HÁ 50 ANOS

Chegada do '600mm' confirmou espírito inovador de Campinas

Telescópio é um dos cinco aparelhos da Prefeitura instalados na Serra das Cabras, em Joaquim Egídio

Mariana Camba/mariana.camba@rac.com.br
30/05/2026 às 10:48.
Atualizado em 30/05/2026 às 10:48

O observatório “Jean Nicolini” é considerado pioneiro na astronomia brasileira por ser o primeiro municipal do país (Rodrigo Zanotto)

Há 50 anos, em 29 de maio de 1976, chegava ao Aeroporto Internacional de Viracopos o telescópio “600”, conhecido pelo seu diâmetro de 600 milímetros (25 polegadas). O equipamento de fabricação norte-americana é um dos cinco telescópios instalados desde a inauguração do Observatório Municipal “Jean Nicolini” (1977), localizado na Estrada do Capricórnio (Serra das Cabras) em Joaquim Egídio. 

O equipamento foi adquirido pela Prefeitura de Campinas e custou, na época, 112 mil dólares, o equivalente a pouco mais de meio milhão de reais na cotação atual, com o objetivo de acelerar o programa de desenvolvimento tecnológico do município, na época. O aparelho permanece em funcionamento no observatório como um dos maiores telescópios disponíveis para a observação pública no País. Para o técnico em astronomia Rubens Mathias Azevedo o equipamento é um dos patrimônios de Campinas. 

AGLOMERADOS ESTELARES 

O telescópio da marca Group Mod.128 permite a observação de corpos celestes como a Lua, planetas e aglomerados estelares e conta com montagem equatorial, com suporte e eixo alinhado paralelamente ao eixo de rotação da Terra, além de um sistema de foco direto que permite o uso de diferentes lentes oculares. Localizado sobre uma cúpula com sistema automático de abertura parcial, o espaço onde o telescópio está instalado não permite a observação total do céu pelos visitantes. Por isso, normalmente o público é direcionado aos telescópios de 500 mm e de 250 mm que estão instalados sobre um teto retrátil. “Quanto mais potente o equipamento, menor é a imagem que você vê no céu. Tem um espelho secundário no topo da estrutura que desencadeia três reflexos que aumentam a razão focal, característica da observação de objetos mais brilhantes”, explicou. 

Segundo o técnico, todo objeto observado pelo telescópio é um elemento químico, como uma assinatura na luz que é identificada pelo “600 mm”. Os demais equipamentos presentes no observatório são voltados à exploração do céu profundo, como as nebulosas, estrelas mais distantes e os demais objetos que não estão presentes no sistema solar. O telescópio cinquentenário ainda é capaz de alcançar elementos a quatro bilhões de anos-luz de distância e conta com o sistema óptico que permite vislumbrar o céu. “Eu já observei Júpiter, Saturno, Vênus, aglomerados de estrelas... Essa é uma experiência que todos deveriam ter uma vez na vida”, ressaltou Rubens. 

Ao apontar para determinado objeto, o aparelho capta a luz, que passa pelo tubo envolto no espelho de 60 cm de diâmetro e, na sequência, é refletida no espelho maior e depois direcionada para o espelho menor, numa sequência de três reflexos. A dimensão da lente ocular nesse contexto, acrescenta, é capaz de aumentar o tamanho do objeto que será observado, em que quanto mais milímetros ela tiver, menor será a imagem, como um sistema contrário ao da câmera fotográfica. “Geralmente, em um telescópio como esse, a gente usa uma lente de 40 mm”, comentou. O equipamento também conta com um telescópio menor acoplado a ele, chamado de “buscadora”, com o mesmo direcionamento do telescópio maior e que permite a observação mais ampla do céu. Por isso, a maior facilidade em encontrar o objeto, como se esse fosse um instrumento auxiliar na busca. 

LASER 

A manutenção do equipamento demanda uma semana de trabalho e tem o objetivo de realinhar o foco do telescópio a partir da projeção de um laser capaz de simular uma estrela falsa no espaço. A última manutenção foi realizada há alguns anos e a próxima deve ser realizada nos próximos meses, a depender da disponibilidade da verba pública. O “600 mm” permite o uso manual e eletrônico a partir do computador que está conectado aos motores do equipamento, responsáveis pelo redirecionamento do aparelho de acordo com a localização definida. O sistema também demanda o uso do motor de correção da rotação da Terra, que permite a observação por mais de 15 segundos. 

“Depois que o motor é travado, o telescópio acompanha a rotação da Terra que, de Oeste para Leste e na nossa latitude, está em torno de 1.535 km/h, mas a gente não percebe. O equipamento faz uma inversão de rotação proporcional ao tamanho dele para poder acompanhar o movimento”, informou. Este é um aparelho pesado, acrescenta, que demanda contrapeso para a sua estabilidade, além de ser algo de grande sensibilidade que, portanto, exige cuidado e capas de proteção para assegurar a limpeza e integridade das lentes e espelhos. “Ao usá-lo, o visitante tem dimensão da imensidão do universo, o que contribui para reconhecimento do nosso tamanho no mundo. Quem observa pela primeira vez se encanta. Este é um patrimônio de valor imensurável para Campinas”, concluiu Rubens. 

O observatório “Jean Nicolini” é considerado pioneiro na astronomia brasileira por ser o primeiro observatório municipal do país. O espaço conta com em torno de três mil visitantes ao ano e sedia atividades educacionais em astronomia. Segundo o professor do Instituto de Geociências da Unicamp, Wagner Amaral, a função inicial do observatório era a divulgação da astronomia a partir das visitas de profissionais e entusiastas. Desde então, o local se tornou o parque tecnológico astronômico, além de ser um espaço fundamental para a consolidação do astroturismo na cidade. 

TECNOLOGIA DE PONTA 

“Este é um instrumento muito valioso, caro e que se diferencia pelo seu conjunto óptico, que permite a observação de vários detalhes, com potencial de entrega de imagens de extrema qualidade. Algo que realmente é impressionante pela definição que ele permite”, ressaltou o docente. Embora existam outros instrumentos mais modernos, acrescenta, o conjunto óptico do aparelho ainda faz dele uma tecnologia de ponta, mesmo 50 anos depois da sua chegada a Campinas, e com um “potencial inigualável” nos dias atuais. Assim como na época, o aparelho ainda é um dos poucos presentes no país, o que ressalta o seu valor histórico. 

De acordo com Wagner, o “600 mm” é conhecido pela configuração Cassegrain, que conta com o sistema óptico refletor a partir do uso de espelhos e que é conhecido pela grande distância focal. “Ele é diferenciado e raro. A qualidade que ele alcança devido à abertura maior é como a de zoom de qualidade extrema, além do que podemos imaginar, e é capaz de identificar detalhes dos elementos no espaço. Vale a pena ir até lá e ter essa experiência pelo menos uma vez na vida. É algo único”, concluiu.  

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Anuncie
(19) 3736-3085
comercial@rac.com.br
Fale Conosco
(19) 3772-8000
Central do Assinante
(19) 3736-3200
WhatsApp
(19) 9 9998-9902
Correio Popular© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por