. Ninguém deixa de apoiá-los.No futebol, o cenário é inverso. Os dois times competem com adversários de orçamento muito maior. Alguns reforços nem são conhecidos pelo torcedor quando chegam a Campinas. Jogador de Seleção, nem pensar. A obrigação de ganhar títulos, portanto, não existe. Ela é dos grandes, que têm mais dinheiro, estrelas, estrutura e técnicos lendários.E o que acontece quando os clubes perdem? Vaias, protestos indignados e, nos casos extremos, tentativas de agressão.É claro que os atos de violência não são de torcedores comuns, mas esses também reagem com rigor às derrotas. Deixam de ir ao estádio ou aparecem para vaiar mais do que aplaudir.É evidente que a tradição e a paixão são responsáveis por esse comportamento incoerente. É incoerente porque quem diz que ama a Ponte ou ama o Guarani, muitas vezes, se comporta como se odiasse. Xinga, abandona, vaia. Enquanto isso, os timaços do vôlei, com seus nomes de empresas, são reverenciados mesmo nas derrotas.Sei que isso não vai mudar tão cedo, se é que um dia vai mudar. Mas para competir com adversários tão mais poderosos, Guarani e Ponte precisariam de mais amor, de mais apoio. Isso vale tanto para quem fica na arquibancada como para aqueles que têm a responsabilidade ou o anseio (muitas vezes mais anseio do que responsabilidade) de administrá-los.

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