Quase 55% dos entrevistados disseram ter pouco interesse e 30% falaram que podem não votar

A crise econômica que se seguiu à pandemia tirou parte da motivação do eleitor: pesquisadores lembram que indicadores podem mudar (Leandro Ferreira/AAN)
Quase 55% dos eleitores estão pouco interessados nas eleições municipais e cerca de 30% podem não votar neste domingo, por medo de se contaminar com o novo coronavírus. Os dados são de uma pesquisa realizada no final de outubro, pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, com a participação do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foram ouvidas 2 mil pessoas em todo o Brasil e a margem de erro do estudo é de 2,2%. Diretor do Cesop e professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Oswaldo Amaral analisou que o pleito deste ano não está muito atrativo para a população que, ao longo do ano, teve uma série de outros fatores — em sua grande maioria, ligados à pandemia da Covid-19 — como prioridade. "É importante termos em mente que as pessoas ficaram preocupadas em sobreviver ao vírus, numa situação de precariedade econômica em muitos casos. Porque a economia, que já não vinha bem, levou um tombo muito grande. A isso, se soma a redução no tempo das campanhas e mudanças nas regras eleitorais", comentou. Ele acrescenta que o adiamento da votação para o mesmo período das eleições norte-americanas também não ajudou. Amaral foi surpreendido com a quantidade de entrevistados que responderam que não irão participar da eleição. Entende que o percentual pode, mas não deve, ser muito alterado nesta reta final. Sobre as pesquisas que norteiam as intenções de voto, garante, "deveremos ter surpresas". Para ele, muitos eleitores ainda não decidiram em quais candidatos irão votar, inclusive para prefeito. E, por isso, prevê mudanças de última hora. Chama a atenção que, mesmo em grandes capitais, como é o caso de São Paulo, a possibilidade de mudança de voto é grande também entre aqueles que já declararam apoio à algum candidato. Amaral define a eleição de 2020 como singular, em decorrência das novas regras de financiamento para as campanhas e as dificuldades para realizar as ações na rua. A também professora do IFCH e editora da revista científica eletrônica Opinião Pública, do Cesop, Rachel Meneguello pondera ser normal, durante períodos eleitorais, as oscilações constantes quanto ao interesse da população em participar do pleito e também em quem votar. Ressalta que são variáveis difíceis de controlar, porque o voto, em última instância, é uma atitude muito subjetiva. Explica que, hoje, a pessoa pode estar decida a não votar. Mas, amanhã, posteriormente a ter dado atenção ou se deparado com uma questão específica da cidade em que reside, mude de ideia. Contudo, assegura que existem muitos eleitores com opiniões e apoios formados há longa data. Rachel projeta uma abstenção maior neste ano, se comparado aos pleitos anteriores. A justificava é o receio de contaminação, que pode ocorrer, exemplifica, no enfrentamento de filas. No que diz respeito aos postulantes aos cargos públicos, examina que a população está mais familiarizada com os que disputam o Executivo. Frisa que candidatos a prefeito têm mais espaço na mídia e o número é menor em relação aos que brigam por uma cadeira no Legislativo. Nesse contexto, o eleitor tem mais embasamento e acaba mais interessado em votar para prefeito. De modo geral, Rachel considera que a população vai mais desinformada às urnas, porque algumas emissoras de televisão optaram por não realizar o debate. Esclarece que, apesar do alcance de outros veículos de imprensa e da difusão de informações nas redes sociais, a TV ainda é o meio mais importante de transmissão de informação política.