violência sexual

Metade das brasileiras teme assédio

A pesquisa entrevistou 500 jovens. A amostra, teve o objetivo de descobrir quando e onde a exposição ao ódio contra as mulheres mais ocorre

Henrique Hein
02/02/2019 às 16:13.
Atualizado em 05/04/2022 às 10:11

Um estudo realizado pela organização internacional de combate à pobreza ActionAid e divulgado na última quarta-feira, mostra que 53% das brasileiras entre 14 e 21 anos convivem diariamente com o medo de ser assediada. E que o medo diário do assédio afeta 41% das adolescentes entre 14 e 16 anos, aumentando para 56% na faixa etária entre 17 e 19 anos, chegando a 61% entre aquelas que tem 20 e 21 anos - o que sugere que a consciência sobre os riscos aos quais as mulheres ficam expostas aumenta com o passar do tempo. Ao todo, a pesquisa entrevistou 500 jovens - 250 mulheres e 250 homens. A amostra, que incluiu participantes de todos os níveis de escolaridade e de todas as regiões do Brasil, teve o objetivo de descobrir quando e onde a exposição ao ódio contra as mulheres mais ocorre. Entre o grupo de mulheres brasileiras ouvidas, 78% informaram que foram assediadas nos últimos seis meses. Quando perguntadas quais tipos de agressões sofreram, o assédio verbal (41%), os assovios (39%) e os comentários negativos sobre sua aparência em público (22%) foram as ações mais relatadas por elas. “A ideia de que mais da metade das jovens brasileiras sai de casa todos os dias temendo sofrer algum tipo de violência é alarmante. Indica o nível de normalização de atitudes que agridem e provocam danos sobre suas vidas. Sentir medo não é normal”, afirma Ana Paula Ferreira, coordenadora de Direito das Mulheres da ActionAid no Brasil. Pedidos de fotos nuas (15%), piadas sexuais que as envolvam em ambientes público (12%), piadas com teor sexual com o nome delas nas redes sociais (8%), beijos forçados (8%), apalpadas (5%), fotos tiradas por baixo da saia (4%) e fotos íntimas vazadas nas redes sociais (2%) foram outras agressões registradas na pesquisa. Além disso, o levantamento aponta que 83% dos brasileiros jovens acreditam que as meninas são mais suscetíveis a assédio que os meninos. Na desagregação por sexo dos participantes, 85% das mulheres concordaram com esta ideia, comparadas a 80% dos homens. RELATOS O Correio Popular ouviu relatos de mulheres, de 18 a 24 anos, que vivem nas 20 cidades da Região Metropolitana de Campinas, e que pertencem a todas as classes sociais. Segundo elas, o medo de sair na rua e serem assediadas é grande. As entrevistadas afirmam que já mudaram sua rotina, seus hábitos e comportamentos, por conta do receio de serem abordadas, assediadas e estupradas por homens conhecidos ou desconhecidos em ambientes públicos, privados ou de trabalho. Confira algumas das histórias ouvidas pela reportagem: ASSÉDIO NA VAN C., de 23 anos, moradora de Itatiba, diz que já foi assediada por meses pelo condutor da van escolar que a levava para a faculdade. Incomodada com a situação, ela relatou o caso para o ex-namorado, que disse que a culpa do assédio sofrido era “dela mesma”, porque estava supostamente sendo simpática demais com o motorista. “O cara que eu pensei que me amava, em vez de me ajudar, disse que se eu fosse estuprada terminaria o relacionamento comigo.”. “O motorista invadia meu espaço o tempo todo e me perguntava se eu trairia o meu namorado para transar com um cara da idade dele.” C., 23 anos Moradora de Itatiba ESTUPRO NA ACADEMIA M., de 21 anos, moradora de Campinas, passou por um choque psicológico aos 17 anos, quando decidiu se matricular pela primeira vez em uma academia. Por conta da rotina puxada, ela comparecia ao local somente em horários próximos do almoço — momento em que a academia ficava praticamente vazia. Ela relata que um dos instrutores, de aproximadamente 40 anos, sempre ficava olhando para o seu corpo com olhar de desejo. Um dia, ela foi atacada por ele em um dos cômodos do estabelecimento, tendo as partes íntimas tocadas pelo professor. “Eu fiquei apavorada e meu corpo travou literalmente. Eu não sabia o que fazer.” "Ele me virou contra a parede e começou a passar a mão nas minhas partes íntimas". M., 21 anos. Moradora de Campinas PERSEGUIDA NA FESTA L., de 19 anos, moradora de Vinhedo, foi abordada por um homem no camarote de uma balada. Ela conta que disse a ele que não estava interessada em ficar com ninguém naquela noite e que saiu de casa disposta a dançar. O agressor insistiu que a jovem deveria ficar com ele. Novamente, ela negou e pediu para que ele respeitasse seu espaço. Ao sair da balada, de madrugada, L. foi perseguida pelo valentão, que a agrediu e obrigou-a fazer sexo oral. “A rua estava deserta. Ele começou a me perseguir até um momento que acabei ficando encurralada. Por sorte, algumas pessoas começaram a passar pela rua. Foi então que ele desistiu de tentar abusar de mim e saiu correndo.” “Ele me segurou pelo cabelo, abriu a calça e disse que era para eu fazer sexo oral se não quisesse apanhar.” L., 19 anos Moradora de Vinhedo ABUSADA PELO PATRÃO F., de 22 anos, moradora de Hortolândia, conta que quando estava à procura de emprego, foi convidada para passar por um período de testes como atendente de uma lanchonete. A felicidade da jovem se transformou em pesadelo quando o dono do local começou assediá-la, passando as mãos sobre seu corpo todos os dias. “Eu precisava do emprego. No começo ele me encarava apenas, mas com o tempo, os assédios começaram a ficar mais agressivos e frequentes dentro e fora do ambiente de trabalho.” “Meu chefe se esfregava em mim e falava coisas idiotas no meu ouvido.” F., 22 anos Moradora de Hortolândia

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