O célebre pintor campineiro Aldo Cardarelli completaria 106 anos agora em 2021 se estivesse vivo

Auto retrato: além do reconhecimento no Brasil, o artista tem obras espalhadas por vários países, como Estados Unidos, Japão, Suíça, Portugal, Argentina e Alemanhar (Arquivo Pessoal)
O pintor campineiro Aldo Cardarelli completaria 106 anos em 2021 se estivesse vivo. Mesmo após sua morte continua sendo um artista reconhecido no cenário nacional e internacional pela qualidade de suas obras. O artista, premiadíssimo, tem obras nos Estados Unidos, Japão, Suíça, Portugal, Argentina e Alemanha.
Cardarelli nasceu em Campinas, no dia 2 de fevereiro de 1915. Desde cedo já tinha interesse pelo desenho e os rabiscos eram constantes. Aos 12 anos perdeu o pai, Raphael Cardarelli, e teve de deixar os estudos para ajudar no sustento da casa e de seus cinco irmãos.
Ele desenhava em papéis de pão e também nas calçadas com o carvão que sempre pegava do fogão a lenha. O que não raro lhe rendia reprimendas com chineladas. Os castigos pararam quando sua avó se deparou com a representação do rosto de Jesus Cristo perfeitamente desenhada na sarjeta, o que lhe causou espanto, tamanha a perfeição. Após descobrir a admiração e respeito da família por seus desenhos de rostos de santos, distribui vários deles e assim conhece sossego para poder criar.
Dos 16 aos 18 anos foi aluno de desenho do pintor italiano Luis Fianco, também conhecido como Luis Franco, na Academia Campineira de Pintura. Mais tarde, em 1935, passou a conviver com o pintor Bernardino de Souza Pereira, no ateliê do artista em São Paulo. No ano seguinte, Luis Fianco se muda de Campinas e deixa Cardarelli em seu lugar, lecionando para 15 alunos.
Aos 21 anos, Cardarelli pintou O Canto do Paiol, com cerca de 1,80 x 1,20 m, foi seu primeiro quadro de sucesso, vendido para um colecionador da cidade de Curitiba. Anos mais tarde, em 1976, o artista tentou recomprá-lo, mas sem sucesso.
Em 1937, foi embora para Santos e deixou a Academia Campineira de Pintura sob responsabilidade de seu aluno Thomaz Perina. Em Santos, passou a ensinar desenho e pintura no Liceu São Paulo.
Voltou para Campinas em 1940 e montou seu ateliê no 20º andar de um prédio da Rua Conceição. Seis anos mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro e instalou seu ateliê e escola na Avenida Nossa Senhora de Copacabana.
Aos 36 anos se apaixonou, em Campinas, por Maria dos Anjos Roselli, de 22 anos e que estava noiva de um norte-americano. Mas nada impediu que os dois se casassem. Em 1956 teve a filha Thelma, e em 1960, o filho Sandro.
O artista tornou-se membro da Academia Brasileira de Belas Artes e da Academia Paulista de Belas-Artes. Também ensinou desenho e pintura na Faculdade de Arquitetura Mackenzie e na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCC).
Entre 1940 e 1984 participou de várias edições do Salão Paulista de Belas-Artes. Em 1984, o artista perdeu a mãe, Adelina DeI Buono, aos 98 anos. Cardarelli morreu em 15 de agosto de 1986, aos 71 anos, em Campinas.
Em Campinas foi muito requisitado para pintar retratos, constando de sua galeria várias personalidades como Orosimbo Maia, Firmino Costa, Rubens Segurado, Dom Agnelo Rossi e muitos outros.
O talentoso artista pintava paisagens rurais — como as de Sousas, Joaquim Egídio e Carlos Gomes — marinhas e urbanas, pelas quais também tornou-se conhecido e que fizeram escola. Ele pintou também cenas sacras como as da Igreja de Espírito Santo do Pinhal. Apesar de pertencer a uma geração até posterior à geração de Salvador Dali, pintor surrealista nascido em 1904, ele se identificou mais com a técnica acadêmica clássica.
Na Rua Sampainho, 362, no Cambuí, em Campinas, existe um mural elaborado com pastilhas vitrificadas, que mede 6,80m X 2,50m e foi uma, entre duas somente, de suas obras em que ele contemplou o estilo abstrato — nesse caso, o abstrato geométrico. A obra foi tombada em 2004 por ser de interesse histórico /cultural e urbanístico do Município de Campinas.
Demorou, mas uma iniciativa pioneira do cineasta e escritor Fernando Figueirinhas resgatou a vida e, principalmente o legado, do pintor e professor campineiro Aldo Cardarelli (1915-1986), no documentário Aldo Cardarelli — Pintor, que foi lançado no dia 19 de janeiro de 2018, no Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA).
O cineasta disse que teve a ideia do documentário ao constatar que não havia livro ou filme sobre a obra desse pintor tão importante no cenário artístico. Mas a tarefa não foi fácil. “As filmagens começaram em 2009, após um processo meu de pesquisa completa sobre a obra e vida de Aldo Cardarelli. Foi assim que descobri a Igreja Matriz de Espírito Santo do Pinhal (a cerca de 100km de Campinas). Fui até lá sem saber o que ia encontrar. Mas chegando, percebi que a cidade crescia em volta dela.
Por fora tem estilo eclético, muito parecida com catedrais europeias. Por dentro fiquei pasmo com a qualidade técnica e pictórica dos afrescos de Cardarelli, executados em 1952, todos devidamente assinados e datados”, contou Figueirinhas, em reportagem do Correio de 13 de janeiro de 2018, escrita por Delma Medeiros.
Ele então saiu em busca de recursos e se surpreendeu ao só encontrar “portas fechadas”.
“Filmei às minhas custas, com o aparato liderado por Antonio Gallo, falecido há cerca de dois anos. O processo parou até que encontrei, há dois meses, outro idealista, Flávio Antônio Machado Homem, que se deu conta da importância do achado e propôs refilmarmos tudo em full HD (alta definição)”.
Filme traz depoimentos de artistas e intelectuais
Fernando Figueirinhas reitera que ao chegar em Espírito Santo do Pinhal, para sua produção, percebeu que a cidade crescia em volta da Matriz. “Por fora tem estilo eclético, muito parecida com catedrais europeias. Por dentro fiquei pasmo com a qualidade técnica e pictórica dos afrescos de Cardarelli”.
Além da Matriz de Espírito Santo de Pinhal, o documentário “Aldo Cardarelli — Pintor”, sobre a vida e a carreira do pintor campineiro, foi filmado nos hoje elevados a distritos de Sousas e Joaquim Egídio, onde Cardarelli pintou muitas de suas telas com inspiração bucólica.
O filme traz ainda depoimentos de artistas e intelectuais que conviveram com o pintor, como Olga von Simson, Henrique de Oliveira Jr., Marco Garcia, Débora McDearmon.
O filme foi escrito e dirigido por Figueirinhas, editado por Flávio Antônio Machado Homem e realizado pelo Projeto Abertura e MH Vídeo e Fotografia.
Na definição de Fernando Figueirinhas, “Aldo Cardarelli (...) é um nome que fica. Eclético nos temas e em escolas, percorre desde o academicismo até o abstracionismo, atingindo o seu apogeu nas pinturas parietais (em paredes e abóbadas), sacras ou abstratas”, cita Fernando Figueirinhas.“Conhecido como o ‘Mestre dos Verdes’, ele consegue captar a temperatura das paisagens através das cores, sendo reconhecido internacionalmente poessa técnica e se tornando um dos maiores pintores brasileiros”.
Natural da cidade do Porto, Portugal, Figueirinhas tem vários documentários realizados sobre artes e outros assuntos polêmicos. “Achei muito estranho não terem realizado um livro ou um filme sobre tão importante figura do neoclassicismo pictórico de Campinas, tanto mais que no Centro de Convivência Cultural consta um espaço que leva o nome dele, bem como uma rua e edifício. Cardarelli também foi um dos fundadores da Academia Campineira de Letras e Artes (ACLA), mas não lhe deram o devido crédito. Acredito que o filme resgata este importante artista e faz jus à sua grande obra”, reforçou Fernando Figueirinhas.</CW