Clamor por reformas é o ponto de consenso dos protestos anti-Dilma nas ruas e entre líderes locais

Manifestantes pelas ruas de Campinas neste domingo (15) (Camila Moreira/ AAN)
Campinas reagiu às políticas adotadas pelo governo da presidente Dilma Rousseff e cobrou mudanças, principalmente no combate à corrupção e na área econômica. Na manifestação que levou às ruas milhares de campineiros, no domingo (15), os pedidos foram vários, desde a transparência, alterações na economia, impeachment da presidente e até a volta da ditadura militar. Apesar de discursos distintos, um foi unânime: o de mudança. Para representantes dos segmentos de comércio, indústria e entidades de classe da cidade não há mais como protelar reformas no Brasil, como a política e a tributária. Também consideram que Dilma, se quiser manter os reajustes, deverá dar o exemplo, enxugar a máquina pública e tratar com mais clareza o atual momento econômico. Críticas Com dois meses do atual governo, a gestão da presidente Dilma é criticada e a situação ficou mais turbulenta após a manutenção de denúncias de corrupção na Petrobras, falta de diálogo no Congresso, uma sequência de aumentos e medidas econômicas indigestas para diversos setores. Desde então, vários protestos ocorreram, mas só no último domingo o governo teve uma amostra real da insatisfação dos brasileiros. A bandeira de endurecer as regras de combate à corrupção é um primeiro passo já anunciado por interlocutores do governo. Outro caminho é fortalecer o debate sobre a reforma política e pedir o apoio popular para tentar emplacar a proposta no Congresso, mesmo que os parlamentares sejam contrários. Mudanças no governo O presidente da Câmara de Campinas, Rafa Zimbaldi (PP), afirmou que a insatisfação da população demonstrada no último domingo é um recado claro de que o governo federal precisa adotar medidas severas e concretas de combate à corrupção e também ouvir as reivindicações da sociedade. “A insatisfação é com a política e não apenas com um partido. Se o governo agora trouxer boas propostas, independente da relação da presidente com o Congresso, a própria população pressionará os deputados e senadores pela aprovação”, disse. Na opinião do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-Campinas), Daniel Blikstein, o pacote anticorrupção é tardio no País e já deveria ter sido aprovado. Para ele, as manifestações demonstraram a insatisfação do brasileiro em todas as instâncias do poder. “Está se falando muito de batalhas entre ricos e pobres. Acontece que ninguém gosta de corrupção. Nenhum brasileiro que trabalha e acorda cedo é favorável ao que está acontecendo no Brasil”, afirmou. Reflexo positivo Blikstein disse que a manifestação foi positiva no sentido de respeitar a democracia e a diversidade de opiniões e que é a hora dos políticos reagirem. “O que todos querem é que se acerte uma forma de frear esses acontecimentos (de corrupção). A liberdade de manifestação, é uma ferramenta importantíssima do estado democrático de direito, fundamental da nossa vida.” A presidente Dilma concordou nesta segunda-feira (16) com a bandeira anticorrupção e disse que tomará medidas mais severas para punir quem comete o crime no Brasil. “A corrupção é uma senhora muito idosa, não poupa ninguém. O dinheiro tem esse poder. Não vamos achar um único segmento da sociedade que esteja acima de qualquer suspeita”, disse a presidente. Economia A insatisfação da população também se deve às medidas econômicas adotadas no início deste ano. Além de aumento em setores como o de energia e combustível, algumas medidas para o ajuste fiscal causaram impacto no mercado com a desoneração da folha de pagamento. A alta do dólar e dos juros também colocaram a País em risco. Apesar de concordar que o Brasil precisa de regras mais rígidas para a corrupção, Dilma afirmou que discorda dos manifestantes: disse que a economia não reagiu e que precisou fazer os ajustes para garantir no futuro emprego e renda. Comércio e indústria A presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Campinas e Região (Sindivarejista), Sanae Murayama Saiko, considera que os políticos precisam planejar ações que fortaleçam a economia — achar outras formas de transporte, por exemplo, ajudaria no momento de elevar o preço dos combustíveis. “Esse aumento impacta diretamente no preço final dos produtos. Não se planejou um outro meio de transporte que não seja as rodovias. O grande problema, seja nos governos municipal, estadual ou federal, é que não se tem um planejamento. Com a energia é a mesma coisa. Teremos um ano muito difícil para o comércio. A manifestação de domingo serviu para demonstrar que as atuais políticas precisam ser revistas.” O presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp-Campinas), José Nunes Filho, afirmou que o governo errou ao achar que era o “dono das ruas”. Ele também afirma que atualmente o País está sob má gestão. “O resultado é esse que nós vemos agora, o aumento de tributos, juros, alta do dólar. Um descompasso. O povo não ficará calado.” Defesa de cortes O presidente do Ciesp também defende que a presidente faça cortes no governo, com a redução no número de ministérios. “O brasileiro arcará agora com aumentos de energia, combustível. Só a população está pagando essa conta. É preciso que o governo também reduza seus gastos, corte comissionados, ministérios. Muitos políticos estão em cargos técnicos e não têm competência e conhecimento para isso. Isso não seria tão difícil”, disse Nunes. Dilma disse que terá humildade para dialogar com os mais diversos setores, mas que será firme no que se refere ao ajuste fiscal. Sem violência O prefeito de Campinas, Jonas Donizette (PSB), afirmou nesta segunda-feira que, diferentemente da manifestação de 2013, a cidade amanheceu dentro da normalidade, sem prédios públicos depredados, mas que a população "mandou um recado" mesmo com um protesto pacífico, de que o governo precisa ter clareza ao tomar suas medidas. "A manifestação foi positiva, ordeira, pacífica e civilizada, mas as respostas do governo, por hora, ainda não são suficientes”, disse. Uma das mudanças defendidas por Jonas é a revisão do pacto federativo e o aumento da parcela de recursos dos municípios. “O governo federal fica com a maior parte dos recursos do País e é o mais distante da população. Os prefeitos recebem apenas 5% e são os que têm a maior demanda das questões sociais. Isso precisa ser debatido. O governo federal precisa fortalecer os municípios para que suas próprias respostas sejam melhores.” Para o prefeito, Dilma precisa recompor a confiança política e assumir que o momento é difícil no País. "Ninguém vai para a rua protestar se está tudo bem. Eu acho que nesse momento o governo precisa passar mais solidez para o povo, mas está passando a fragilização.”