Amigo do prefeito de Campinas há mais de 30 anos, o atual chefe de gabinete está na linha de frente das discussões mais importantes do Executivo

Funcionário de Carreira da Prefeitura de Campinas, o atual chefe de gabinete ingressou no serviço público na gestão do prefeito Magalhães Teixeira, com quem ele diz ter aprendido muito (Rodrigo Zanotto)
Fiel escudeiro e amigo de longa data do prefeito Dário Saadi (Republicanos), Aderval Fernandes Júnior sempre foi conhecido por ser uma pessoa discreta. Ao longo de mais de 40 anos como funcionário de carreira da Prefeitura de Campinas, ele ocupou cargos estratégicos em diferentes gestões. O ponto em comum dessas funções era o compromisso de oferecer o suporte necessário para que o secretário ou o prefeito pudesse tomar as melhores decisões. Atualmente, Fernandes Júnior é secretário-chefe de gabinete, posição altamente relevante dentro do núcleo duro da Administração Municipal. Na última semana, o secretário, que também é presidente do Republicanos na cidade, visitou o Correio Popular, onde foi recebido pelo presidente-executivo do jornal, Ítalo Hamilton Barioni. Na ocasião, ele falou sobre os projetos e desafios do segundo mandato de Dário Saadi e revelou que, além da licitação do transporte público, a Prefeitura prepara a construção de dez escolas de ensino fundamental e a implantação de uma nova ligação entre o Campo Grande e o Ouro Verde, antiga reivindicação dos moradores dos dois distritos.
Secretário, o senhor tem um perfil discreto, com uma atuação predominantemente nos bastidores. Muita gente não deve conhecê-lo. O senhor é nascido em que cidade?
Bom, primeiro eu quero agradecer ao convite do Correio Popular. É uma honra para mim. Eu sempre convivi com o Correio chegando em casa pela manhã, então isso para mim é muito orgulho. Sou campineiro nato, nascido na Maternidade de Campinas, quando o hospital ocupava aquele prédio da Avenida Andrade Neves, que depois foi adaptado para operar como a Rodoviária da cidade. Quis o destino que eu entrasse na Prefeitura de Campinas, trabalhando na Secretaria de Transportes. Veja só como são as coisas.
Viveu sua infância em que bairro de Campinas?
Foi ali no Guanabara, na Rua Tiradentes, cresci ali. E também ali na região da Vila Nova, porque meus pais moravam na Rua Tiradentes, e eu tinha uma turma com a qual me relacionava lá na Vila Nova. Eu cresci ali, descendo para o Taquaral, andando de bicicleta, frequentando o antigo Chopão e o Tapetão.
E os primeiros estudos, foram em escolas públicas ou particulares?
Foi escola pública. Eu estudei no Vilela Júnior, no Benedito Sampaio e Vitor Meirelles.
Na graduação, o senhor cursou Educação Física, é isso?
Sim, cursei Educação Física, e depois fiz especialização em gestão de negócios na Unicamp. Agora eu estou terminando outra especialização, desta vez em Gestão Pública.
Mas na época da graduação, o senhor tinha a intenção de atuar como educador físico?
Na época, eu fazia Administração junto. Foi um período muito intenso. Então, fui fazendo. No fim, quis o destino que essa questão de gestão pública me trouxesse para o serviço público. Eu entrei na Prefeitura de Campinas como estagiário, isso há 42 anos.
Quem era o prefeito na época?
Era o Magalhães Teixeira [José Roberto Magalhães Teixeira]. Eu entrei em abril de 84. Eu saí do Serviço Militar, prestei um processo seletivo e entrei. E estou até hoje na Prefeitura.
Magalhães Teixeira tinha um modo próprio de governar, não?
Olha, o prefeito Magalhães Teixeira foi uma escola para a gente. Não só para mim, mas para o Dário também. Eu ingressei no primeiro governo dele, acho que estava no segundo ano. Ele sempre foi muito próximo da população, cobrava muito dos seus secretários, levava os secretários aos bairros, quantas reuniões que a gente foi. Eu não era secretário na época, mas eu acompanhava. Isso nos quatro cantos da cidade. Isso para a gente foi uma escola, que a gente traz até hoje. Eu vejo hoje no Dário muita coisa do Magalhães Teixeira.
Por exemplo?
O Dário tem um grande envolvimento nos detalhes. Ele acompanha as discussões e os projetos e vai visitar as obras.
Foi o Magalhães Teixeira que convidou o Dário para ingressar na política, não é?
Sim, o Magalhães foi o grande responsável. Na época, ele convidou o Dário para que fosse candidato a vereador. Não foi eleito, mas ficou na suplência. Em seguida, veio o convite para o Dário assumir a presidência do Hospital Mário Gatti. A partir daí, a mosquinha da política o picou.
Essa parceria política e de amizade entre o senhor e o prefeito vem desde quando?
Bom, eu conheço o Dário desde a época que ele era presidente no Mário Gatti. Eu tenho uma história interessante, uma história até familiar. Minha mãe era funcionária do Mário Gatti. E meu pai era funcionário da Secretaria de Finanças. Na época, o doutor Sérgio Bisogni, que hoje é presidente da Rede Mário Gatti, era o urologista-chefe do hospital. Ele faria o atendimento de uma tia minha. Acontece que o doutor Sérgio ficou preso em uma cirurgia. Para que minha tia não deixasse de ser atendida, ele sugeriu que ela se consultasse com um residente, que era o Dário. Minha mãe concordou e a partir daquele momento nasceu um laço de amizade entre ele e a minha família. Nesse contexto, fomos nos aproximando. A certa altura, fui trabalhar na Unicamp, onde fiquei por um tempo. Até que um dia o Dário me falou: “agora você vai vir comigo”. Compus a equipe dele quando ele presidiu a Câmara. Eu o conheço há mais de 30 anos.
Tem muita identidade de pensamento entre você dois? Há espaço para divergências?
Tem muita convergência. Mas é lógico, cada um tem um ponto de vista em relação a determinados assuntos. Eu conheço tanto o Dário, que pelo olhar dele eu já sei o que está pensando. Então, a gente criou essa afinidade. Não é apenas uma questão só política, é um laço de amizade. Isso é muito importante nos dias de hoje. Assim, você consegue tratar as coisas sem nenhuma máscara. Eu levo notícias boas e notícias ruins no dia a dia. É lógico que eu escolho o momento. De manhã é o melhor momento. Conversar enquanto se toma um café. No final da tarde, depois de um dia intenso, é mais complicado. Aí eu prefiro deixar para o dia seguinte (risos). O Dário não é uma pessoa que age com o fígado. Esse é o grande diferencial dele. Ele é um cara bem racional, bem tranquilo, se tiver que dar um passo atrás, ele dá. Então, fui aprendendo a trabalhar com ele. É uma relação de muita confiança.
O primeiro ano de mandato do prefeito Dário foi atípico e desafiador por causa dos impactos da pandemia de covid-19. Como foi conduzir a cidade naquele momento?
Olha, foi muito difícil e assustador. Para piorar, o prefeito adoeceu. Aquilo foi um impacto para a gente. Você ter o líder em começo de governo internado em uma UTI, em meio à pandemia, foi difícil. Eu levava documentos para ele assinar na Casa de Saúde. Eu via aquela cena lá e me assustava. Era uma coisa desconhecida, ninguém sabia onde aquilo iria dar. Foi um momento tenso no governo. Mas, graças a Deus, passou e conseguimos administrar a cidade.
Imagino que o nível de tensão era alto na Prefeitura. Decisões sobre decretar o fechamento do comércio, por exemplo, deveriam gerar muita discussão, não?
A gente tinha um colegiado, um grupo formado por secretários e especialistas que avaliavam toda a situação. Levávamos as recomendações ao Dário que, mesmo internado, dava a palavra final. Foi uma fase muito difícil, marcada por muitas perdas, principalmente de vidas. Mesmo diante de tantas adversidades, Campinas obteve sucesso na questão da vacinação. A cidade virou um exemplo para outras localidades.
O senhor é apontado como uma pessoa discreta, que não gosta de aparecer, que trabalho nos bastidores. É uma questão de personalidade?
O pessoal tem a ideia de que você está no gabinete, trabalhando no ar-condicionado. Não é assim. Você tá em casa, o telefone toca. Está sempre acontecendo algo, como uma árvore que cai, é um buraco que se abre na rua, um problema na área da saúde. Ou seja, é preciso ter noção do que acontece dentro do governo. Mas isso é uma coisa que seduz a gente. A gente fica com aquela necessidade de entregar, de realizar, e isso é muito bom. Eu tenho 42 anos na Prefeitura, então eu já vi muita coisa. E eu sempre fico na retaguarda. Sempre foi assim. Sempre dando o suporte necessário para a figura principal, que no caso é o prefeito.
Agora, porém, o senhor assumiu uma função de liderança ao ocupar o cargo de presidente do Republicanos em Campinas. É possível que tenha maior visibilidade, não?
Quis o destino que eu assumisse a presidência dos Republicanos em Campinas. Com isso, comecei a aparecer mais. E surgiram as inevitáveis perguntas. “Quem é o Aderval?”. Para alguns, pode parecer que estou chegando agora, mas estou na vida pública há muito tempo. Tem todo um caminho percorrido.
Uma trajetória que lhe permitiu conhecer bem Campinas?
Sim, conheço. Fiquei nove anos na Secretaria de Transportes, trabalhando com transporte coletivo, então a gente virou essa cidade. Depois veio a Secretaria de Administração Regional. Tive a convivência com o Magalhães Teixeira, que estava sempre muito próximo dos problemas da população. Então, a gente viu a cidade se transformar. Hoje, quando eu vou ao (distrito) Campo Grande, eu até me emociono.
É outra cidade, não é?
Sim, é muito bacana acompanhar as mudanças da cidade. Lógico que a gente tem desafios ainda. Não se pode falar que a cidade está perfeita. Mas a gente vem acompanhando o quanto a cidade está evoluindo. O campineiro é exigente e está certo, tem que ser. O campineiro cobra mesmo, e é assim que ter que ser. Tem que cobrar.
O senhor falou sobre o setor de transportes. A licitação do serviço sofreu adiamentos. Desta vez ela sai?
A gente está caminhando nesse sentido. É uma questão que incomoda a gente. O edital foi construído por várias mãos. A gente contou com a colaboração do Mistério Público, especialistas do setor, o pessoal das fundações e os nossos técnicos. Aí, quando o negócio está para sair, aparece alguém do mercado e diz “isso aqui não está legal”. Não tem problema a gente dar um passo atrás. O que a gente não quer é chegar lá na Bolsa (de Valores, atual B3) daqui alguns dias e o negócio melar de novo. Tudo indica que agora vai. Fizemos as correções recomendadas, dentro de um processo muito complexo. Campinas não aguenta mais a atual frota de ônibus.
Secretário, como é a rotina do chefe do chefe de gabinete de uma Prefeitura como Campinas? Imagino que devem chegar diariamente demandas de todos os lados e de diversas ordens. Como dar andamento a tantos pedidos?
Chega muita demanda. É uma loucura. A partir do momento em que piso na Prefeitura, passo a não ter hora para sair. Como você falou, chegam assuntos diversos. De tudo quanto é lado. As questões de saúde, por exemplo, mexem muito com a gente. Existe uma fila, existe toda uma programação que tem que ser seguida. Os pedidos relacionados à educação foram reduzidos por causa das novas creches, que geraram 5 mil vagas. Hoje está sobrando vagas em creches. Esse era um problema histórico que nós conseguimos resolver. As creches são de primeiro mundo. O próximo passo é construir dez escoas de ensino fundamental. A licitação deverá ser lançada brevemente.
Como é a equipe da sua secretaria, é grande ou enxuta?
Tem pouca gente. Eu tenho a vantagem de ter um tempo de Prefeitura, né? Quando o Dário foi eleito lá em 2020, eu já comecei a pensar na equipe. Escolhi pessoas que conhecem a máquina. Peguei um de uma área, um de outra, um aposentado. Ou seja, tenho braços e cabeças que me ajudam. A gente filtra e tem muita coisa que não chega ao prefeito. A gente mesmo resolve para não sobrecarregar ainda mais o prefeito.
Como é conduzir a Administração, sendo o senhor presidente do Republicanos e tendo ao redor muitos quadros do PSB?
Para começar, eu aplico um dos ensinamentos do Dário, que diz para que não se faça política com o fígado. Você tem que saber usar a inteligência, ter discernimento. É preciso saber conduzir questões que não gerem choque dentro do arco de alianças que o governo fez. A gente respeita isso. O que a gente mais faz é respeitar o que foi construído lá na pré-candidatura. A gente respeita os espaços de cada um. Lógico, cada um tem seu time. Eu tenho a obrigação de, como presidente do Republicanos de Campinas, levar nossos projetos adiante. Mas eu não vou atrapalhar o projeto do PSB, do PP, PSD, do Podemos. Isso a gente divide muito bem e não deixa essas questões políticas contaminarem as ações do governo, porque senão você não consegue trabalhar, vira um tiroteio.
O prefeito Dário tem manifestado a intenção de ampliar o escopo das medidas voltadas à requalificação da região central. Como estão as discussões nesse sentido?
Bom, a lei do Retrofit é a grande incentivadora da área central. Junto com isso, a Prefeitura também está mais presente no Centro. Quando você pega o Palácio da Justiça e o transforma no Palácio da Cidade, com todos aqueles serviços previstos, você já vai atraindo coisas boas para o Centro. A questão da melhoria das vias públicas que nós fizemos, José Paulino, Campos Sales e Glicério, já concluídas, também foram importantes. Tudo isso vai criando uma nova dinâmica no Centro. A região central não está mais vocacionada para o comércio. O centro está mudando. Talvez você tenha que investir na área gastronômica. É um desafio para os técnicos ver o que pode movimentar aquela região. O Centro de Campinas é maravilhoso, mas precisa dar uma vida nova para ele. A reforma do Mercadão é um exemplo. Eu estive no Mercadão e fiquei impressionado com a movimentação no local. Aquele mezanino cheio, um lugar gostoso que pode ser frequentado pela família. Outra coisa que fizemos, e que já está aparecendo, foi a troca do parque de iluminação por tecnologia de LED. Hoje você já vê a cidade mais iluminada. Isso traz segurança.
A questão do hospital metropolitano foi uma vitória pessoal do prefeito Dario, mas uma vitória também dos demais municípios da região, concorda?
Essa questão do hospital foi importantíssima. Não foi só uma vitória pessoal do Dário, porque várias cidades reivindicaram esse hospital metropolitano. A unidade vai desafogar a nossa rede. Nossa rede é pesada. A gente fez um levantamento recentemente, que apontou que 80 mil pessoas migraram do sistema particular de saúde para o SUS. Isso é um peso, no final das contas. Hoje, se você pegar o nosso orçamento, saúde e educação consomem mais da metade dos recursos. O hospital vai dar um alívio e vai ajudar também as demais cidades da região. Outra coisa importantíssima é o trem (Trem Intercidades). Ele vai ser um indutor de coisas boas ao longo da ferrovia. O projeto é a menina dos olhos do governador.
O Estado divulgou um projeto que prevê a construção de habitações nas proximidades das estações do Trem Intercidades...
O projeto é maravilhoso. Inclusive, o prefeito e eu estivemos na Casa Civil semana passada, quando conversamos com o pessoal da Secretaria de Habitação do Estado, já pensando em alguma coisa nesse sentido para área do Pátio Ferroviário. Uma área daquela, na Europa, já estaria um brinco. Ali você tem arquitetura do estilo inglês, com algumas estruturas que precisam ser restauradas, mas que são muito bacanas. A gente já teve o exemplo do Prédio do Relógio. Os eventos que a gente faz ali são uma maravilha.
O prefeito afirmou que vai trabalhar para tentar ampliar o número de deputados estaduais e federais por Campinas. Como atingir esse objetivo?
Bom, o Republicanos é um partido que vem crescendo. A cada eleição foi ampliando o número de vereadores, de prefeitos, de deputados. Então, o partido está em um bom momento. Hoje a gente tem um projeto, sim. A gente tem o compromisso de trabalhar dois nomes, um para deputado estadual e outro para federal. O federal é o atual deputado Marcos Pereira, que é o nosso presidente nacional. Ele vai fazer uma dobrada com o vereador Igor Diego, que concorrerá à Assembleia Legislativa. O Marcos Pereira trouxe muitas emendas para Campinas, antes mesmo de estar morando aqui na região, em Vinhedo. Ele tem um olhar diferenciado para Campinas. Dessas emendas sairão obras importantes, como a ligação do Campo Grande e o Ouro Verde. É algo reivindicado pelos moradores dos dois distritos há muitos anos. Com a nova ligação, os motoristas terão uma opção à ligação existente, lá perto do Satélite Íris. A nova será construída próxima do Jardim Florence. É uma obra que está para começar. Acho que a licitação deve ser divulgada por esses dias. A reforma do Mercadão foi uma emenda do Marcos Pereira. É um deputado muito amigo Campinas, e é fundamental que se tenha esses representantes na Câmara.
Secretário, a política pode ser comparada a uma partida de xadrez. O bom enxadrista mexe a peça de acordo com a dinâmica e a capacidade do seu adversário. O senhor disse que o governo Dário hoje tem apoio de vários partidos. Mas nós sabemos que em 2028 o PSB terá outro rumo. O Republicanos vai ter candidatura própria?
Bom, vamos por partes. Primeiro, antes de chegar a 2028, nós temos 2026. 2026 será um indicativo. Não dá para você pensar em 2028 sem passar por 2026. A política é muito dinâmica. Hoje nós temos um grupo de centro-direita que está muito forte. Com certeza vai ter um candidato. Não se sabe quem ainda. É algo que está sendo construído. Mas tudo isso vai ser a partir das eleições deste ano. A partir daí, todo o olhar vai ser para 2028.
O prefeito Dário deverá exercer papel importante nessa definição, não?
O prefeito Dário vai ter um papel importantíssimo nisso. Se ele mantiver a boa aprovação que tem agora, e a intenção é que chegue lá na frente com uma aprovação melhor, onde ele colocar a mão a coisa vai deslanchar. Falei isso para ele. Teve um dia que ele chegou de manhã lá e contou: “Nossa, acordei essa madrugada, perdi o sono”. Perguntei o que havia acontecido e ele disse que ficou pensando na sua sucessão. Disse que ainda era cedo para pensar nisso, mas a verdade é que ele precisa preparar uma pessoa para dar continuidade ao seu legado. Isso é muito importante. Ele vai cumprir o mandato dele integralmente, mas depois precisa estar preparado para as oportunidades que surgirem.
Ainda sobre a questão partidária, o chefe de gabinete é presidente do Republicanos e o vice-prefeito, Wanderley de Almeida, o Wandão, até recentemente foi presidente do PSB, partidos com linhas muito diferentes. Como é o diálogo entre vocês dois?
A grande sacada é o respeito. A gente respeita o Wandão e o Wandão respeita a gente. Cada um tem a sua história, cada um tem o seu time. Não tem briga, mas cada um vai marchar com a sua turma, né? Juntar diferentes forças numa mesma panela, não é uma coisa fácil. O Dário conseguiu articular isso.
Além de colaborador de confiança, o senhor é amigo do prefeito. O senhor tem liberdade para discordar e dar conselhos a ele?
Como eu disse, eu falo coisas boas e ruins ao prefeito. Não tem como ser diferente, porque o dia em que eu omitir qualquer informação dele, eu tento ir embora. Eu não posso mascarar nada dele, seja uma notícia ruim, uma coisa que vai acontecer, problema que está acontecendo ou coisas boas. Quando ele me pergunta o que achei de determinada coisa, às vezes respondo que não gostei disso ou daquilo. Eu coloco a minha opinião. É importante você compartilhar, escutar. O Dário é muito de ouvir. Ouve o Wandão, ouve a mim, ouve outros. Depois ele forma a opinião dele e decide.
Dário não deu qualquer sinal do futuro dele após o final do segundo mandato?
Ele ainda não tem muito claro qual vai ser o futuro depois desse segundo mandato. Vai esperar a acomodação das coisas. Ele fala que a meta dele é encerrar o governo bem. Deixar Campinas em uma condição melhor do que aquela que ele pegou. Mas ele está pronto para as oportunidades que surgirem. É um quadro que estará à disposição do partido.
Nas entrevistas que fizemos com o prefeito, ele sempre demonstrou preocupação com os reflexos da reforma tributária para os médios e grandes municípios. Como está esta discussão internamente?
É um assunto que tira o sono do Dário. Não vai atingir a administração dele, mas o próximo prefeito estará lascado com isso. Imagine toda a arrecadação do município, menos o IPTU, indo diretamente para o governo federal? Como é que eles vão distribuir isso? Vai ser uma luta. Será uma guerra injusta, porque o Estado de São Paulo e as cidades paulistas geram muitos recursos, mas têm muitos gastos. Vou colocar alguns dados. No passado, o financiamento do SUS era dividido assim: o município entrava com 30% e os outros 70% vinham do governo federal e um pouco do governo estadual. Hoje essa relação se inverteu. Nós colocamos 70% na saúde. Isso estrangula o município. Outra questão é o transporte coletivo. Todo mundo fala em tarifa zero. Como é possível adotar a tarifa zero? Isso aí tem custo. Hoje a tarifa de Campinas é alta, e assim mesmo tem um subsídio. A Prefeitura aporta recursos para manter uma tarifa mais acessível. Então, são vários assuntos em questão. Como o Dário faz parte da Frente Nacional de Prefeitos, ele está levando essa discussão à frente. Ele está sempre em Brasília para discutir essas questões.
Além da licitação do transporte público, quais as outras prioridades desta segunda gestão?
A mais imediata, como disse, é o transporte coletivo. A renovação da frota é para ontem. Isso é uma coisa que tira o sono do prefeito e da equipe dele. Nós vamos licitar agora a construção de dez escolas, que são importantíssimas. Tem mais um novo lote de pavimentação de bairros. Parece que Campinas não tem esse tipo de problema, mas tem. São desafios já colocados. Além disso, segue o esforço para tornar Campinas uma cidade inteligente. O Dário gosta muito dessa questão de tecnologia. E tem o trabalho para ordenar a ocupação da párea do PIDS (Polo de Inovação para o Desenvolvimento Sustentável). Não foi fácil aprovar a lei que criou o PIDS, mas conseguimos após muitas discussões e apoio de várias instituições. Ah, outra coisa importante foi a implantação da Saúde Digital. Já temos mais de 2 milhões de atendimentos. Isso tem sido muito importante para atender a população e desafogar o sistema.
Secretário, o senhor está fazendo um curso de especialização em gestão pública. Como enxerga a necessidade da qualificação do servidor municipal?
A gente está com um olhar diferente para o funcionário. Queremos que ele possa ser um gestor. É o futuro. Você não tem mais aquele quadro de funcionários operacionais. Você tem gestores de contratos. Trazemos terceirizados que cuidam da parte operacional e deixamos a gestão aos cuidados dos servidores. Um exemplo foi a terceirização da gestão da UPA Campo Grande. A unidade era um inferno. Ninguém aguentava aquilo. Faltava pediatra, faltava isso, faltava aquilo. Era uma panela e pressão. A partir do momento em que houve a terceirização, tudo mudou. Os profissionais estão lá. O serviço é fiscalizado. Então, a entrega é diária. Também temos que considerar que muitos quadros já estão se aposentando. As pessoas que entraram na época do Magalhães Teixeira estão saindo. São técnicos bons. E você não forma um técnico na área pública do dia para a noite. A máquina pública é diferente. Você tem que ter muita sensibilidade. Você tem que ter muito pé no chão para tocar o dia a dia.
Quando o prefeito disse para o senhor que iria se casar, o senhor ficou surpreso?
Acho que a cidade ficou surpresa (risos). Afinal, ele era considerado um solteirão convicto. Mas acredito que chega um momento em que a gente precisa ter uma companheira. Ninguém foi feito para ficar sozinho. Acho que o casamento foi importante para ele. Acho que aconteceu no momento certo.
Secretário, no meio dessa pressão e correria diária sobra tempo para relaxar. Qual o seu hobby?
O meu dia começa às 5h da manhã. Acordo e vou para a academia. É preciso ter não só a saúde física, mas a mental em dia, né? Depois da academia, vou para a Prefeitura. Isso me ajuda muito, porque a gente precisa manter o equilíbrio. Fora isso, meu grande hobby é carro antigo. Eu tenho dois carros antigos e uma Vespa. Uma Vespa de 1986, um Jeep Militar de 1983 e uma F-100 de 1966. A Vespa ainda não está circulando porque preciso licenciá-la. Os outros circulam normalmente. Adoro fazer passeios com eles.
O senhor falou da pressão, das dificuldades, dos desafios. Viveu algum episódio pitoresco na função pública?
Tem um caso engraçado que vou contar para vocês. Uma pessoa me ligou e disse que queria reservar a capela do Cemitério da Saudade. Aí perguntei onde o parente havia falecido. E meu interlocutor disse que a morte ainda não havia ocorrido, mas que aconteceria às 17h daquele dia. Questionei sobre a situação e a pessoa disse que o médico havia garantido a morte para aquele horário. Eu liguei para o presidente da Setec e adverti: “você não pode rir”. E acabamos reservando a capela. A pessoa não morreu às 17h, foi um pouco mais tarde.
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