Há 15 anos trabalhando em um cemitério público, um segurança, cujo nome foi preservado, afirma que nunca viu enterros como os que estão acontecendo
Há 15 anos trabalhando em um cemitério público, um segurança, cujo nome foi preservado, afirma que nunca viu enterros como os que estão acontecendo nos últimos tempos, devido à pandemia mundial da Covid-19. Cenas de tristeza e solidão, em especial nos casos em que o velório é de vítima da doença. “Já vi filmes sobre pandemias e são cenas horríveis. Nunca imaginei vivenciar essas cenas, mas agora vejo em minha frente. Coveiros vestidos como astronautas. Velório somente com o caixão na sala e a família, apenas algumas pessoas, do lado de fora. Caixão lacrado sem poder ser tocado na despedida. É muito triste”, disse. Só no cemitério onde ele trabalha, cujo nome também será mantido em sigilo, houve três enterros confirmados do novo coronavírus e outros cinco suspeitos. Em média, são enterrados de cinco a oito corpos por dia, de causas diferenciadas. “Os coveiros são verdadeiros heróis. Trabalhamos diretamente com os mortos. Somos os responsáveis pelo carregamento dos caixões e o enterro. Tocamos em tudo, mas com a devida segurança”, disse o coveiro Leonardo Santos Mendes, de 27 anos, que trabalha na profissão há nove anos. “No começo, tinha muito medo. Medo de pegar a doença, pois estamos muitos expostos. Agora estamos acostumados. O pessoal ainda estranha e tem preconceito por usarmos os equipamentos de proteção”, falou. Os trabalhadores estão sendo obrigados a trabalhar com roupas especiais. Passaram a usar macacões brancos impermeáveis com touca. Protetor respiratório com válvula de exalação, óculos translúcidos e equipamento de proteção lombar. Têm de usar ainda, botas de segurança com bico de aço e cano longo, além de capas de chuva e boné touca árabe. Desde que foram determinadas normas de segurança de proteção contra a epidemia nas cidades paulistas, em especial para os cemitérios, nos casos de suspeita ou confirmação da doença, quem remove o corpo e o caixão são funcionários das funerárias e os coveiros passaram a usar macacão, luvas e máscaras de proteção em casos suspeitos e confirmados, mas recentemente foi estendido para todos os enterros. Cada funcionário tem sua roupa específica que usa no momento do enterro. Eles retiram quando terminam, lavam com cloro e sabão, secam para depois serem usadas novamente. “Utilizamos e lavamos no próprio cemitério. A gente se troca muito rápido. É muito tranquilo. Usamos para nossa segurança e de nossa família”, disse Mendes, que mora com os pais. “Minha família já se acostumou. Não se preocupa mais, pois sabe que estamos trabalhando bem equipados. É claro que corremos risco, mas só Deus para nos guardar”, acrescentou. Medidas rigorosas Desde o último domingo, a Comunidade Religiosa Santa Rita de Cássia, que administra os Cemitérios Parque Flamboyant, Parque das Aleias e Parque das Acácias, em Campinas, implementou medidas preventivas e de proteção ainda mais rigorosas das que já são praticadas nas dependências dos cemitérios, em virtude das recomendações do Ministério da Saúde para combater o avanço do novo coronavírus. As medidas restritivas vigentes incluem cemitérios fechados para visitação, com abertura apenas para sepultamentos; priorização do atendimento a distância para todos os serviços; duração de todos os velórios, que não sejam suspeitos ou tenham causa morte da Covid-19, de uma hora; sepultamento sem velório para os casos confirmados e suspeitos da Covid-19, que virão com as urnas lacradas e impossibilitadas de abrir; ocupação máxima de cinco pessoas na sala por vez; manutenção de todos os ambientes abertos e ventilados naturalmente, sem uso da climatização artificial nas dependências dos cemitérios, dentre outras. “A Comunidade reitera que disponibiliza o Velório On-line nos Cemitérios Parque Flamboyant e Parque das Aleias, que permite a participação segura e confortável dos familiares e amigos. A senha é oferecida às famílias gratuitamente e o acesso é por meio do site”, frisou em nota. Impacto da pandemia atinge a todos Ainda que de forma indireta, a jornalista Lázara Paes Leme sofreu fortemente os impactos da pandemia. No final de março, sua mãe faleceu por conta de uma série de complicações de saúde, entre elas o agravamento do diabetes, insuficiência cardíaca e problemas renais crônicos. Nada a ver com o coronavírus, mas, ainda assim, acabou sendo afetada por restrições decorrentes da epidemia. “O velório foi restrito à família. Só três horas foi o tempo que tivemos para velar seu corpo e nos despedirmos. Nos revezando de cinco em cinco pessoas, para evitar aglomeração”, conta ela. “Mesmo com tanta dor da perda, tivemos que ser complacentes. No sepultamento, também só cinco pessoas puderam acompanhar e, ainda assim, mantendo distância umas das outras. Nós somos em cinco irmãos, aí foi a conta. Já imaginaram se fosse um número menor permitido e tivéssemos de escolher?”, indaga ela. “Tempos difíceis, jamais imaginaríamos que seria assim”, finalizou.