Sem trabalho, trupe do Circo Portugal está acampada em Sumaré à espera da volta dos aplausos

A acrobata Valéria Farfan ensina à filha Melissa os fundamentos da arte circense: amor pelo ofício é transmitido de geração para geração (Ricardo Lima/ Correio Popular)
Hoje é celebrado o Dia do Circo, mas devido à pandemia causada pela covid-19 há poucos motivos para comemoração. Ainda assim, a arte circense segue em busca da emoção perdida com o cancelamento dos espetáculos. Desde março do ano passado, os artistas anseiam pelo momento do retorno triunfal, para que possam sentir novamente o encanto sob a lona e ouvir o som das gargalhadas no picadeiro. O mundo da alegria teve que dar lugar a uma nova rotina instável e até então desconhecida pelos profissionais do riso.
Nenhum profissional do circo tem mais saudade dos aplausos da plateia que a trupe que compõe o Circo Portugal Internacional. Quando a quarentena teve início, a companhia cumpria temporada em Sumaré, cidade vizinha a Campinas. Por causa da proibição dos espetáculos, os artistas ficaram não somente sem trabalho, mas também sem a alegria de proporcionar alegria aos espectadores. Desde março de 2020, eles estão "acampados" no mesmo lugar onde se apresentavam. A diferença é que a lona foi recolhida e o palhaço abandonou as peripécias.
O Circo Portugal Internacional é um representante legítimo da arte circense, especialmente no aspecto da resistência. Sua história remonta ao século XIX. O diretor da companhia, Michael Anderson Portugal, 28 anos, é a quinta geração de uma família circense. Ele conta que a tradição começou em 1890 com Afonso Portugal, no país de mesmo nome. Em 1900, Afonso veio para o Brasil em busca de um mundo novo, devido à crise que assolava a Europa. A chegada trouxe muitos encantos e a formação de uma nova trupe, que segue até hoje com representantes da família. "A primeira cidade em que o circo se apresentou foi São Vicente, em São Paulo. Desde então, todas as regiões brasileiras puderam conhecer a nossa arte. Formamos um circo itinerante guiado pelo riso", lembrou Portugal.
Em março de 2020, o ponto de parada foi em Sumaré, de onde a maioria não pode mais sair. "Nós fomos obrigados a ficar. Não tínhamos para onde ir. É a primeira vez que permanecemos mais de dois meses em um lugar. Mas fomos acolhidos pela cidade. Muitas pessoas nos ajudaram com doações para que pudéssemos continuar lutando de alguma forma", explicou o diretor.
O Circo Portugal Internacional é formado por 110 pessoas, entre artistas e funcionários operacionais. Apenas 30% da equipe é formada por artistas. A metade dos profissionais deixou o grupo e voltou para casa de suas famílias, para aguardar até que a situação melhore. Assim que for possível, eles retornarão e reassumirão suas funções. "Os que ficaram estão trabalhando em novas áreas, que nada remetem à alegria do circo. O artista se move com o público, vibra com a energia que a plateia emana. Sem essa troca é difícil lidar com os problemas. Trabalhar em outras áreas e não conseguir sentir essa emoção é muito triste", afirmou Portugal.
Quando estava em atividade, o circo tinha uma média de nove espetáculos por semana, cada um com duas horas de duração e com pelo menos 1.000 pessoas na plateia. Hoje, todos os figurinos, maquiagem e estrutura da trupe estão guardados em 42 contêineres. As 40 pessoas que permanecem em Sumaré estão morando em trailers. A acrobata Valéria Aparecida Farfan lembrou do Dia do Circo com lágrimas nos olhos, devido à saudade de uma realidade distante, que faz falta. "Essa é a segunda vez que não podemos comemorar sorrindo, como sempre fizemos. Ano passado quando senti isso pela primeira vez, não esperava que em 2021 tudo fosse se repetir", lamentou Valéria.
A acrobata nasceu no circo, e hoje passa os seus ensinamentos para as duas filhas. "A nossa vida era simples, mas à noite tínhamos o glamour. Quando a gente recebia o retorno do público, tudo ficava melhor. O mundo era mais colorido", recordou. Mesmo sem as apresentações semanais, a artista continua com os treinos diários. "Eu adaptei um cano e um cabo de aço para conseguir treinar fora da lona. Preciso manter os exercícios para não perder a disposição em meio a esse caos", acrescentou.
Valéria reforça que a saudade da arte é o que fica. "Penso se ainda sei me maquiar. Faz tanto tempo que não vejo mais a minha melhor versão, que me esqueci de como ela era. O circo é a minha vida. Vou continuar lutando até eu não aguentar mais", garantiu a acrobata. A bailarina Lígia Ferrante da Cruz anseia pela volta ao palco, que proporcionava tanta satisfação. "Passei por esse momento com uma nova alegria, a chegada da Aylla, minha filha, que hoje tem apenas seis meses. Graças a Deus fomos acolhidos pelos moradores de Sumaré. Sem eles não teríamos resistido até aqui", agradeceu.
O ator de circo Abério Almeida é filho de um dos integrantes do Circo Teatro Irmãos Almeida, que fez história em Campinas. "O circo representava a nossa vida. Éramos uma família sob a lona. O meu pai, Walter de Almeida, me criou no palco. A nossa habilidade era representar. Isso, hoje em dia, praticamente não existe mais. O meu tataravô veio da china para o Brasil em 1890, e desembarcou no Rio de Janeiro. Ele era artista de circo antes de chegar aqui, fazia parte dos Saltimbancos. Nós viemos para Campinas quando eu tinha oito anos, em 1958", recordou.
Família Almeida marcou a história do circo no Brasil
Aos seis anos Almeida já se apresentava. A família fez muito sucesso e marcou gerações. Eram em 50 pessoas, entre irmãos, primos e tios. O circo fechou 1974, pois, segundo Almeida, faltou apoio e incentivo por parte do município. "A Prefeitura não nos ajudava, e isso acontece ainda hoje. A especulação imobiliária acabou com os espaços de apresentação. Esse cenário fez com que a gente buscasse outra forma para sobreviver. A nossa saída foi usar a estrutura do circo, como a lona e as arquibandas, para locação. Eu trabalho com isso até hoje", concluiu Almeida.
Arte circense é objeto de pesquisa na universidade
Marco A. C. Bortoleto, coordenador do grupo de pesquisa em circo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), atua junto de um grupo formado por diversos profissionais, como psicólogos e historiadores. Eles estudam a arte circense há 15 anos. De acordo com o professor, há mais de 30 escolas de circo na Região Metropolitana de Campinas. "O circo tem como sua principal característica a interação direta com o público, que também é parte ativa no espetáculo. Os estudos mostram como o picadeiro ainda reflete uma arte viva. Estimamos que atualmente tenham 500 circos no Brasil, de pequeno a médio porte. Temos mapeadas mais de 350 escolas da arte circense no país. O circo está vivo", afirmou o pesquisador.
As lonas coloridas fazem parte da história nacional há pelo menos 160 anos, segundo Bortoleto. O circo é um fenômeno consolidado no Brasil, e o país tornou-se referência na arte. "Nós exportamos artistas para o mundo inteiro. Campinas também se destaca nesse cenário. Pessoas viajam para aprender aqui um pouco mais sobre essa forma de entretenimento. Usar a linguagem circense e a interação dos artistas no palco ajuda no desenvolvimento da comunicação, por isso as escolas apostam nessa didática. Para aprender com o circo, é necessário dominar o risco e o medo. Com esses ensinamentos conseguimos propagar uma transformação social e empoderar muitos jovens", concluiu.