
Elpídio montou seu salão na garagem de casa, no Jardim Garcia; abaixo, ele veste a camisa do Diário do Povo, quando disputava campeonato amador, e a barbearia no Giovannetti I (Thomaz Marostegan/Especial para a AAN)
Por quase 50 anos, o Elpídio manteve seu salãozinho ali no piso superior do Giovannetti I, com vista privilegiada para o Largo do Rosário. A clientela, tradicional se acostumou com a decoração: a estufa usada para esquentar toalha, as duas cadeiras Ferrante antigonas, o armário com espelhos, as imagens dos santos católicos em todo canto. Era um lugar onde os amigos se encontravam pra conversar muito. Cortar cabelo era desculpa pra contar causos, falar de política e de futebol. Mas a vida é assim. As coisas mudam. A gerência do bar pediu de volta o espaço, e instala naquele cômodo uma nova dependência da cozinha. O barbeiro foi avisado que precisava sair. Ele se foi. Chateado, mas se foi. Amontou os badulaques e se mudou para a garagem da própria casa, no Jardim Garcia, onde criou os filhos. Bom, a história começou com a notícia triste — o fim inesperado do contrato de locação —, mas agora o homem está feliz. Acontece que velhos clientes — muitos — ainda o procuram para cortar cabelo. Vão até o bairro, sem dramas. A vizinhança, acostumada com a rua silenciosa, ficou surpresa com o movimento de carros no sábado passado. Parecia que tinha festa por lá. Faltava até lugar para estacionar. Elpídio Soares, de 77 anos, nasceu em Rio do Sul, Santa Catarina. Aprendeu a manobrar tesoura e pente com o próprio irmão, que já tinha uma barbearia por lá. Se mudou para Campinas ainda moço, solteiro, e arrumou trabalho em um salão da Galeria Trabulsi. Ele se instalou na salinha do Giovannetti I no dia 1 de abril de 1969. “E não era mentira, não”, gargalha. Era a data da inauguração daquela que, no futuro, seria uma das barbearias mais badaladas da cidade. Pra sempre na memória E o homem, caprichoso que só ele, guarda em pastas (e nas paredes) uma coleção imensa de fotos. Uma delas mostra o Elpídio cortando o cabelo de um garoto lourinho, que hoje em dia deve beirar os 60 anos. Outras fotos mostram a sala apertada, com clientes esperando pelos cantos para dar um trato nos cachos. Mas passou muita gente famosa por aquelas cadeiras: Quércia, Lauro Péricles, Oscar da Ponte, Careca do Guarani. Até o Waldir Perez, saudoso goleirão, que com o tempo perdeu as madeixas. Mas nem só de barbearia vivem os álbuns. Elpídio era jogador de futebol. Beque central dos bons. E guarda fotos vestindo a camisa do Diário do Povo, que lá no comecinho dos anos 70 disputava o campeonato amador e tinha um timão. O tempo passou, mas o homem não aposentou a caneleira. Ainda hoje, beirando os 80, ele joga bola. Não sai do minicampo. E não tem medo do atacante atrevido do time adversário. Jura que ainda impõe respeito. Bom, fato é que a prática do esporte, a vida toda, lhe garantiu boa forma. O homem parece ter 20 anos a menos. No improviso A nova barbearia? Bom, a casa é pequena. Projeto de habitação popular, que fez nascer o bairro lá no fim dos anos 60. O barbeiro tem seu carrinho, mas usa o recuo do jardim como estacionamento. A garagem foi adaptada como salão. O Elpídio até instalou um banheiro nos fundos. Tudo caprichadinho. Obras com a supervisão da patroa, Maria Aparecida, que sempre deu as ordens ali no pedaço. Volta e meia, ela passa pela garagem, cumprimenta a turma e volta pra dentro. É que o ambiente de barbearia tem de ser igualzinho como era no Largo do Rosário. Ah, claro. A dona também não tem paciência para ficar escutando papo de marmanjo que, diga-se de passagem, nem sempre é agradável. Fidelidade A reportagem, lógico, topou com clientes por ali. Como o representante comercial José de Assis Solis Garcia, de 53 anos. Eles se conheceram no ônibus coletivo, décadas atrás. E nunca perderam contato. “Eu sei: quem era cliente continua cliente. Não importa onde estão as cadeiras”, atesta. “O Elpídio é o mesmo.”