repercussão

Onda de boatos leva pânico às escolas

Boatos nas redes sociais sobre supostos ataques em escolas movimentaram a Polícia Militar de Americana e a Guarda Municipal de Mogi Guaçu

Alenita Ramirez
19/03/2019 às 09:05.
Atualizado em 04/04/2022 às 20:56

Boatos nas redes sociais sobre supostos ataques em escolas movimentaram a Polícia Militar de Americana e a Guarda Municipal de Mogi Guaçu na manhã de ontem. Um adolescente de 16 anos, de Americana, e um jovem de 18 anos, de Mogi Guaçu, foram detidos após postarem na internet áudio e fotos de mensagens ameaçadoras. Eles foram levados para a delegacia e liberados após prestarem depoimentos. O drama da boataria também foi vivenciado por alunos da Escola Estadual Miguel Vicente Cury, na Vila Padre Anchieta, em Campinas, na última sexta-feira. As postagens foram feitas na noite do domingo. No caso da Escola Estadual Ary Menegatto, de Americana, o menor enviou um áudio para um colega de sala, no qual questionava se o pessoal havia visto o ataque na Nova Zelândia. “Boa noite 3º C! Como vocês estão? Estão bem? Espero que estejam; Vocês ficaram sabendo do massacre que teve anteontem na Nova Zelândia? Se viram como foram (sic)? Se não viram querem saber como foi? Com todos os detalhes”. A gravação do estudante só repercutiu no WhatsApp porque a página social dele no Facebook traz uma foto em que ele está com uma arma em punho mirando para algum lugar. O jovem também colocou no status do WhatsApp imagens do massacre. Foi o bastante para dar início às conversas de que o menino sofria bullying na escola. O áudio chegou ao conhecimento da direção da escola por volta das 4h da madrugada de ontem e para evitar qualquer atitude, a diretora ligou para a Polícia Militar (PM) e fez o alerta. Ao menos três viaturas foram à escola, na Vila Belvedere, e encontraram o aluno com o pai no pátio. O pai do garoto, um motorista, já tinha sido chamado na escola. “Fomos na casa dele, mas não achamos nada de ilícito. Ele nos contou que a arma que segurava na foto era de um primo e fomos até a casa deste primo”, falou o tenente Tiago Augusto Costa Silva. A foto foi tirada no Clube de Tiro de Americana, no começo deste ano. O primo, um segurança de 26 anos, confirmou ser o dono da arma, uma pistola .40, e alegou que tinha registro e autorização do Exército, de porte de trânsito, ou seja, para levar a arma até o clube. “Ele queria conhecer o local e o levei. Também quis fazer uma foto com a arma, como que se tivesse treinando, e eu deixei. Mas a arma estava sem munições e só foi para aquele momento. Nem eu treinei no dia”, contou. “Quando vi a foto dele no status do WhatsApp, eu chamei a atenção dele e falei que se tratava de um assunto sério e grave e que ele deveria tirar a imagem”, disse. O segurança, o pai e o adolescente foram levados para a delegacia, onde prestaram depoimentos e o caso seria levado pela Polícia Civil ao conhecimento da Justiça, para ser avaliado com o Conselho Tutelar. Escola Na sala de aula onde o adolescente estuda, dos 40 alunos, apenas 15 foram à aula ontem. A falta também refletiu em outras salas de aula. Por volta das 11h, vários pais foram buscar os filhos na escola, temendo ataque. “Assim que minha ex-esposa ligou, já vim para a escola pegar meu filho. Dá muito medo. Por mim, ele não viria o restante desta semana, até que tudo seja esclarecido”, disse o motorista Adão marcos Claro, de 49 anos. O estudante L.T., de 18 anos, é da mesma sala do menor detido e disse que o conhece e sabia que era brincadeira. “Ele é muito brincalhão, extrovertido e não faria nada. Pelo menos eu fiquei tranquilo”, disse. A apreensão do adolescente ganhou repercussão nas redes sociais e repercutiu na cidade. Por volta das 10h30, segundo os pais de estudantes da Escola Estadual Clarice, no bairro Zanaga, um homem passou de carro na rua do colégio e gritou para que os alunos tomassem cuidado que haveria ataque. Os alunos entraram em pânico e ligaram para os pais. “Eu sabia que era brincadeira, mas, mesmo assim, vim ver minha neta de 13 anos, que ficou muito assustada”, disse o aposentado Davi Ítalo. Segundo o tenente Silva, para tranquilizar os alunos, a PM intensificou a ronda nas escolas e também orientou os funcionários das unidades sobre os boatos. “Pedimos para que qualquer notícia que gere pânico, nos comunique. Neste caso, nossa função foi deter os envolvidos e conduzi-los para a delegacia como prevenção. Não houve nenhum ataque”, disse. A Polícia Civil chegou a ir na casa do adolescente para fazer diligências e também apreender o computador do menos. Campinas Na última sexta-feira, alunos da Escola Estadual Miguel Vicente Cury, na Vila Padre Anchieta, em Campinas, receberam uma mensagem que dizia “Padre Anchieta, né? Massacre escolar agendado”. O áudio causou preocupação aos pais, que, mesmo diante da confirmação de que se tratava de um boato, foram na escola pegar os filhos. A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo informou, por meio de nota, que as escolas estão tendo aulas normalmente. Aluno diz que postagem foi 'apenas uma brincadeira' Em Mogi Guaçu, um rapaz de 18 anos também levou pânico à Escola Estadual Luiz Martini na manhã de ontem. Na madrugada, a Central de Comunicação da Guarda Civil recebeu uma denúncia de que um jovem havia postado em uma rede social uma foto com uma bandana e uma arma aparentando ser uma pistola com a seguinte mensagem: “Kit para a escola de amanhã”. Os guardas levantaram a informação de que no perfil da rede social constava a escola onde o jovem estudava e conseguiu o endereço da casa dele, no Jardim Centenário. Lá a polícia encontrou o jovem, que se preparava para sair. Segundo a Guarda, foi realizada uma revista no quarto dele e encontradas duas pistolas falsas. Segundo a GM, os dois simulacros de pistola foram apreendidos e o jovem alegou que foi apenas uma brincadeira. Foi elaborado um Termo Circunstanciado de Ocorrência, de Apologia ao Crime e rapaz foi liberado. Ataques podem incitar a violência Acontecimentos como o massacre em Suzano podem deixar vestígios na mente das pessoas por ao menos duas semanas, segundo a psicóloga forense Maria de Fátima Franco Santos. E podem incitar um indivíduo que tenha pré-disposição a cometer atos violentos. “Temos dois tipos de indivíduos: os que planejam e cometem e os que querem imitar e ameaçam só para criar pânico. Os que ameaçam, em geral, têm uma agressividade latente, que dá para observar no dia a dia. Esses indivíduos acabam glorificando aqueles que cometem atos violentos. Isso desperta neles o desejo em cometer algo semelhante, se utilizando do terror psicológico”, disse Maria de Fátima. “E mesmo de brincadeira, vai provocar um momento de pânico e medo nas pessoas”, acrescentou. Para a psicóloga, a pessoa que tem intuito de causar pânico já tem em seu interior esse lado sombrio, com tendência para o mal. “Ninguém age assim, matando as pessoas, ou colocando medo, se não tiver internamente condições para isso. Se o massacre em Suzano, por exemplo, não ecoasse para ele, fosse alguma coisa que caísse em um vazio, ele não disseminaria o terror”, frisou Maria de Fátima. Segundo a especialista, os jovens ou adolescentes que fazem parte de grupos fechados na internet, voltado para o terrorismo, geralmente têm histórico de violência e a vê como parte do seu universo. “Quem tem características pessoais que levem à atitude violenta se influencia. Então quando vê que a pessoa que ela se glorifica fez algo com êxito, ela vai querer fazer igual para se consagrar”, disse. Sorocaba e Ribeirão Preto também têm ocorrências A onda de boatos se espalhou pelo Estado após o ataque à escola em Suzano. Além de Campinas, Americana e Mogi Guaçu, uma unidade do Sesi de Sorocaba e uma Etec em Ribeirão Preto foram alvos de notícias falsas, ontem. Mensagens nas redes sociais sobre um possível ataque levaram a direção do Sesi a suspender as atividades de quase dois mil alunos como medida de segurança. Já em Ribeirão Preto, um estudante de 16 anos foi denunciado pelo diretor da Etec José Martimiano da Silva, após ele ter ameaçado cometer um massacre ontem. As mensagens em Sorocaba foram postadas em um perfil falso criado no Facebook. A Polícia Civil foi acionada e investiga as ameaças. O texto informa sobre o "próximo massacre", alertando que as vítimas serão "alunos do 1º e 5º ano do Sesi do Mangal" — o bairro de Sorocaba. Em nota, o Sesi informou que a suspensão das atividades foi por prevenção. Também em comunicado, a Secretaria de Segurança e Defesa Civil de Sorocaba disse que acionou os comandos das polícias para verificar a veracidade da postagem e identificar o autor. Em Ribeirão Preto, o autor da mensagem foi identificado. Um professor teve acesso às ameaças do estudante em uma rede social. O garoto postou que tinha munição e armas e que atacaria o colégio ontem. A PM foi informada e fez buscas na casa do aluno, que mora em Sertãozinho. No local, apreendeu uma caixa vazia de uma arma falsa, roupas camufladas e uma touca. À polícia, o adolescente garantiu que tudo não passava de uma brincadeira.

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