PÓS-ÓBITO

Agentes funerários ganham apoio

Grupo se propõe a ajudar profissionais que trabalham no manejo de corpos durante a pandemia

Francisco Lima Neto
02/08/2020 às 10:39.
Atualizado em 28/03/2022 às 19:53
Com roupas especiais para evitar o risco de contágio, homens carregam o caixão durante sepultamento: busca por procedimentos mais claros (Wagner Souza/AAN)

Com roupas especiais para evitar o risco de contágio, homens carregam o caixão durante sepultamento: busca por procedimentos mais claros (Wagner Souza/AAN)

Pesquisadores do Departamento de Saúde Coletiva, Centro Interdisciplinar de Bioética, Área de Saúde do Trabalhador e Disciplina de Medicina Legal da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp criaram o Grupo de Apoio Pós-Óbito (Gapo) para identificar pontos que podem melhorar os processos necessários após a morte de um paciente. A ideia surgiu por conta da preocupação com as dificuldades que muitos familiares e profissionais da saúde — em particular, os agentes funerários — estão enfrentando após o falecimento de pessoas por Covid-19. O professor de Medicina Legal do DSC da FCM e coordenador do Gapo, Paulo Newton Danzi Salvia, lembra do grande número de mortes que a pandemia já causou. E em meio a essa situação, ele cita que existe uma grande dificuldade com o manejo dos cadáveres devido ao medo da contaminação. "Conheço bem essa realidade, por isso propus que a gente formasse o grupo de apoio aos profissionais que trabalham com isso. Esses profissionais ficam meio invisíveis para a sociedade, que não enxerga os agentes funerários, médicos legistas, os que verificam o óbito, é um grupo que trabalha no manejo do cadáver, que é um instrumento de contaminação. É preciso uma série de cuidados", explica. O início das atividades do Gapo se deu em parceria com o trabalho da Setec (Serviços Técnicos Gerais), responsável pela prestação de serviços funerários em Campinas. Segundo o professor, um dos primeiros desafios identificados pelo grupo foi o preparo das equipes profissionais para realizar a escuta nas autopsias verbais.Ele explica que antes da Covid-19, se a causa da morte fosse bem definida, como por exemplo, em hospitais, locais de longa permanência ou mesmo em casa, mas com acompanhamento da equipe da Unidade Básica de Saúde (UBS), não precisaria de necropsia. Já quando a pessoa não tinha o acompanhamento da UBS, a causa da morte era mal definida e a morte ocorria fora de um hospital, por exemplo, o corpo era encaminhado para o Serviço de Verificação de Óbito (SVO), que fica no Cemitérios dos Amarais, assim como no Instituto Médico Legal (IML). Segundo o professor, o Estado mudou o fluxo porque a Covid é classificada como agente biológico nível 3. "Como não tem salas preparadas para esse tipo de necropsia, ela foi substituída pela autópsia verbal. Esse questionário é aplicado com a família, se colhe todos os dados clínicos e, com base nisso, o médico vai fazer o atestado da causa", explica Salvia. Assim, o corpo não precisa ser levado ao SVO e a família não necessita fazer o deslocamento até lá. O corpo sai da casa direto para o sepultamento, evitando a contaminação de todos os envolvidos no manejo do cadáver. Tendo em vista essa realidade, o Gapo passou a oferecer capacitação técnica e discussão de casos aos agentes funerários, a fim de identificar e dirimir as dificuldades enfrentadas no dia a dia de trabalho, especialmente no contexto de uma pandemia nos moldes da Covid-19. “Não raras vezes, culpam-se os agentes funerários pela lacração do corpo, quando a informação sobre a suspeita não aparece registrada na Declaração de Óbito. Muitos familiares buscam, desesperadamente, abrir o caixão para a última despedida. Caso isso aconteça, parentes e profissionais ficam expostos à contaminação”, comenta o professor. A proposta do Gapo é trabalhar para que todos os profissionais de saúde da rede pública, incluindo Unidades Básicas de Saúde, hospitais, Instituições de Longa Permanência e privada, informem de forma clara os procedimentos a serem adotados, a fim de proteger todos os profissionais envolvidos no manejo de corpos, os próprios familiares e as pessoas próximas ao falecido. Os profissionais médicos, responsáveis legais pelo preenchimento da Declaração de Óbito, devem registrar Covid-19 no documento, no caso de suspeita ou confirmação da doença. “Lacrar o corpo sem atestar a suspeita para Covid-19 na Declaração de Óbito, além de não garantir a proteção dos profissionais e dos familiares, contribui para a geração de informações contraditórias que ensejam diferentes interpretações e angústia nos familiares”, afirma o docente da FCM. Outro ponto que mudou é que com a declaração de óbito feita pelo médico, em tempos normais, era preciso ir ao cartório para fazer a certidão de óbito e só assim era possível fazer o enterro. "Agora com a Covid, é possível sepultar apenas com a declaração do médico. Depois os familiares têm 30 dias para ir ao cartório fazer a certidão", esclarece Salvia. O curso, segundo o professor, foi focado nos agentes funerários — incluindo os coveiros — porque eles devem ser considerados agentes de saúde, já que estão bastante expostos aos riscos de contaminação e são eles que aplicam os questionários aos familiares antes da remoção do corpo. Quando há a suspeita da doença, o corpo é colocado em uma espécie de cobertor e lacrado com dois sacos plásticos impermeáveis. "É importante o treinamento porque o familiar, por conta de querer fazer uma última despedida, observar o corpo, pode não prestar as informações corretas sobre os sintomas que a pessoa apresentou antes de morrer, por exemplo. Aí, se perde a qualidade da informação. Só é feito teste de Covid no cadáver se houver suspeita da doença", diz. Profissionais estão expostos à contaminação e distúrbios Uma das dificuldades verificadas pelo Gapo é a necessidade de mudar a forma de lacrar os corpos. Para alinhar os procedimentos, o grupo publicou uma nota técnica recomendando o acondicionamento dos corpos em sacos plásticos transparentes para facilitar o reconhecimento visual do falecido, quando necessário, além de orientações aos entrevistadores de autopsias verbais. “A mudança operacional oferece mais segurança aos familiares no momento de certificar se o corpo sepultado é mesmo do ente familiar”, comenta o professor de Medicina Legal Paulo Newton Danzi Salvia. O Gapo também constatou a necessidade de valorizar a importância do trabalho invisível realizado pelos agentes funerários. “São profissionais da saúde que merecem todo o nosso respeito e consideração, estão expostos a riscos de contaminação e distúrbios psíquicos. É nossa responsabilidade social oferecer todo o suporte necessário”, afirmou o coordenador do grupo. A Setec conta com 19 agentes e informou que "a parceria é importantíssima para capacitar nosso pessoal em relação às autópsias verbais, muito utilizada nesse período de pandemia".

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