O verdadeiro nome da mulher de William não era Ann nem Anne, era Agnes, o que só se descobriu ao ser encontrado o inventário de seu pai Richard Hathaway falecido em setembro de 1581. Mas durante toda sua vida era conhecida por Ann ou Anne. Ann ou Anne explica-se pela pronuncia, então corrente, do nome Agnes como Annis e Anne. Em solteira, Ann vivia em Hewlands, em Shottery, 1,5km de Stratford, com os irmãos de sangue Bartholomew e Catherine, e mais 5 irmãos da segunda esposa de Richard. Não se sabe o nome de sua mãe nem quando morreu.
Ann é mencionada na literatura como a esposa invisível. A mulher na Era Elisabetana, solteira ou casada sofria muitas restrições, se casada não podia sair de casa sem um lenço na cabeça, estava destinada a cuidar da casa e dos filhos. As solteiras eram criadas para o casamento, as mais pobres iam trabalhar como apprentice, com baixo salário para aprenderem uma profissão. A mulher não tinha função nem projeção social ou política salvo quando nascida na nobreza. Ann estava inserida nesse contesto, nascida e vivendo toda a vida na cidadezinha de 15 mil habitantes.
Entre os comentaristas da família de William há ofensores como Antony Burgess que imaginou calúnias contra Ann em busca de promoção (in Nothing Like the Sun) e também imodesto James Joyce que se apropriou do nome Ulysses para título de seu livro e da clássica Odisseia, que segue a mesma trilha imaginária e caluniosa sobre a honestidade de Ann, sem o mais reles indício de prova ou registro histórico.
Há ainda “opium-eater” De Quincey (in Shakespeare: A Biography), argumentando pejorativamente com a idade de Ann e a de Will. Mas é uma minoria em busca de notoriedade. Germaine Greer desmente os detratores em defesa de Ann e eu aplaudo. Preferimos abordagem cronológica e dedutiva quanto possível devido à escassez de documentos. Examinamos em resumo, se William conhecia Ann enquanto vivia sua juventude em Stratford e, se a conhecia, se foram namorados antes do casamento. E a questão controversa: o fato de Ann estar grávida de três meses se William seduziu Ann ou se Ann seduziu William.
Se ele, com a magia das palavras era um suducer predator, ou se Ann, por ser oito anos mais velha e experiente, o seduziu e o prendeu com sua gravidez. Ainda, William casou-se obrigado pela gravidez de uma mulher honesta, de família importante, ou casou-se para assumir a paternidade e por amor, de livre e espontânea vontade. Esse capítulo da vida do casal tem sido tratado de todas as maneiras, desde as mais judiciosas e compreensíveis sobre a natureza humana, até com comentários de pura imaginação maldosa.
O casamento de William sem idade núbil (tinha 18 anos) suscita outra série de indagações. Então, para nós, sim, um conjunto de fatores indica que William e Ann se conheciam antes do casamento. A família Shakespeare era tradicional moradora de Stratford e a família de Ann tradicional moradora de Shottery distante apenas 1,5 km, uma caminhada de 20 minutos. Os Hathaway eram fazendeiros e John Shakespeare confeccionava e comerciava com peças de couro, lã e produtos agrícolas. John foi prefeito de Stratford em dois mandatos a quem os moradores tinham que, eventualmente, recorrer.
As famílias eram católicas e frequentavam a mesma a igreja, Trinity Church, única em Stratford, casavam, batizavam e registravam seus filhos na mesma paróquia, as pessoas andavam a pé e se cruzavam pelas poucas ruas da cidadezinha, Henley Street, High Street, Sheep Street. Estando a 160 km de Londres muitas companhias de teatro visitavam Stratford e os espetáculos em certa época eram autorizados pelo pai de William. Além de se conhecerem tudo leva a crer que foram namorados por algum tempo antes de se casarem.
A família de William tinha empobrecido, mas ele tinha o grande talento com palavras e imagens, por que Ann não se apaixonaria pelo jovem poeta? Só porque era oito anos mais velha? Esse julgamento é preconceituoso e contrário à realidade da vida. Muitos críticos como Adrew Gurr admitem que o soneto 145, escrito com pouca técnica por William ainda jovem, foi dirigido a Ann quando eram namorados. Gurr sugeriu em 1971 que a palavra "odiar" (hate away) do último terceto, pode ser um trocadilho na pronúncia elisabetana, significando Hathaway.
Em se tratando de Shakespeare a ideia de Gurr não é de afastar. Ann era uma jovem respeitável, de família tradicional, não se entregaria ao jovem William se não o amasse e não fosse correspondida. Ela não era uma gata no cio como pensa Anthony Holden para quem a gravidez de Ann foi o resultado de uma rolagem no feno, “a roll in the hay” (in William Shakespeare). Como pontifica G.Greer, as biografias de Shakespeare são casas de palha, mas há boa palha e palha podre (Shakespeare’s Wife, pg.9).