A onda de difamação e ódio que se seguiu ao assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) não surgiu espontaneamente. Foi organizada por grupos que aproveitam todas as oportunidades para destruir os outros

Desvendando os meandros do ódio (Cedoc/RAC)
A onda de difamação e ódio que se seguiu ao assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) não surgiu espontaneamente. Foi organizada por grupos que aproveitam todas as oportunidades para destruir os outros. O romancista e Prêmio Nobel de Literatura Elias Canetti, em Massa e Poder, chama esses grupos organizados de “cristais de massas” — pessoas que recolhem os ódios que estão na sociedade, organizam e atuam para destruir o outro. Eles existiram no nazismo, no stalinismo e continuam por todo lado atuando fortemente. Aparecem como se fossem cidadãos de bem, mas tudo o que querem é espalhar o ódio, afirma nessa entrevista ao Correio, o filósofo Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Entre os cristais de massa que atuaram para difamar a vereadora, diz Romano, aparece o Movimento Brasil Livre (MBL), conforme demonstrou uma investigação feita pelo Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Correio Popular — Com o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio, seguiu-se uma campanha difamatória sobre seu caráter, sua vida. O que leva pessoas, que se dizem “cidadãos de bem”, a fazer isso? Roberto Romano — Temos que começar duvidando de que são pessoas honestas. Alguém que age de maneira leviana, sem pensar, sem investigar, sem refletir sobre o que está falando, tem problema sério na sua relação com a ética e com a moral. Muito dificilmente essas pessoas seriam classificáveis como honestas. Elas são imprudentes, têm ódio do outro, prazer em destruir o outro, e isso é potencializado pela facilidade da tecnologia. Esse prazer de fazer o mal é muito antigo na história da humanidade. Existem pessoas que se comprazem dessa habilidade de destruir o outro. Plutarco, um dos autores mais importante na ética e moral do Ocidente, em Tratado da Curiosidade, fala que a pessoa curiosa é aquela que está sempre procurando o mal, aquilo que se pode falar mal. Esse sentimento de gostar de fazer o mal é um dos sentimentos mais primitivos da natureza humana, tanto individual quanto social. Com o advento das comunicações cada vez mais rápidas, da imprensa, da tecnologia, do rádio e da televisão, isso aumentou exponencialmente. Com a internet, passamos a ter acesso imediato a ouvir e fazer o mal ao mesmo tempo. Como o senhor classifica isso? Esse é um dos elementos mais tenebrosos da antropologia, da sociologia em termos mundiais e brasileiros. É uma tolice falar que o brasileiro é um povo pacífico, que a sociedade é pacífica. Eu digo que ela é, na verdade, uma das mais violentas do planeta. Essa violência que estava contida, agora ganhou terra solta com a internet, porque as pessoas imaginam que são impunes. No caso do assassinato da vereadora, o senhor não acha que essa cultura do mal chegou ao seu ápice? O fato desse crime ter se magnificado é que nos últimos tempos, no mundo e aqui, existem organizações que se encarregam de ampliar as calúnias e difamações. Elias Canetti, no livro Massa e Poder, chama a atenção para que não existe movimento espontâneo de massa. Ele classifica as massas em hordas de fuga e hordas de perseguição. Na internet você vê isso. As pessoas defendem ou uma ordem de fuga ou uma ordem de perseguição. E as vezes ao mesmo tempo elas pertencem a um grupo de está sendo perseguido e está perseguindo os outros. Ele chama esses grupos organizados, que planejam o malefício e aproveitam todas as oportunidades para destruir os outros, de “cristais de massas”. Na sociedade medieval, os monges eram os cristais de massa, que organizavam as massas dos pobres, as massas urbanas, tendo em vista dirigir e dar o controle para a Igreja e para o governo. Em todo o movimento nazista, stalinista, no macartismo, existiram esses cristais de massas. São pessoas que recolhem os ódios que estão na sociedade, organizam e dirigem a determinados grupos, para destruí-los. Isso ocorreu com a campanha do Trump nos EUA e ocorre aqui. E quem são os cristais de massa que atuaram logo após o assassinato de Marielle? Tem um trabalho da Universidade Federal do Espírito Santo justamente identificando alguns desses grupos que organizam os ódios para espalhá-los. Inclusive no caso da Marielle isso foi típico. O Movimento Brasil Livre, que se organizou, definiu e boa parte da origem dessas calúnias veio do MBL. Na verdade, na vida social nunca existiu espontaneidade. Sempre existem grupos que dirigem para organizar o massacre do outro. No Tratado do Cidadão, Robbins diz que quando tem uma assembleia supostamente democrática, um dia antes se reúnem os vários grupos que vão querer influenciar essa assembleia, e treinam até a ordem das falas, o que vai falar, definem o resultado antes. Isso é uma coisa que a gente conhece muito bem nos partidos políticos. Isso tudo mostra que somos um país perverso? Somos uma sociedade onde a estrutura do relacionamento entre indivíduos e grupos e classes é dominada pela violência. Não podemos esquecer que no século 20 nós fomos dirigidos por duas ditaduras extremamente violentas, a de Vargas e a de 1964, que usaram e abusaram da força física, da tortura, da prisão, do exílio. Então, de certo modo, foi uma pedagogia negativa aplicada na sociedade brasileira, que aprendeu que só tem direitos quem tem a força nas mãos. E por que esse ódio tem sido dirigido, em grande parte, aos defensores dos direitos humanos? Os direitos humanos representam a democracia instaurada pela Revolução Inglesa no século 17, pela Revolução Norte-Americana e pela Revolução Francesa. O Brasil sempre foi contra os direitos veiculados por essas revoluções. D. João VI veio para cá fugindo da Revolução Francesa representada por Napoleão Bonaparte e instalou aqui o regime absolutista, onde não existem direitos para quem apenas paga imposto. O direito só existe para os juízes, deputados, senadores, governadores etc. Quer uma prova do que sobrevive até hoje? Entre em qualquer prefeitura: atrás do balcão você vai ver um cartaz dizendo que insulto a funcionário público dá tantos anos de cadeia, mas não tem nada sobre tantos anos de cadeia para quem desrespeitar o cidadão. É muito difícil ter um Estado que cumpriu esse papel de privilégios de quem manda, recuperar a ideia de que o cidadão comum tem direitos, sobretudo o cidadão preto, pobre, prostituta etc. A história do Estado brasileiro vai contra todo o movimento democrático instaurado a partir da Revolução Inglesa no século 17. O primeiro princípio instaurado por essa revolução foi o da responsabilização do governante, que foi seguido na Revolução Norte-americana e na Francesa. Aqui o que se tem é um descompromisso de quem assume um cargo público ou de liderança social com a prestação de contas. Chegamos a ter um bispo que rouba a sua diocese, como ocorreu na semana passada. Ou uma magistrada propagando calúnias e ódio nas redes sociais… Pessoas que não têm noção da responsabilidade de um cargo público. Aí você tem um juiz que diz para o outro que ele é uma vergonha. É uma ausência de autoridade. Quando você tem uma sociedade democrática você tem autoridade, quando não tem, a violência pura. E nós estamos chegando nesse ponto. Então não temos saída para nós mesmos? A solução é muito de longo prazo, exige muito trabalho, muita imaginação, muito conhecimento da história da sociedade brasileira, coisa que a gente nota que está desaparecendo. Fora centros de excelência como é o caso da Unicamp, da USP, das PUCs, não há mais o empenho de conhecer a história da formação social brasileira, com as suas características. E aí você assume qualquer slogan. É muito difícil a gente reverter 500 anos de violência de Estado, mas não diria que todos os brasileiros agem dessa maneira. O que ocorre é que você tem um exemplo cotidiano de quem tem a força em detrimento de quem não tem.