HERANÇA AFRICANA

Entidade busca verba para criar complexo cultural afro

Espaço usado por escravos em antiga fazenda será recuperado para abrigar projeto

Maria Teresa Costa
13/09/2013 às 08:46.
Atualizado em 25/04/2022 às 02:35
Conjunto de casas hoje ocupadas por funcionários e que serão destinadas a abrigar as oficinas permanentes do novo espaço: técnica, história e resgate do legado afro-brasileiro  (Elcio Alves/AAN )

Conjunto de casas hoje ocupadas por funcionários e que serão destinadas a abrigar as oficinas permanentes do novo espaço: técnica, história e resgate do legado afro-brasileiro (Elcio Alves/AAN )

Os equipamentos usados pelos escravos e que nos séculos 18 e 19 deram sustentabilidade à Fazenda Duas Pontes, onde está instalado o Hotel Fazenda Solar das Andorinhas, serão restaurados, junto com os prédios em que se encontram, para o desenvolvimento de cursos permanentes de africanidade e de atividades empreendedoras para a comunidade. O projeto será lançado amanhã pela Associação Liberdade Canto e Dança, gestora do programa, que iniciou a captação de recursos, da ordem de R$ 30 milhões. Metade da verba irá para a recuperação de equipamentos, dos espaços onde estão instalados e implementação dos cursos, e a outra parte para o restauro de todos os imóveis tombados como patrimônio histórico de Campinas. Foto: Elcio Alves/AAN Natanael dos Santos (à dir.) com parceiros do projeto no imóvel onde funcionava a marcenaria “Todo esse tesouro histórico será colocado em movimento”, disse o diretor cultural da associação, Natanael dos Santos. A entidade tem, por contrato de comodato com os proprietários do hotel, a gestão cultural dos bens históricos da antiga fazenda. Assim, nasceu o projeto Espaço Sagrado dos Trabalhadores e Trabalhadoras que Construíram a Fazenda Duas Pontes, que será lançado amanhã no Solar das Andorinha, em parceria com a Fundação Cultural Palmares, vinculada ao Ministério da Cultura.Santos afirmou que serão implantadas oficinas para estudantes da rede pública como forma de resgatar a história da comunidade negra nos seus saberes e fazeres. Isso inclui a criação de grandes jardins com mudas de espécies fitoterápicas para transmitir a tradição de tratamento com plantas aos estudantes. Haverá um jardim sensorial, onde as pessoas com deficiência visual poderão identificar as espécies pelo aroma que exalam.É parte também do projeto cursos de marcenaria, serraria e olaria, em que, além de aprender as técnicas, os alunos ainda terão contato com a história de cada uma dessas atividades. Uma delas é a maneira como as telhas eram fabricadas pela mão de obra escrava. Sem fôrmas, as telhas eram feitas nas pernas dos escravos, mais propriamente nas suas coxas, para dar o formato arredondado. Como cada escravo tinha um porte físico, as telhas nunca saíam iguais. Dessa forma, e porque as telhas ficavam irregulares, os telhados muitas vezes ficavam desnivelados. Assim, até hoje, quando alguém cumpre alguma tarefa sem capricho, sem primor, é dito que essa tarefa foi feita “nas coxas”.O projeto inclui uma área de estudo da mitologia africana e um espaço para equoterapia. Profissionais da área poderão usar os cavalos que são colocados à disposição dos hóspedes para passeios no auxílio a tratamentos de saúde. O local tem 30 animais.A expectativa de Santos é de que a partir de 2014 muitas das áreas já estejam em funcionamento. Quando completo, o complexo deverá receber uma média de mil visitantes por dia, de acordo com a estimativa da associação. Ele lembra que uma lei de 2003 prevê para os períodos escolares Fundamental e Médio, a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira. “Então, queremos transmitir aos jovens essa história, para que eles tenham contato direto com tudo isso e entendam a contribuição dada pelos negros ao Brasil”, afirmou.

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