O principal público atingido é de adolescentes e jovens adultos e, equipes de saúde observaram um grande número de pacientes sem nenhuma dose ou sem o reforço

Breno, de 17 anos, lutador de jiu-jítsu, desenvolveu pancreatite por causa da caxumba: torneios perdidos ( Dominique Torquato/AAN)
Subiu para 46 o número de surtos de caxumba em Campinas. De janeiro até o último dia 28, 285 casos da doença foram registrados na cidade e 59 instituições de ensino receberam bloqueio, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde. Ao menos 15 mil doses de vacinas foram aplicadas nessas ações. No começo do mês passado, o município contabilizou 23 surtos. O último quadro como esse aconteceu em setembro de 2015 e foi contido em outubro. O principal público atingido é de adolescentes e jovens adultos e, segundo a pasta, as equipes de saúde observaram um grande número de pacientes suscetíveis, ou seja, pessoas sem nenhuma dose ou sem o reforço. O motivo, principalmente, é porque a aplicação dessa segunda dose só passou a ser obrigatória pelo Programa Nacional de Imunização a partir de 2006. Desde então, a criança recebe a imunização contra caxumba aos 12 meses (na tríplice viral, que protege ainda contra o sarampo e a rubéola) e a segunda dose aos 15 meses (tetra viral, que inclui sarampo, rubéola e varicela). A ação da Prefeitura para conter o surto são os bloqueios com vacinas. Nessa semana a Universidade Paulista, campus Swift, e Universidade São Francisco receberam bloqueio, segundo a Saúde. Em junho, outras seis instituições também tiveram parte do público imunizado, como o Sesi Amoreiras, Escola da Polícia Militar, as escolas estaduais Coriolano, Matozzino e Pedro Salvetti Neto, além da Escola Técnica Estadual Conselheiro Antonio Prado (Etecap). “Em cada instituição realizamos uma avaliação epidemiológica para entender qual público vamos imunizar, se será uma sala, ou todo período, por exemplo. O problema é que muitos não aderem à campanha. É importante que os pais e estudantes aproveitem esse período de férias para atualizar a carteirinha de vacinação em qualquer posto da rede, a fim de minimizar a transmissão”, destacou Valéria Mello Jardini, enfermeira e coordenadora do programa de imunização do departamento de Vigilância em saúde de Campinas. Kamila Varani, de 28 anos, descobriu que estava com caxumba na semana passada. A especialista em planejamento comercial começou a ter febre e sentir dores no pescoço, na altura da garganta. Ela não frequenta mais escola ou universidade e não sabe como foi infectada. “Não conheço nenhuma pessoa que esteja com caxumba do meu círculo de convivência e o único lugar que fui que tinha muitas pessoas foi um aniversário na casa de uma amiga, que aconteceu em uma varanda fechada, no último domingo”, contou. Kamila disse ainda que o médico que a atendeu informou que ela poderia ter sido infectada em qualquer lugar, por conta do surto na cidade. Ela não tomou a segunda dose de reforço da vacina. Complicações O estudante do Sesi Amoreiras, Breno de Oliveira, de 17 anos, ficou internado mais de uma semana por complicações causadas pela caxumba. De acordo com a mãe dele, Alessandra de Oliveira, de 45 anos, ele havia tomado as duas doses da vacina, uma quando criança e outra há dois anos. “O vírus provocou pancreatite e ele precisou ficar internado. Ele é atleta e tem uma saúde bem cuidada, tomou as duas doses, mesmo assim, ficou doente”, contou. O adolescente é lutador de jiu-jítsu e já ganhou mais de 25 medalhas em torneios nacionais e internacionais. Ele acabou não participando de competições que aconteceram recentemente por conta da doença. Mesmo com as duas doses, imunização não é de 100% O infectologista da Devisa, Rodrigo Angerami, explica que mesmo que as duas doses da vacina tenham sido tomadas, a cobertura não é de 100% e a imunização precisa ser feita antes da exposição ao vírus. Além disso, a vacina contribui, também, para evitar o desenvolvimento de possíveis quadros graves da doença. Entre as complicações, que não acontecem na maioria dos casos, estão a orquite, que é a inflamação da bolsa escrotal, no caso dos homens. Para as mulheres, pode haver inflamação nos ovários. Há a possibilidade, também, de infecção das glândulas salivárias, da tireóide e das articulações. Também é possível que a doença provoque meningite. A transmissão pode acontecer uma semana antes do surgimento dos sintomas até nove dias após a reação. Entre os sintomas estão o aumento das glândulas parótidas, febre e dor ao mastigar e ingerir líquidos. Em um terço dos pacientes, a doença não se manifesta. “O período de incubação pode levar de 12 a 25 dias, ou seja, a pessoa foi infectada, mas demora para manifestar” , explicou a enfermeira da Devisa Valéria Mello Jardini.