Um dos principais agitadores do cenário artístico de Campinas não resistiu a complicações de uma hepatite

Camilo Chagas: depois de 30 anos descobriu ter hepatite ( Cedoc/RAC)
A luta foi grande, mas o produtor cultural Camilo de Lellis Chagas foi vencido pela doença e morreu nesta segunda-feira (2), aos 63 anos (1951-2015). Professor de cursinho, dono de bar, organizador de eventos, agitador e produtor cultural, Camilo Chagas, foi antes de tudo um revolucionário, que movimentou o cenário artístico campineiro nas décadas de 1980 e 90. Um dos donos do Ilustrada - Um Banho de Bar, partiu dele a ideia de criar em Campinas uma banda nos moldes da carioca Banda de Ipanema. Em 1985, um grupo de boêmios se reuniu no Ilustrada durante o sábado de Carnaval e, meio que no improviso, saiu em desfile pelas ruas do Cambuí. Nascia ali a Tomá na Banda, a mais antiga banda carnavalesca da cidade, que este ano fez seu trigésimo desfile, não sob a batuta, mas com as bênçãos de seu criador. Internação Depois de meses internado, Camilo teve alta na semana do Carnaval e pode acompanhar os últimos preparativos para o desfile, coordenado por Ido Luiz e Maria Ester Januário, que o acompanhou e apoiou em longos anos de batalha contra a hepatite. No desfile do ano passado, ele foi o homenageado pela banda, que desfilou com o tema “Camilo Chagas - Campeão do Mundo” Sempre inovador, ele foi também o criador do projeto 'Segunda-Feira', que trouxe grandes nomes da música para Campinas. A ideia surgiu numa brincadeira. Camilo foi assistir um show de Arrigo Barnabé em São Paulo, no auge da chamada Vanguarda Paulistana. Depois da apresentação, conversou com o artista e comentou que pensava em convidar músicos paulistanos para apresentações em Campinas no começo da semana, quando os bares da Capital ficam fechados. Sucesso Arrigo gostou da ideia e já marcaram o primeiro show. O cantor também passou contatos de outros músicos da Vanguarda e o Projeto Segunda-feira se tornou um sucesso. Participaram do projeto nomes como Cida Moreira, Vânia Bastos, Paçoca, Tom Zé, Fortuna, Walter Franco, Jards Macalé, Capenga, Celso Adolfo, Paulinho Nogueira, Vital Farias; além dos sambistas Aniceto do Império, Nelson Sargento, Geraldo Filme e Boca Nervosa. Entre artistas locais, passaram por lá os grupos Soma, Bons Tempos, Coral Latex, Pezão, Ding Dong, Raul de Barros, Montone, Sergio Carraca, Zeza Amaral, Doc Miranda, Kastora, Ricardo Matsuda, Isa Taube, Chiquinho do Pandeiro, Tatiana Rocha, Carô, Marcílio Menezes, Bruno Assunção, Alex Giudice e muitos outros. Época de ouro Os grupos que se apresentavam com regularidade renderam dois LPs do bar: o Ilustrada volume 1, de MPB, com músicas autorais; e o volume 2, da fase roqueira. Em setembro do ano passado, o Correio Popular fez uma reportagem lembrando os áureos tempos do chamado Setor — região no Cambuí que concentrava alguns dos bares mais frequentados da noite campineira — e, Camilo, claro, não poderia ficar de fora. “Foi uma época de ouro da boemia campineira. Hoje não tem mais essa aura boêmia. A música popular perdeu muito com o fim desses bares”, comentou Camilo na época. O Ilustrada se manteve na ativa até 1995. “Fechei porque o dono do prédio pediu o imóvel”, contou ele. “Ele foi um grande mestre para mim em termos de visão da cultura, de valorização do músico. A cidade perde muito com sua morte. Mesmo doente, ele sempre tinha muitas ideias, era criativo, ousado. Não tinha mais saúde para tomar à frente das ações, mas continuava pensando, propondo coisas. É uma grande perda”, disse o parceiro Ido Luiz. Perda “Campinas perdeu uma grande pessoa. Camilo tinha o dom de aglutinar pessoas do bem ao seu redor e fazer acontecer. Vai fazer cultura num plano superior agora. Vamos sentir a sua falta”, escreveu Arnaldo Salvetti no Facebook. “O Camilo é uma dessas figuraças, uma verdadeira lenda urbana, um grande cara que se confunde com a história recente do movimento alternativo de Campinas. Um cara que ia do rock ao samba rapidinho. Quantas histórias, quantas madrugadas, quantos Tomá Na Banda, quanta coisa”, comentou o produtor Radamés Bruno. O corpo de Camilo Chagas foi velado nesta segunda e seu enterro está marcado para esta terça-feira (3), às 10h, no Cemitério Parque das Acácias.