Rapaz posta em rede social mensagens que moradores acreditaram serem ameaças contra crianças
Uma das unidades de ensino afetadas pela confusão; bilhete na porta justifica fechamento por "segurança"r (Leandro Ferreira/AAN)
Um boato nas redes sociais levou moradores da pacata cidade de Pedreira, a 48,4km de Campinas, ao pânico e as escolas a dispensaram os alunos, ontem de manhã. O zum-zum surgiu a partir de postagens satânicas e de “Deus”, sem sentido, feitas por um desempregado de 27 anos. Como foram feitas citações como “sangue” e “churrasco”, por exemplo, famílias de estudantes acharam que o rapaz atacaria escolas. O terrorismo levou a Polícia Civil a deter o desempregado e enviá-lo para internação em uma clínica psiquiátrica. A família dele ficou em choque. Ramon Scarpato fez aniversário ontem e entre sábado e domingo ele fez algumas postagens em sua página no Facebook. Em uma delas, postada as 22h41, disse: “Meu aniversário amanhã gurizada, fui humilhado pela selva de pedra”. Seis minutos antes havia feita outra chamada com os dizeres: “O vagabundo trabalha. Amanhã temos churrasco no país da carne. Meu aniversário. Livre-Arbítrio...” “Se eu quiser pecar eu peco. Não é um irmãozinho mimado que me controla. Churrasco amanhã, Brasil, presente para Jesus Cristo. Papai, eu respeito. Cidade-quase-pagã também, gratidão”, citou. Em outra mensagem, do dia 24 de novembro, ele escreveu: “Está chegando. ‘amigos’... 27/11. Mentir sozinho, eu sou capaz. Brasil, sociedade, cidade-quase-pagã”, postou. No dia 20, ele publicou: “Eu sou o Arcanjo Lucífer. Primeiro filho de Deus, irmão de Jesus Cristo”. Os moradores acreditaram que essas palavras eram ameaças e quem lia as mensagens foi passando para os amigos através do WhatsApp. Pais que tiveram acesso às mensagens ainda na noite do domingo não enviaram os filhos para a escola, mas os que não sabiam de nada, levaram, porém, pouco depois foram chamados para buscarem as crianças. “Eu acabei de deixar meu neto na escola e fui chamado pra buscá-lo. Disseram que não tem aula por conta de uma ameaça”, disse o aposentado José Orlandi Silva, de 61 anos. A faxineira Valdice Nascimento, de 57 anos, mora em um bairro afastado da região central, mas quando soube das supostas ameaças ligou para a filha. “Eu fiquei apavorada quando soube da mensagem. Tenho netos nas escolas e pedi pra minha filha ir buscá-los. Se é verdade ou não, não sabemos. Mas é bom prevenir”, disse. Scarpato mora na Vila Santo Antônio, a cerca de 300m da delegacia de polícia. Uma escola de idiomas na mesma rua onde mora o jovem fechou as portas e cancelou as aulas no período da manhã por medida de segurança. Segundo a secretária da unidade, que preferiu não ser identificada, houve tumulto na rua, que precisou ser bloqueada. “Deu medo, sim. A gente não sabia o que ele (o desempregado) poderia fazer”, disse. Pedreira tem uma população de 41.668 habitantes e a maior parte dos moradores tomaram conhecimento das mensagens. Tanto as escolas da rede municipal como da rede estadual dispensaram ou liberaram os alunos. “A boataria tomou uma proporção descabida e por conta desta instalação de pânico, a Secretaria de Educação fez orientações para as escolas. Não suspendemos as aulas, mas pedimos para fechar os portões e avisar os pais”, disse a secretária municipal de Educação Mariângela Aparecida de Oliveira Rodrigues. “Não sei de onde partiu esse boato e não recebemos nada oficial. Apenas fizemos orientação de segurança. Pedimos para que as pessoas tenham calma e discernimento quando receberem mensagens deste tipo. Que procurem ver se é verdade ou não. Temos a inteligência da polícia para rastrear esse tipo de informação. Eu sei que hoje as redes sociais e a mídia divulgam muita coisa que às vezes não sabemos se são verdadeiras ou não”, disse. A rede municipal possui 2.350 alunos no ensino fundamental, 1,3 mil na creche e 850 na pré-escola. Segundo Mariângela, ao menos 30% dos alunos foram pegos pelos responsáveis ou então não foram à escola. A rede estadual não deu retorno até fechamento desta reportagem. Policiais civis informaram que não há nenhum crime contra o jovem e que foi elaborado um boletim de ocorrência de natureza sem crime. Ele prestou depoimentos e foi levado para uma clínica. “É um rapaz normal, mas está falando coisas desconexas. Em nenhum momento ele fez ameaças para a cidade. É um rapaz conhecido por todos”, falou um investigador.