A revitalização do bairro Botafogo, prometida há anos pela Administração Municipal de Campinas, e aguardada há tempos pelos moradores da região
A revitalização do bairro Botafogo, prometida há anos pela Administração Municipal de Campinas, e aguardada há tempos pelos moradores da região, enfrenta um entrave: a burocracia. O retrato dessa situação é o prédio do antigo hospital Coração de Jesus, que completa um século de vida em 2019, sem utilização, com mato alto, sem a preservação necessária e nem o resgate de sua história. O prédio, que tem 3,6 mil metros quadrados de área construída, em um terreno de 7,5 mil metros quadrados, está desocupado pelo menos desde o início dos anos 2000. A arquitetura do antigo hospital, inaugurado em 1919, é eclética, com detalhes neorrenascentistas. Em dezembro de 2008, a resolução número 74 tombou a fachada, a volumetria, gabarito de altura, cobertura, esquadrias e pisos centenários. A lei determina a preservação do prédio e de elementos da quadra envoltória. No ano passado, o Correio mostrou que o local era cenário de abandono. Com mato alto, janelas de madeira sem manutenção e caindo aos pedaços, além de pichação. O imóvel pertence a um grupo de empreendedores paulistanos, que mantém vigilância no local para evitar vandalismo ou invasões. Ainda em maio do ano passado, Daisy Ribeiro, da Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural (CSPC), afirmou que fiscalizações constataram manutenção precária do terreno e desrespeito ao patrimônio. Isso, segundo ela, causaria puniçõe. Os técnicos consideravam a possibilidade de levar o caso ao Ministério Público (MP). “O proprietário será notificado sobre cuidados que não podem mais ser adiados. É um prédio belíssimo, amado pelos campineiros. É um patrimônio da nossa cultura”, disse, à época. Decorrido um ano dessa situação, Dayse explicou que foi feito contato com a empresa proprietária do prédio, que mandou fazer uma limpeza no terreno e algumas intervenções de urgência no telhado e forro. "Eles estavam num momento de passagem de proprietário. Não houve nenhuma multa ou sanção", admite Dayse. Ela conta que está em contato com a empresa proprietária do prédio. "Estamos em contato e eles estão preparando um projeto para a intervenção de recuperação do prédio", afirma. No entanto não há prazo para que esse projeto seja finalizado e apresentado. Após esse trâmite, o projeto ainda precisa ser avaliado pelos setores responsáveis da Prefeitura e só depois de aprovado é que alguma intervenção pode ser feita no local. A reportagem tentou contato com a empresa dona do prédio, que tem sede em São Paulo, mas o responsável não foi encontrado para dar detalhes do projeto e nem retornou aos recados deixados. Ainda segundo Dayse, o prédio foi incluído em um programa de visitação a áreas históricas de Campinas. História O processo de tombamento do prédio do antigo hospital Coração de Jesus foi aberto em 1999, logo após a transferência das unidades de ginecologia, obstetrícia e pediatria que funcionavam ali para o Hospital Beneficência Portuguesa. Empresa de saúde desistiu de montar hospital no local O prédio do Hospital Coração de Jesus foi inicialmente adquirido pela Intermédica Saúde, que tinha planos de montar um hospital moderno, mas acabou direcionando o investimento para o Hospital Renascença, na Avenida Barão de Itapura. Logo após a compra pela empresa paulista de seguro de saúde, o Condepacc iniciou estudos visando o tombamento e a seguradora desistiu de construir um novo hospital no prédio. Para que isso fosse possível, a Intermédica teria de adaptar as instalações antigas, com grandes enfermarias, às normas atuais. Ciente de que enfrentaria dificuldades, a empresa inicialmente optou pela venda, entretanto, em 2010, informou que não venderia mais o prédio, pois tinha novos planos para ele, planos que não foram divulgados. No entanto, em 2012 resolveu vender o prédio definitivamente. SAIBA MAIS O prédio da Rua Salustiano Penteado tem história. O Hospital Coração de Jesus foi o herdeiro da Sociedade de Socorros Mútuos, surgida em 1904, após uma dissidência de sócios da Real Sociedade Portuguesa de Beneficência, fundada em 1873. A sociedade funcionou até a década de 1950. A partir daquela década, ficou ociosa. Entre 1966 e 1967, houve a integração da Sociedade de Socorros Mútuos com a Real Sociedade Portuguesa de Beneficência, que absorveu o prédio e os sócios. Em 1973 foi criado o Hospital Materno-Infantil Coração de Jesus. Em 1999, quando o hospital foi extinto, funcionavam apenas as áreas de ginecologia, obstetrícia e pediatria que foram transferidas para a Beneficência. A decisão de desativar o Coração de Jesus foi a saída encontrada para tentar estabilizar a situação da Real Sociedade, que tinha atrasos nos depósitos do FGTS e acumulando prejuízos.