HISTÓRIA DE VIDA

Mulher, negra, pobre e... vitoriosa

Triplamente discriminada, secretária municipal revela as dificuldades rumo à ascensão política

Henrique Hein
24/11/2019 às 13:35.
Atualizado em 30/03/2022 às 13:33

Secretária de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos de Campinas, Eliane Jocelaine Pereira comanda desde 2017 uma engrenagem que movimenta mais de R$ 200 milhões por ano na cidade. Ela também lidera um grupo de funcionários e toma decisões que impactam diretamente a vida de milhares de pessoas por dia. Mas, até chegar onde chegou, Eliane teve que superar barreiras. Triplamente discriminada — negra, pobre e mulher —, ela driblou desconfianças, venceu preconceitos e entrou para a história como a primeira mulher negra a conseguir ocupar um cargo de secretária municipal em Campinas — uma cidade que, ironicamente, foi uma das últimas do Brasil a promover a abolição da escravatura. Em entrevista ao Correio Popular, ela falou, entre outros assuntos, sobre a responsabilidade do cargo que ocupa e contou um pouco de sua história de vida, marcada pelo racismo, violência e a infância pobre no distrito do Ouro Verde — região em que mora até os dias de hoje. Confira os principais trechos da entrevista: Correio Popular - A senhora é a primeira secretaria municipal negra da história de Campinas. Isso soa como algo positivo ou negativo, tendo em vista que Campinas tem 245 anos de história? Eliane - Vejo como um ponto positivo e negativo, porque numa sociedade onde o racismo é o que mantém as desigualdades sociais, você — no caso eu — conseguir chegar nesse espaço de poder político e social é algo a se comemorar, no sentido de que ainda são poucas as iniciativas de se valorizar pessoas negras em cargos de poder. Mas, ao mesmo tempo, é algo negativo, pois isso só prova que a gente precisa de uma maior diversidade na política. Precisamos dar mais oportunidades para que mais homens e mulheres negras possam ocupar outros espaços de decisão também, seja na política, numa empresa ou em qualquer outro lugar. Como se deu a sua escolha para chefiar o departamento? Foi puramente técnica. Eu prestei concurso público e entrei na Prefeitura, com 18 anos, em 1998, como agente administrativo. Aos poucos, fui me destacando e subindo de nível. Trabalhei na Secretaria de Finanças, no Hospital Mário Gatti, na Sanasa, até ser convidada para ser assessora na secretaria que hoje eu chefio. Naquela época, eu representava a Administração em muitos eventos e, por causa disso, acabei conhecendo o prefeito (Jonas Dozinette). Me tornei secretária por indicação dele depois. O que foi determinante para que a senhora conseguisse ocupar um cargo que nenhuma outra mulher negra conseguiu? Eu, como a maioria das pessoas negras, venho de um universo periférico e que me distanciou das oportunidades. Uma das questões fundamentais foi o fato de os meus pais terem alçado uma formação para além do ensino fundamental. Pode parecer que não, mas isso fez toda a diferença na minha formação, porque eu tive em quem me espelhar. Eles sabiam mais do que ninguém que o estudo era uma ferramenta capaz de abrir portas e, desde criança, me incentivaram a estudar. Isso foi algo que fez toda a diferença na minha vida. Como a senhora enxerga o racismo na nossa sociedade? O racismo é algo estrutural, mas muitas pessoas ainda não conseguem enxergar isso. Os negros são descriminados o tempo inteiro independentemente da sua condição social. Não basta estar bem-vestido ou falar bem, sempre vai ter alguém querendo desqualificar, porque essa é a cultura da nossa sociedade. As pessoas não aceitam ver um negro tendo os mesmos direitos que os brancos, porque, no imaginário comum, a figura do negro está sempre associada ao papel de subordinação — o negro é o empregado doméstico, o pobre, o indivíduo não escolarizado e o marginal que foge da polícia; enquanto o branco é sempre visto como o empresário de sucesso e o cara que vai conseguir ter uma boa condição financeira. Então, enquanto a gente não resolver essa crise de identidade e não conseguir aceitar que os negros podem e devem ocupar os mesmos lugares e direitos que os brancos ocupam na sociedade, nós vamos continuar tendo desigualdade e racismo nesse País”.   A senhora disse que passou por muitas humilhações na vida em decorrência do racismo. Quais foram os momentos mais complicados? Bom… Eu nasci nos anos 80 e costumo dizer que esse período especificamente foi muito cruel. Hoje, a gente tem um racismo que se manifesta mais pelas redes sociais, mas, naquela época, era normal a pessoa falar o que achava de você na sua cara. Por causa disso, eu era constantemente xingada e chamada de macaca. Eu me lembro de inúmeras vezes voltar da rua para casa, com meus seis ou sete anos, e ser humilhada e agredida com pedras. Eu, inclusive, tenho uma cicatriz que fui fruto de uma pedra arremessada com estilingue. Eu também já fui agredida por uma professora que tinha ódio de alunos negros. Mesmo ocupando posição de poder, como a senhora vivencia o racismo nos dias de hoje? Conforme você cresce e sobe de nível social você começa a observar melhor o racismo estrutural da nossa sociedade. Hoje, por exemplo, ainda é comum eu entrar numa loja e o segurança vir atrás de mim para ver se eu não vou roubar nada. É comum também eu lavar a calçada da minha casa, aparecer algum entregador e pedir para eu chamar a minha patroa. São diversas situações chatas que, infelizmente, ainda acontecem apenas pelo simples fato de eu ser negra. Para você ter uma ideia, no dia em que fui tomar posse como secretária, os seguranças não me deixaram entrar na Câmara Municipal, porque, na visão deles, era impossível eu ser a nova secretária pela minha fisionomia. É possível combater o racismo? Qual a melhor forma de fazer isso? Para que isso aconteça algumas políticas públicas são fundamentais. A gente tem que ter serviços voltados para as denúncias de racismo e espaços de compreensão do fenômeno do racismo estrutural, uma rede integrada de educação e combate ao racismo nas escolas desde cedo, espaços culturais que reconheçam a produção cultural negra para que essa identidade histórica seja compreendida, entre outras ações que permitam com que a valorização da igualdade e dos diretos humanos esteja sempre presente.  

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