DENGUE

Cidade fecha as portas aos agentes

Curiosamente, maiores dificuldades nas vistorias são encontradas em bairros mais favorecidos

Francisco Lima Neto
cidades@rac.com.br
25/05/2019 às 09:37.
Atualizado em 03/04/2022 às 09:53

Uma das explicações para o alto número de casos de dengue em Campinas neste ano pode ser algo bem simples: os agentes não conseguem acessar todas as residências visitadas para fazer o combate aos possíveis criadouros. De acordo com dados do Programa de Arboviroses, 45% dos domicílios visitados não puderam ser acessados pelos agentes no primeiro quadrimestre de 2019. O problema é maior nas áreas mais favorecidas da cidade. Grande parte das casas está desocupada ou com moradores fora. Na última segunda-feira, Campinas alcançou 13.912 mil casos da doença. Na primeira previsão, o secretário de Saúde, Carmino de Souza, projetava 5 mil casos no ano. Quando o número foi alcançado, a projeção dobrou, e ainda sim foi superada. Umas das justificativas para esses casos de dengue, que já vitimaram três pessoas no ano, talvez seja essa falta de acesso para exterminar o problema na fonte. Segundo Heloisa Malavasi, coordenadora do Programa de Arboviroses, os bairros tradicionais da cidade são onde os agentes mais encontram dificuldades de acesso. Encabeçando a lista estão Barão Geraldo e Taquaral. "Desse número de 45%, as áreas nobres são a maior parte. Têm uma dificuldade maior no acesso aos imóveis. Nos condomínios também tem dificuldade de ingresso”, diz. Ainda segundo ela, para contornar o problema, as visitas são agendadas, os horários são alterados, é aberta a possibilidade de visitas no sábado, mas ainda sim o acesso é complicado. Apesar de ter casos em que a visita é negada porque as pessoas têm medo — principalmente os idosos —, a maior parte dos imóveis não é acessada porque não tem ninguém na casa no momento da visita ou porque o imóvel está desocupado. "O impacto é que os imóveis não acessados deixam de receber a ação de remoção, larvicida, controle de criadouros. E as pessoas desses imóveis deixam de ter a informação. É um momento de, na prática, receber uma orientação da equipe", explica. De acordo com ela, se numa quadra metade das casas foi acessada e outra parte não, se em apenas uma delas tiver um criadouro, o problema se perpetua na região. Mesmo o acesso na periferia sendo mais fácil, o trabalho precisa ser feito mais vezes. "A gente faz a remoção (dos criadouros), mas acontece de novo. Parte é por conta de descarte irregular, parte é por conta dos depósitos de reciclagem, então a reposição é maior. Parece que não existe um cuidado com o território, é como se não houvesse um pertencimento", avalia. Ela explica que é um processo educativo. Algumas pessoas recebem as instruções e incorporam, mas outras precisam de reforço várias vezes, com outra linguagem, ajuda da comunidade, das escolas, das igrejas. "A gente espera acessar esses domicílios e que eles façam uso das informações que recebem e façam mudança nos hábitos. Nem que seja 10 minutos por dia para verificar seu quintal, porque as pessoas sempre acham que o problema é o vizinho", ressalta. Estatísticas As estatísticas sobre a dengue em Campinas impressionam. Só neste século, 156.911 mil moradores da cidade contraíram a doença. Deste total, mais de dois terços dos casos ocorreram de 2014 para cá. Neste ano, 13.912 mil pessoas foram infectadas entre janeiro e o último dia 20 de maio. O número é 46 vezes maior que todos os 301 registros de 2018. A epidemia se caracteriza quando diversos locais começam a apresentar surtos, isto é, quando ocorre um aumento no número de casos além da normalidade. Às vezes, um surto pode até ser um número pequeno, desde que seja uma situação incomum, como um bairro que nunca teve relatos de determinada doença e passa a contabilizar registros. Neste século, Campinas teve quatro epidemias de dengue, segundo a diretora do Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa), Andrea Von Zuben. O secretário avalia que agora a tendência é de diminuição dos casos. Esse ano já está passando. "Os casos têm diminuído e vão continuar caindo nas próximas semanas. Resolvemos desativar o centro de hidratação do São Bernardo, a partir de sexta-feira (ontem). Tomei essa decisão ontem (anteontem) porque 70% de quem é atendido lá não tem nada a ver com dengue", revela.

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