ENTREVISTA

Gestão usa Lei do Retrofit para restaurar a área externa da Maternidade de Campinas

Aguinaldo Pereira Catanoce, superintendente do Hospital da PUC-Campinas e coordenador da Maternidade, destaca importância do monitoramento diário da disponibilidade de leitos

Manoel Alves Filho; Mariana Camba/[email protected]
24/05/2026 às 14:54.
Atualizado em 24/05/2026 às 17:43
Projeto de aprimoramento da Maternidade está na fase 2 e contabiliza entrega de 32 novos quartos e 10 novos leitos na UTI Adulto (Alessandro Torres)

Projeto de aprimoramento da Maternidade está na fase 2 e contabiliza entrega de 32 novos quartos e 10 novos leitos na UTI Adulto (Alessandro Torres)

Depois da reforma da parte interna do Hospital Maternidade de Campinas, a área externa da unidade será modernizada por uma obra viabilizada pela Lei do Retrofit, que deve ter início em 2027. A novidade foi compartilhada pelo superintendente do Hospital PUC-Campinas e coordenador-geral da Maternidade, o neurocirurgião Aguinaldo Pereira Catanoce, ao celebrar o avanço na reestruturação e nos serviços prestados pelo hospital. O projeto de aprimoramento está na fase 2 e contabiliza a entrega de 32 novos quartos e 10 novos leitos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Adulto.

Com especialização em neurologia, Catanoce concedeu uma entrevista exclusiva ao Correio Popular, e ressaltou a importância de Campinas na saúde da região devido ao “porte e tamanho de capital” do município.

O gestor também avaliou a importância do monitoramento diário da demanda e disponibilidade de leitos na cidade para evitar problemas maiores na área da saúde, como os casos de superlotação registrados nos últimos anos. “O redimensionamento e atualização do número de leitos na região é uma situação que precisa ser tratada e cuidada antes da sua necessidade, portanto, com tempo e planejamento”, destacou ele.

Doutor, para sabermos um pouco mais sobre o senhor, nos conte um pouco sobre a sua infância e o despertar para a Medicina?

Eu sou de Espírito Santo do Pinhal, filho de professores, meu pai na área da agronomia e a minha mãe da história. Era um ambiente seguro, acolhedor e familiar, de muita cultura, história e propício para estudar, crescer e se desenvolver. O despertar para a Medicina aconteceu cedo, afinal, eu nunca cogitei outra profissão sem ser a área da saúde. Eu não tinha nenhum familiar nessa área, mas acredito que a vontade veio com a morte do meu avô materno. Nós tínhamos um convívio muito próximo e quando ele faleceu eu era muito novo, criança, então acho que isso tenha chamado a minha atenção. Eu sempre tive como meta a área da Saúde, da Medicina. 

E onde o senhor se graduou? Como foi essa época?  

A graduação foi feita na escola estadual Cardeal Leme, em Espírito Santo Pinhal. O ensino fundamental eu cursei nessa unidade e o ensino médio eu fiz em Campinas, com um estudo um pouco mais técnico na região onde hoje é o bairro Castelo. A década de 90, a partir de 1994, foi o período em que eu conheci a cidade e que fiz grandes amizades que permanecem comigo até hoje. Quando prestei o vestibular para Medicina, eu fui aprovado em universidades de Bragança Paulista, Marília, Jundiaí, mas a PUC-Campinas era a que eu sempre desejei por ser um local que me proporcionou a boa performance na profissão.  

A sua especialidade é a neurologia, inclusive, atuando como neurocirurgião. Como surgiu o interesse por essa área?

O interesse pela neurologia e neurocirurgia surgiu no último ano da graduação. A chamada residência médica com pós-graduação é quando você adquire o maior conhecimento específico, entre os meus 25 anos e 32 anos, sendo seis anos de residência. Eu também tive a oportunidade de passar na USP, em Ribeirão Preto, mas a minha escolha foi continuar na PUC-Campinas. Na sequência, eu fui para São Paulo, momento em que eu saí pela primeira vez da instituição PUC-Campinas e concluí a minha formação na área de neurocirurgia oncológica, vascular, com foco na parte craniana e nos serviços da oncologia.

Como foi essa trajetória? O senhor é um exemplo honrado de “filho da PUC” que se tornou um dirigente da universidade?  

A minha história na gestão e em cargos diretivos não foi planejada, ela aconteceu. É fato que, talvez, o perfil de liderança tenha me ajudado muito nesse processo, onde alguns colegas me convidaram a ter essa oportunidade, mas eu sentia a necessidade de mais estudos para me especializar na área de gestão, administração, negociação e financeira, principalmente, junto a gestão de pessoas e da comunicação. A administração hospitalar é uma das áreas mais complexas, assim como a área da saúde, devido ao modelo de atuação. O Brasil tem um sistema de saúde que conta com o Sistema Único de Saúde (SUS), o sistema privado e muitos hospitais e equipamentos de saúde com capacidade de atendimento integrado, como é o caso das unidades filantrópicas e públicas de Campinas. Isso traz uma grande diversidade para o modelo de negócio.

Nós temos enfrentado problemas de saúde em todo o país. Em Campinas, há uma sobrecarga sobre o sistema público e, inclusive, houve uma movimentação dos prefeitos da região para a aprovação do Hospital Metropolitano. Como o senhor vê o prognóstico para a chegada do hospital?

Eu vejo de maneira positiva. Campinas tem um papel muito importante na região metropolitana, com porte e tamanho de uma capital, além do protagonismo e status regional. Há a demanda interna da população junto a complexidade do maior atendimento às cidades adjacentes que precisam desse suporte nos serviços mais complexos. Por isso, o crescimento do Hospital PUC-Campinas e do Hospital Maternidade de Campinas com interesse nos investimentos para atender cada vez mais pacientes e com melhor qualidade. 

Como o senhor define os perfis desses dois hospitais, o da PUC-Campinas e o da Maternidade, e como analisa o diálogo humano na área de saúde? 

O Hospital PUC-Campinas tem quase 400 leitos operacionais, por isso é considerado de grande porte e de importância para a cidade e região. É um hospital que se desenvolveu, apesar da sua pouca idade (50 anos) e talvez seja o que mais tenha crescido em tamanho e qualidade diante do pouco período de história. É um hospital que avançou muito em algumas áreas e que agregou valor para a sociedade com a disponibilidade cirúrgica de alta complexidade e na formação de profissionais. Os atendimentos via SUS e do setor privado vêm crescendo nos últimos anos. O Hospital Maternidade aconteceu numa oportunidade, num desafio, em que há dois anos assumimos a operação do hospital para devolvê-lo ao nível que Campinas merece. A Maternidade é onde nasceu e nasce Campinas, com uma média de 500 a 600 partos por mês, quantidade que representa quase a totalidade dos serviços de obstetrícia da RMC via SUS. Os estudos mostravam que a Maternidade precisava de um novo modelo de gestão, de uma instituição com mais estrutura para dar suporte nessa operação e a PUC-Campinas se colocou à disposição do estudo e, através da mantenedora, assumiu a unidade. Agora, estamos nesse processo de integração e incorporação da unidade junto à mantenedora. Talvez a PUC-Campinas tenha sido uma das poucas, ou talvez a primeira, a realizar um processo de expansão e aquisição de uma operação tão complexa e grande como esta. A expectativa é de que com as reformas e melhorias da estrutura predial, no nível de serviço, de novas especialidades, como o materno-infantil e pediatria, se tenha um setor privado mais robusto no atendimento para que a gente possa ter um sistema SUS e de atendimento junto a Prefeitura também mais robusto e de melhor qualidade. 

Ao final desse processo, doutor, a tendência é de que a Maternidade assuma mais o perfil de um hospital geral? 

Ela continua a ser estratégica na área maternoinfantil, mas a tendência e a estratégia é de que ela avance no atendimento geral, sim. Principalmente no serviço que complementa o Hospital PUC-Campinas, com a medicina de precisão, diagnóstica e de terapia minimamente invasiva, com foco na área oncológica da mulher. É um processo de continuidade desse tipo de cuidado e atendimento com as crianças no que a gente chama de atendimento tanto de urgência como ambulatorial, com cirurgias de médio porte e expectativa de trazer novos equipamentos para oferecer mais serviços, inovação e agilidade. A localização da Maternidade é um ponto extremamente importante e estratégico nesse quesito.

Em relação ao Pronto Atendimento e aos investimentos da UTI Adulto do Hospital PUC-Campinas, como isso vem avançando nesses últimos anos?  

A região Noroeste de Campinas cresceu muito e hoje soma em torno de 400 mil habitantes. O Hospital PUC-Campinas consegue atender a demanda da melhor forma possível, junto as procuras do SUS, encaminhamentos via regulação de vagas e de convênios com a Prefeitura, mas, principalmente, o crescimento do setor privado. Nós fizemos e conseguimos entregar talvez o maior Pronto Atendimento da cidade, com alto investimento em infraestrutura. Nós temos áreas novas de atendimento do setor privado, com a ampliação e melhoria de outras áreas do hospital, inclusive do próprio SUS. Um crescimento nos últimos dois anos e com um novo tipo de acolhimento ao colaborador. Inauguramos o espaço chamado de despressurização, que é uma forma estratégica e necessária de cuidar dos colaboradores. O profissional da saúde tem um tempo de trabalho e dedicação muito acima do normal e precisamos monitorar e cuidar deles também, por isso a chamada despressurização da pressão do dia a dia.

Nós esperamos que a superlotação da saúde pública melhore com a chegada do Hospital Metropolitano, mas ainda vai levar alguns anos para contarmos com esse serviço. Quais são os caminhos possíveis para melhoraria desse cenário até lá?

Não é fácil o que se faz na área da saúde, em que eventualmente o tempo da entrega desses investimentos muitas vezes não consegue acompanhar o crescimento da cidade. O redimensionamento e atualização do número de leitos na região é uma situação que precisa ser tratada e cuidada antes da sua necessidade, com tempo e planejamento. Em paralelo, há as situações de gestão e cuidado da fila, em que é necessário priorizar o que for mais impactante. Como deve demorar um pouco para o funcionamento do Hospital Metropolitano, que será bem-vindo para redimensionar a oferta de leitos via SUS, o tratamento inteligente para a indicação de cirurgias e o tratamento preventivo para evitar complicações e o atendimento hospitalar das emergências são ações de contingência para evitar o desperdício da rede pública saúde até lá. A gente sabe que 30% dos exames de diagnóstico, imagem e laboratório não são retirados. Então, existe um processo de uso dos recursos de uma maneira não tão adequada e que causa desperdício no sistema de saúde, o qual mobiliza a economia com recursos orçamentários, tanto público como privado. Tratar o desperdício com diagnóstico rápido, do ponto de vista da gestão e do cuidado, é necessário e auxilia quem precisa do leito. O que a gente consegue todo ano é aumentar o giro do leito e a produtividade, como uma alternativa inteligente e coordenada. Por isso, o que se pode fazer até a ampliação de novos leitos é aprimorar a gestão do cuidado. Hoje, 50% hoje dos pacientes que estão superlotando os prontos-socorros em situações críticas tem o quadro de saúde relacionado aos indicadores da assistência primária. Com o cuidado antecipado não chegaríamos nessa situação. O fato é que ainda envelhecemos mal.  

Assine o Correio Popular e confira a entrevista na íntegra.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Correio Popular© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por