TRADIÇÃO

Em época de Copa do Mundo, hábito de colecionar figurinhas de jogadores volta à tona

Mania de preencher álbuns e reunir aficionados para trocar as repetidas alimenta várias comunidades

Mariana Camba/[email protected]
29/05/2026 às 17:26.
Atualizado em 29/05/2026 às 17:26
Para os colecionadores, os álbuns são lembranças de tempos que deixaram saudade e uma motivação para construir novas histórias a cada quatro anos com as novas gerações (Alessandro Torres)

Para os colecionadores, os álbuns são lembranças de tempos que deixaram saudade e uma motivação para construir novas histórias a cada quatro anos com as novas gerações (Alessandro Torres)

Em ano de Copa do Mundo, a paixão pelo futebol vai além do campo e começa antes da bola rolar, com os álbuns do campeonato. As figurinhas e troca de adesivos se tornaram a tradição de famílias e um pretexto que promove o encontro de gerações. 

Em Americana, João Antônio Brenna colecionou 17 álbuns desde o mundial de 1958 e, depois de sua partida, em janeiro deste ano, a família segue a missão do patriarca para completar o álbum de 2026, com a união dos filhos e netos do colecionador. 

Para a campineira Lucinéia Aparecida Cardoso, os exemplares do mundial são sinônimo de memória afetiva e remetem à década de 1960, época em que ela adquiriu o seu primeiro álbum aos 6 anos. Em Hortolândia, Carlos Roberto de Souza Madeira começou a coleção em 1982, quando o mundial foi realizado na Espanha, e guarda o exemplar como uma relíquia. Para os colecionadores, os álbuns são lembranças de tempos que deixaram saudade e uma motivação para construir novas histórias a cada quatro anos. 

Segundo a comerciante e filha de João Antônio, Debora Brenna, o pai começou a colecionar os álbuns aos sete anos por causa da paixão pelo futebol. Colar as figurinhas, na época, era um desafio à parte, pois demandava a produção de uma cola artesanal feita à base de água, farinha de trigo e vinagre. “Ele tinha tanto cuidado com os álbuns que, mesmo 68 anos depois, os exemplares permanecem sem marcas e rasuras. Para nós, é parte do seu legado materializado ao qual daremos continuidade”, disse Debora. No início, acrescenta, as figurinhas vinham envoltas no papel de bala e o álbum tinha menos páginas por causa do número de seleções participantes. 

A coleção conta álbuns antigos, como os de 1958 (Suécia), de 1962 (Chile), de 1970 (México), de 1978 (Argentina) e de 1990 (Itália). O preferido do patriarca era o exemplar do mundial realizado no México, ano em que a Seleção Brasileira conquistou o tricampeonato com a participação do Pelé. Na época, acrescenta, completar o álbum não demandava tanto dinheiro como hoje, em que cada uma das 980 figurinhas é vendida por R$ 1. “Meu pai amava futebol e o Palmeiras, ele tinha um carinho especial pelos jogos e vivenciava esses momentos de maneira reclusa para se concentrar e depois celebrar em família”, contou. Com os filhos, ele era mais calado, mas, quando os netos chegaram, a dinâmica mudou e as crianças se encantaram por esse mundo dos adesivos colecionáveis. 

A neta Maria Júlia foi alfabetizada junto aos álbuns da Copa e aprendeu a sequência dos números ensinada pelo avô materno, enquanto o filho Fábio Rogério aproximou os laços familiares a partir das trocas dos adesivos. “Com certeza, as netas melhoraram nas contas depois de memorizarem os números de 1 a 500 com o avô, por causa da sequência das figurinhas. As meninas também aprenderam sobre geografia com as bandeiras dos continentes onde os mundiais eram realizados, além de encontrarem no futebol uma paixão em comum com o colecionador”, revelou. Neste ano, pela primeira vez, a Copa do Mundo perdeu um pouco do brilho para a família de Americana por causa da ausência de João Antônio, mas, como forma de honrar o legado e cuidado do patriarca com os exemplares, os netos e filhos decidiram dar sequência ao hobby do avô e se uniram para completar o álbum de 2026. A meta é finalizar até o início dos jogos. “Com certeza vamos conseguir. Vamos fazer por ele”, concluiu Debora. 

RELÍQUIA 

O pintor e segurança, Carlos Roberto de Souza Madeira, é morador de Hortolândia e vem todos os dias trocar as figurinhas repetidas no Centro de Campinas. Colecionador dos álbuns da Copa desde 1982, ano em que o mundial foi realizado na Espanha, Carlos lembrou do seu primeiro exemplar, época em que não tinha como comprar todos os pacotes necessários de adesivos. “A gente fazia um sacrifício para conseguir completar o álbum, até porque não tinha esses encontros para trocar as repetidas. Eu ia até a banca e comprava fiado, para pagar depois”, lembrou. Para ele, o álbum de coleção tem que ter a capa original, sem capa dura e com brochura, modelo que surgiu pela primeira vez em 2014. 

A cada quatro anos, Carlos completa um álbum para a coleção e o outro ele guarda ainda embalado, sem as figurinhas coladas. Todos são mantidos em um armário, com cuidado e zelo, e folheados quando a saudade aperta. “Os álbuns são a nossa relíquia. O meu preferido é o de 1982, que tem em torno de 400 adesivos. Eu junto as figurinhas para completar um álbum e o restante eu guardo sem colar, com o exemplar ainda fechado”, revelou Carlos ao contar que, em ano de mundial, as horas vagas são destinadas ao álbum. 

A diarista, Lucinéia Aparecida Cardoso, começou a colecionar os álbuns quando tinha seis anos, na década de 1960, por causa da sua paixão pelo futebol. Para conseguir os adesivos colecionáveis sem gastar dinheiro, ela se entretinha com os colegas de escola durante o intervalo das aulas e disputava as figurinhas. “Eu coleciono há décadas e agora faço isso junto do meu filho. Trocar as figurinhas se tornou um hábito nosso. Eu estava grávida dele na Copa de 2014 e, mesmo antes dele nascer, eu completei dois álbuns, um para mim e outro para ele”, recordou. Os álbuns se tornaram lembranças de um tempo que não volta mais e que remete à infância de Lucinéia. Entre as memórias, a que ela mais gosta de revisitar é a do exemplar que exibe a seleção de Zico, Romário, Dunga e Bebeto. 

“Eu não esqueço a sensação de ser campeão. Realmente foi um momento único que eu adoraria reviver neste ano. Eu não venderia a minha coleção por nada, pois o valor dela não pode ser estimado em dinheiro”, garantiu Lucinéia ao ressaltar que futebol é sinônimo de um futuro melhor. Para os irmãos João Victor Gonçalvez e Miguel Henrique Pereira, de 27 e 9 anos, respectivamente, o álbum da Copa do Mundo de 2026 se tornou um motivo para passarem mais tempo juntos e resultou no primeiro exemplar preenchido de ambos. O irmão mais velho organiza as figurinhas repetidas e a aquisição de novas, enquanto o mais novo fica incumbido da colagem. Para o caçula, abrir o pacote de adesivo é sinônimo de felicidade. “Trocar figurinhas é o nosso passatempo, nos aproximou e mal podemos aguardar a próxima oportunidade daqui a quatro anos”, previu João. 

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