Contaminação por metais pesados na fábrica de pesticidas em Paulínia mudou a vida de funcionários

Equipe filma cenas do longa que irá mostrar o drama dos ex-funcionários da Shell em set em Paulínia (Élcio Alves/ AAN )
Cerca de 100 ex-trabalhadores da Shell (atual Raízen Combustíveis S.A.) e da Basf participam desde a última quarta-feira das gravações do longa-metragem O lucro acima da vida, que retrata o drama vivido por eles após a contaminação por metais pesados na fábrica de pesticidas em Paulínia.
Para se inspirar, o diretor do filme, Nic Nilson, disse que assistiu aos filmes Erin Brockovich, O jardineiro fiel e leu Primavera Silenciosa. Apesar do caso ser bastante parecido com a história de Erin Brockovic, o diretor contou que a grande diferença é o motivo da luta. “Os trabalhadores da Shell lutam por assistência, pela vida. Erin lutou apenas pelo dinheiro, o que, inclusive gerou uma série de desentendimentos.”
“Eu fiquei feliz com a ideia. Acho legal registrar a nossa história”, disse Amélio Pereira Japecanga Neto, que trabalhou quase 24 anos na empresa e há dez anos venceu um câncer na tireoide que considera ser decorrente da contaminação.
Segundo o jornalista e cineasta Nic Nilson, diretor do longa-metragem, o objetivo do filme é resgatar e humanizar os personagens e toda a história de luta desses trabalhadores que foram adoecendo ao longo da jornada de trabalho e tiveram que se unir para ter o direito a uma assistência digna e para repor um pouco do que lhes foi tirado.
“Quero mostrar o lado íntimo, intrínseco que cada um teve ao longo de todos esses anos. Por isso, quis trazê-los para participar. Mais do que uma homenagem, eu quis prestar um serviço a esses trabalhadores”, ressaltou.
De acordo com a Associação dos Trabalhadores Expostos as Substâncias Químicas (Atesq), 63 ex-funcionários morreram desde que o processo começou a tramitar na Justiça do Trabalho. A maioria em decorrência de câncer.
Segundo Nilson, o planejamento do filme — uma ficção baseada em fatos reais — começou no final do ano passado quando ele decidiu se aprofundar na história.
“Eu abracei a causa e comecei a estudar a vida de cada um dos principais personagens. Decidi optar por ficção porque é preciso um pouco de poesia no meio de tanta tristeza.” As filmagens devem terminar em dezembro. O lançamento do longa em festivais deve acontecer no meio do ano que vem.
Montada na Fazenda Santa Terezinha, em Paulínia, a cidade cinematográfica que deu início às gravações remonta a mercearia onde os trabalhadores se reuniam. As gravações ainda seguirão para o Solar das Andorinhas, em Campinas, e outras locações em Paulínia, inclusive uma fábrica que ainda está em negociação. “Acho que o filme vai ajudar a sociedade a refletir sobre os desastres ambientais provocados pelas grandes empresas”, disse Walmir Soldera Nascimento, ex-trabalhador da fábrica.
Além dos ex-funcionários que fazem figuração, o elenco conta com atores experientes. O papel principal é do ator da Rede Globo Deo Garcez, que teve participação na novela O Cravo e a Rosa.
“Está sendo um prazer contar essa história, apesar de ser doloroso saber que todo o sofrimento é real. É um trabalho que exalta a vida, faz refletir, conscientiza, mas mostrando um lado poético”, disse Garcez.
O ator Richards Paradizzi, de 79 anos, que dirigiu o teatro do Sesi em São Paulo por mais de 20 anos, também participa do longa. Atores internacionais, como o austríaco David Wendefilme e a alemã Constanze von Oertzen, também dão suas colaborações para o longa.
O filme está orçado em R$ 1,3 milhão e é patrocinado pelo Sindicato dos Químicos Unificados, Federação dos Trabalhadores do Ramo Químico de São Paulo (Fetquim) e Associação dos Trabalhadores Expostos às Substâncias Químicas (Atesq). Parte dos recursos vem de doações de colaboradores.
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