polícia civil

Munição amplia lista de problemas

A Polícia Civil de Campinas também enfrenta obstáculo em uma nova frente: munições vencidas. Segundo os policiais, não há reposição há anos

Alenita Ramirez
alenita.jesus@rac.com.br
21/05/2019 às 07:36.
Atualizado em 03/04/2022 às 20:31

Além de problemas crônicos como falta de pessoal, más condições de trabalho e baixos salários, a Polícia Civil de Campinas também enfrenta obstáculo em uma nova frente: munições vencidas. Segundo os policiais, não há reposição há anos, inclusive para treino. Muitas das munições, segundo os agentes de segurança pública, tiveram a validade encerrada em 2012. Além disso, eles reclamam de falta de lugar para treinos, já que a corporação não conta com estande próprio na cidade. Policiais ouvidos pelo Correio Popular garantem que muitos não atiram há vários tempo — alguns, inclusive, desde que saíram da academia, há 20 ou 30 anos.  Em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) nega que a falta de munições e diz que o Estado “investe continuamente no combate ao crime, na valorização e ampliação do efetivo policial”. Além disso, segundo a Pasta, os treinamentos de tiro para os policiais da região de Campinas são realizados regularmente na Unidade de Ensino e Pesquisa (UEP 2). A denúncia foi feita à reportagem pelos próprios agentes de segurança e confirmada pelo Sindicato da Polícia Civil na região de Campinas. Os policiais até admitem que existe estoque de munições nas unidades Gestoras Executoras (UGE) — seccionais —, no entanto, elas não são distribuídas para treino. Quem quiser treinar, de acordo com os policiais, tem que pagar do próprio bolso. Além disso, eles próprios têm que se virar para conseguir parcerias ou autorização em clubes de tiro. Os mais usados em Campinas são o do Exército e o da Guarda Municipal, que têm regras para agendamento. “As unidades gestoras não disponibilizam as munições e preferem jogar fora do que nos ceder. Sem contar que não se esforçam para ter um estande próprio”, disse um policial, cujo nome foi preservado. “Nos últimos três anos, eu acredito que foi distribuída, por ano, no máximo, uma para cada policial. Quantidade essa vergonhosa para um treino”, disse outro policial. Segundo os policiais, uma vez por ano, a instituição realiza treinamento de armas longas, como calibre 12, que não são usadas pela corporação, e fuzil. No dia a dia, os policiais usam pistola .40. Pelas regras da UGE, segundo os agentes, apenas um policial de cada unidade pode ser liberado para o curso. “A Polícia Civil não recicla seu policial, não só na parte de treinamento de tiro, mas não tem avaliação psicológica e nem física. A instituição deixa a desejar em muitos quesitos sobre a condição de atuar do policial no exercício da função”, disse o presidente do sindicato, Aparecido Lima de Carvalho, o Kiko. “Existem em São Paulo psicólogos, academia com estande de tiro, mas no Interior a dificuldade é muito grande para o policial fazer o treinamento porque não há estrutura. Deveria se estender o que tem na capital para o interior para o policial se reciclar e a instituição saber as condições que ele se encontra”, acrescentou. Além das munições para treino, os policiais também afirmam que não há reposição para uso diário. Muitas estão vencidas há mais de cinco anos. “Quando a gente pega a arma, recebemos uma caixa com 30 munições e não há um período certo para repor. As munições que estamos usando são velhas, apesar de a gente conservá-las bem. O fato é que podem falhar”, comentou um policial. Especialista Para o especialista em Tecnologia Militar, Roberto Godoy, as munições têm prazo de validade sim e elas são produzidas por escala, que aponta a data de fabricação. Segundo Godoy, o prazo de consumo do lote é de seis meses. “A munição pode ser preservada até três anos, mas em sua embalagem, em local seco e limpo, com processo de controle de umidade. O ideal é que seja entregue ao policial uma pequena quantidade para seja usada e substituída logo”, disse. Segundo o presidente do Sindicato, a última remessa de munições enviada à Polícia Civil de Campinas foi em março do ano passado, mas Carvalho não soube informar a quantidade e se foi suficiente para todo o quadro. Sobre o treinamento de tiro, o especialista em Segurança Pública, Ruyrillo Pedro Magalhães, defende que deveria haver um curso de reciclagem para o policial civil, pelo menos, a cada quatro anos. “O investigador sai na rua e ele precisa estar preparado para enfrentar um criminoso. O treinamento é necessário, pois a vida do policial tem de estar em primeiro lugar”, disse. Segundo Magalhães, a Guarda Municipal (GM) tem uma norma nacional que dita que o guarda tem que treinar tiros a cada dois anos. “O Policial Civil só treina quando faz academia, e ainda é pouco, e quando é para ser elevado de classe, ou seja, não há um treinamento obrigatório. Ele só treina se gosta”, comentou. SSP nega problemas denunciados Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) reitera que não há falta de munições ou equipamentos para o trabalho policial na região de Campinas, incluindo os fuzis .556 que são utilizados em operações especiais e por policiais devidamente habilitados em cursos na Academia de Polícia. Em relação às munições, todas estão em condições de uso e estão armazenadas de acordo com as orientações do fabricante. Todos os policiais possuem armamentos pessoais, além de uma reserva estratégica, afirma a nota da SSP. Sobre treinamentos de tiro da região de Campinas, garante que são realizados regularmente na Unidade de Ensino e Pesquisa (UEP 2) e que os policiais interessados podem se inscrever pela intranet da instituição, que abriga também a grade dos cursos disponíveis. Só neste mês, segundo a Pasta, já foram ministrados treinamento de calibre 12 para duas turmas e que o Departamento de Polícia Judiciária São Paulo Interior 2 (Deinter 2) tem uma parceria com as outras forças de segurança para propiciar locais para prática de tiro.  

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