A compaixão contribui para amenizar o drama dos dois irmãos idosos brutalmente agredidos durante um roubo no final do mês passado, em Campinas
Falar a respeito e recordar os fatos do último dia 28 serão sempre motivos de tristeza para uma família do distrito do Ouro Verde, em Campinas. Na ocasião, dois irmãos idosos foram brutalmente surrados durante um roubo. A vítima de 75 anos teve um coágulo no cérebro, passou a madrugada internada em observação, mas recebeu alta na manhã seguinte. Já o irmão de 86 anos perdeu o olho esquerdo. A crueldade que chocou a cidade, sensibilizou Carlos Eduardo Carilli. O técnico em próteses oculares de 56 anos decidiu exercer a caridade — substantivo feminino definido pela maioria dos dicionários como um sentimento ou ato altruísta em prol de alguém sem a espera de uma recompensa em contrapartida. Ao tomar conhecimento do ocorrido, o profissional da saúde, popularmente chamado de ocularista, resolveu doar uma prótese e oferecer todo o tratamento necessário à vítima para atenuar o sofrimento da família. "Essa ação criminosa foi uma atrocidade sem limites", disse. Carilli informou que, se a família fosse pagar pelos serviços, teria uma despesa estimada em R$ 9 mil, sendo R$ 3 mil do componente artificial, feito em material importado, mais R$ 6 mil referentes às avaliações periódicas. "As agressões resultaram na explosão do globo ocular. Por isso, foi preciso fazer uma cirurgia para eviscerar o olho", detalhou. Nesses casos, é necessário aguardar 40 dias após o procedimento para colocar a prótese provisória. Na manhã da última terça-feira, Carilli avaliou a condição da cavidade ocular da vítima e assegurou que todo o atendimento médico até agora foi realizado com excelência. Na mesma data, o idoso, que terá sua identidade preservada por questões de segurança, retirou cerca de 20 pontos que levou nas pálpebras. Antes da definitiva, será colocada uma prótese provisória para moldar a cavidade, que naturalmente sofrerá alterações de tamanho em decorrência do trauma. Carilli diz não concordar quando dizem que se trata de uma prótese exclusivamente estética. De acordo com o ocularista, ela também é funcional. "O componente devolve a harmonia facial e, consequentemente, a autoestima do paciente, o que auxilia na sua ressocialização, entre outros benefícios para sua vida cotidiana", afirmou. "Hoje, ainda existe muito preconceito ligado à imagem: conheço pais de família que estão desempregados por causa de situações assim", encerra. Momentos de angústia e pavor O idoso de 86 anos pouco fala sobre o roubo: se recorda de pouca coisa e ainda está abalado. O mais jovem, de 75 anos, relembra com detalhes os momentos angustiantes vividos ao lado do irmão. De acordo com a vítima, os criminosos conversavam mansamente quando entraram na residência. "A princípio, achei que era meu sobrinho. Mas, rapidamente eles anunciaram que era um roubo", disse. Revoltado com o fato, o idoso comenta que estava dormindo, enquanto seu irmão tomava banho. "Como eu, meu irmão se confundiu e achou que um dos bandidos era seu neto. Ele tentou abraçá-lo. Quando percebeu o engano, gritou com o ladrão. Nesse momento, começaram a bater nele duramente", afirmou. Em seguida, foram para cima dele também e desferiram diversos golpes em sua cabeça. "A todo o momento, nos mandavam ficar quietos e ameaçavam que iriam nos matar", detalha. "Me amarraram, mas consegui me soltar", recorda, explicando que após socorrer seu irmão mais velho, que chegou a ficar desacordado, pediu ajuda ao vizinho. Ambos foram levados para o Hospital Ouro Verde. A ação foi por volta das 21h. INVESTIGAÇÃO O crime do dia 28 de fevereiro contra os irmãos idosos é investigado por policiais civis do 9º Distrito Policial de Campinas, na Vila Aeroporto. Segundo o delegado José Roberto Mecherino Andrade, o caso foi registrado como roubo e também associação criminosa, devido ao delito ter sido cometido por mais de três pessoas. Até o fechamento desta edição, ninguém tinha sido preso. "Quem tiver alguma informação que possa nos ajudar a identificar os autores, deve comparecer à delegacia ou entrar em contato pelo disque denúncia através do número 181", disse Andrade. VIOLÊNCIA Terceira moradora da casa, a filha do idoso de 86 anos, não estava presente no momento do roubo. "Nós ouvimos falar de violência e achamos que ela está longe da gente. Depois desse episódio, constatei que está bem perto", afirmou a mulher, de 38 anos, que diz estar horrorizada com a barbaridade cometida contra seus familiares. "Meu pai aguarda na fila de espera do Sistema Único de Saúde por uma prótese para o fêmur. Ele anda vagarosamente e com muita dificuldade e ainda por cima é diabético", disse. "Acredito no trabalho da polícia e que os culpados irão pagar pelo que fizeram. Nem que seja pela justiça divina", afirmou. Contudo, ela comemora que ainda existem pessoas que carregam a caridade no coração. "O Carlos é um anjo que Deus colocou na nossa vida. Vamos passar a vida agradecendo a ele", encerra.