Rogério Cézar de Cerqueira Leite teve atuação estratégica na criação do polo tecnológico

Rogério Cézar de Cerqueira Leite também é um conhecedor de arte: "Tenho uma coleção de antiguidades imensas. Esculturas orientais, objetos decorativos de toda parte do mundo" (Leandro Torres/AAN)
A trajetória profissional de Rogério Cézar de Cerqueira Leite se confunde com a história da ciência e da tecnologia em Campinas. Engenheiro eletrônico e físico, ele teve — e ainda tem — papel fundamental no desenvolvimento de centros de conhecimento que transformaram a cidade em referência.
Morando nos Estados Unidos, ele trabalhou com pesquisadores notáveis. Por aqui, se notabilizou como primeiro diretor da Faculdade de Física da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e foi essencial no desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia. Desde 1997, ele assumiu postos estratégicos nos conglomerados científicos que passaram a integrar o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).
Despontaram no polo projetos de ponta como os laboratórios nacionais para produção de pesquisa com a luz síncrotron, o bioetanol, a nanotecnologia. Mesmo hoje, com respeitáveis 87 anos de idade, Cerqueira Leite é o nome forte do Projeto Sírius, o mega-acelerador de partículas representante do que existe de mais avançado no planeta para análise e transformação de materiais. Vai gerar o maior brilho dentre todos os equipamentos de sua classe.
Mas os campineiros acostumados com o cientista consagrado, citados nas reportagens técnicas, não imaginam um outro Cerqueira Leite. Um senhor apaixonado por obras de arte e música clássica. Ele desenvolveu um talento reconhecido por jornais e emissoras de televisão, onde ele atuou como crítico de arte. E em casa adora uma cervejinha, cria cães, cuida da decoração.
O cidadão é resultado de inquietudes, moralismos, versatilidades e — por que não? — superficialidades.
Predicados que, segundo ele próprio, são da natureza humana, inexplicável e apaixonante. Confira os principais trechos da entrevista concedida com exclusividade ao Correio Popular.
Professor, o CNPEM coloca Campinas em um patamar inédito na ciência e da tecnologia. E o senhor teve um papel fundamental para isso. Está feliz com os resultados?
O CNPEM é hoje uma instituição com reconhecimento internacional. Recebemos pesquisadores de 80 instituições de pesquisa, de 28 nações do planeta. E a participação de Campinas neste universo vai crescer enormemente com o Projeto Sírius. Vamos ter uma tecnologia incomparável, superior a tudo o que existe no mundo.
Nós já temos o laboratório da luz síncrotron. Ele está ultrapassado?
De jeito nenhum. O laboratório foi concebido há 30 anos, levou uma década para ser implementado. E hoje produzimos o feixe de quarta geração, como os mais avançados laboratórios do mundo. Há 40 centros similares no planeta. Nenhum superior ao nosso. Em dez anos, não teremos tecnologia mais avançada. A expectativa de vida útil da fonte é de pelo menos vinte anos.
Então por que precisamos do Projeto Sírius?
O Sírius foi projetado para produzir uma intensidade de luz muito maior. O potencial de análise vai muito mais longe, algo inédito. Na realidade, tudo o que faz o Sincroton faz, o Sírius vai fazer melhor. E é natural que, futuramente, o laboratório da luz síncrotron seja desmontado, com o reaproveitamento de parte da estrutura.
Mas o Sírius, que nasceu com tanta pompa, deixou de receber investimentos do governo federal para a conclusão dos círculos de elétrons. Isso preocupa? O Sírius está ameaçado?
Desde 2015, sofremos cortes nos repasses. Precisamos, sim, de R$ 280 milhões para colocar o Sírius em funcionamento pleno. Mas estamos confiantes. Queremos concluir a estrutura até o final do ano, e a disponibilizar para pesquisas em 2019. Mas o atraso dos repasses não assusta. Se não ficar pronto neste governo, entregamos no próximo.
Em um momento de crise, todo o setor de ciência e tecnologia sofre com o corte de verbas…
Verdade. Mas o Sírius é um milagre. Não existe nenhum projeto que tenha recebido tantos repasses, ou que os repasses estejam em dia. O Sírius é efetivamente o único projeto científico nacional que não parou, apesar da crise. É um projeto estratégico para firmar Campinas como um polo gerador de pesquisa e conhecimento... No Brasil, não há nada parecido com o que existe em Campinas.
E os cientistas do Exterior conhecem nosso potencial?
Lá, uns conhecem, outros não. Quem vem aqui se impressiona. O CNPEM, com suas atividades internacionais, já melhorou muito nossa imagem. Agora, com o Sírius, temos o que mostrar.
E o polo é um incentivo ao surgimento de novos pesquisadores? O professor tem 87 anos, é uma referência. Mas a ciência não precisa de mais jovens?
Temos muitos jovens talentosos no CNPEM. É um grupo excelente, de promessas formidáveis. Temos sim os velhinhos. Mas a minha ideia sempre foi essa: o centro de pesquisa tem de ter jovens e âncoras experientes. Eu, por exemplo, vou deixando aos poucos o conselho de cientistas. Quanto vou lá, acabo tomando um bocado de espaço (risos). Mas ainda passou por lá umas duas vezes por dia. Trabalho de casa.
A gente pode dizer que o professor começa a curtir a aposentadoria?
Aposentadoria? Não existe. Aqui eu trabalho sem parar. E não é só tratando do Sírius. Tenho uma coleção de antiguidades imensas. Esculturas orientais, objetos decorativos de toda parte do mundo. Presentes que ganhei, peças que comprei. Gastei muito. A patroa aqui em casa briga muito comigo (risos). Eu faço a identificação das peças, passo dias pesquisando a origem de uma escultura. Agora estou me permitindo fazer outras coisas que amo.
Com uma história tão marcante no segmento, o senhor teve frustrações?
Muitas. Já escrevi até um livro de memórias, contando minhas peripécias. Tive chateações, sim. Por exemplo, criei dentro da Unicamp uma empresa para o desenvolvimento de fármacos. Mas teve um presidente entreguista, aí no passado, que instituiu uma legislação que favoreceu as multinacionais e provocou o fechamento de nada menos que 1.050 estações brasileiras que produziam remédios. E 350 projetos que estavam pra ser aprovados foram “fechados”. Foi triste. Mas o CNPEM está aí para isso: fortalecer a iniciativa brasileira.
Voltando à vida doméstica, o senhor agora tem mais tempo para o lazer, para uma caminhada, uma piscina…?
Claro. Curto uma cervejinha e um vinho. Só não tomo água (risos). Caminho uma vez por mês. E minha mulher fica me criticando. A Ruth. Sabe como é. Ela é psicanalista. Pior. Tenho filha psicanalista, nora psicanalista. Quando elas se juntam, saio correndo (garagalhada). Nada disso, tá tudo bem. Eu me divirto em casa. E curto meus três filhos, meus três netos.
Vejo que o senhor tem aqui no escritório uma coleção imensa de CDs. Gosta de música?
Adoro. Fui crítico musical da Folha de S.Paulo e da TV Cultura, por mais de uma década. Tenho 25 mil CDs, mais ou menos, de música clássica. Até dou cursos aqui em casa sobre o tema.
A gente percebe que hoje o senhor leva uma vida sossegada. Fruto de trabalho, claro. Mas sabemos que, ainda jovem, o senhor trabalhava em laboratórios estrangeiros. O senhor vem de uma família estruturada, que lhe deu condições de estudar, se especializar, de progredir…
Altos e baixos. Francisco Glicério é meu tio-bisavô. Meu avô Júlio César foi um fazendeiro muito rico. Mas a família perdeu tudo com o crash na bolsa. Meu pai, por exemplo, ganhou a vida trabalhando como delegado de polícia em Santo Anastácio, onde nasci. Fomos a “parte pobre” dos Cerqueira Leite (risos). Mas os valores da família não se perderam. Eu fui educado para me entregar aos estudos, para me preparar, para aprender… Acho que foi a base para construir a vida.