CARLO CARCANI

Aos clubes, os favores da lei

Carlo Carcani
12/03/2015 às 01:07.
Atualizado em 24/04/2022 às 01:47

Os ingressos do futebol brasileiro são caríssimos, a ponto de grandes jogos, em excelentes arenas, terem vários lugares vazios. A entrada não pode ter preço de banana porque o espetáculo é caro, mas quanto gastaria uma família com quatro integrantes para ver um jogo em um setor no qual cada cadeira custa R$ 400, R$ 500?   As cotas de TV também atingem cifras milionárias, principalmente para os clubes mais populares. Flamengo e Corinthians recebem R$ 10 milhões por mês da Globo e a partir de janeiro de 2016 esse valor deve saltar para R$ 14,1 milhões. Isso só pelos direitos de transmissão. Os clubes recebem ainda o dinheiro do pay-per-view.   Os grandes clubes também arrecadam com o licenciamento de produtos, naming rights de arenas e patrocínios para uniforme. Recentemente, o Palmeiras assinou um contrato de R$ 23 milhões por ano com a Crefisa, seu patrocinador master.   Palmeiras que deve arrecadar com seu programa Avanti um valor superior a esses R$ 23 milhões. Afinal, acaba de chegar à marca de 100 mil sócios-torcedores, feito até então alcançado apenas pelo Internacional.   A participação em torneios como a Copa do Brasil, Libertadores e Sul-Americana também rende premiações extras, à medida que as equipes avançam nessas competições. Além de tudo isso, um bom trabalho na base pode render tantos outros milhões com a venda de jogadores.   Dinheiro, portanto, não falta aos grandes clubes brasileiros, muito pelo contrário. Populares, todos eles possuem um enorme potencial de arrecadação.   Ainda assim, quase todos possuem dívidas milionárias. Atrasam salários, ignoram leis trabalhistas, adiantam verbas de temporadas futuras e sonegam impostos.   Em uma reunião no Ministério da Fazenda, o ministro Joaquim Levy surpreendeu os presentes ao dizer a seguinte frase: “Pode não ser a postura do governo, mas, por mim, os clubes poderiam quebrar. Até se fosse o Botafogo”.   Levy está, tecnicamente, correto. Ninguém deseja que os clubes quebrem, mas o governo e a justiça têm a obrigação de tratá-los como o que eles realmente são. Times de futebol não são entidades beneficentes que prestam serviços à comunidade. Cobram caro por seus ingressos, negociam contratos milionários e são, na verdade, grandes empresas da indústria do entretenimento.   Por que desrespeitam leis trabalhistas, sonegam impostos e se superam ano após ano no quesito gestão temerária sem ter que prestar satisfação a ninguém?   O Botafogo de Joaquim Levy e os demais clubes não precisam quebrar. Mas precisam, imediatamente, respeitar as leis que valem — ou ao menos deveriam valer — para todos.

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