E, por mais que os aparelhos de telefone celular sejam acessório obrigatório, ainda existe quem não abre mão de um telefone público

O mecânico cuiabano Marcos Saraiva tentou, sem sucesso, usar o orelhão na Avenida Senador Saraiva, ontem, para falar com a família: quebrado (Dominique Torquato)
Muita gente nunca chegou perto. Outros usam a estrutura para se esconder da chuva. O fato é que Campinas ainda tem orelhões. E muitos. São 4.374 aparelhos, instalados em praças, prédios públicos, avenidas importantes. E, por mais que os aparelhos de telefone celular sejam acessório obrigatório, ainda existe quem não abre mão de um telefone público. Mas nem sempre é fácil encontrar um equipamento decente. Em muitos deles, nem há sinal. Há orelhões pichados, arrebentados, depredados. E a empresa responsável pelo patrimônio lamenta que não pode enfrentar tantos vândalos. A Vivo, administradora do “espólio” local, informa que existem 179,3 mil orelhões em todo o Estado. E a densidade de aparelhos em cada região é determinada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Os equipamentos em Campinas, portanto, foram distribuídos de acordo com a população de cada região. Todos os orelhões da cidade têm potenciais usuários. Mas o cidadão sai frustrado com o que encontra. O mecânico cuiabano Marcos Saraiva, por exemplo, perdeu o emprego e viajou até Campinas, na esperança de conseguir trabalho. Nesta segunda-feira, sem um tostão no bolso, ele precisava falar com alguém da família e pedir ajuda. Viu o orelhão na Avenida Senador Saraiva, ajeitou a mala pesada no calçada, e tirou o fone do gancho. À toa. O aparelho não funcionou. Desanimado, ele disse para a reportagem que estava saindo à procura de outro equipamento. Vandalismo Quem vive ou trabalha pela região central é testemunha do vandalismo. A vantagem, no caso, é que o cidadão sabe exatamente onde encontrar um equipamento funcionando. O alagoano Elenildo de Miranda, por exemplo, que deixou Maceió há seis anos, mora em Sumaré e sobrevive como guardador de veículos na movimentada Rua Sacramento, região central de Campinas. Ah, o rapaz tem celular, lógico. Mas não dispensa o orelhão ali da frente da Matriz do Carmo. “Sabe como é, falar com Alagoas no celular sai caro. Compro o cartãozinho na banca, ou faço a ligação a cobrar. O orelhão ainda é útil demais”, fala. E é mesmo. A própria Vivo sabe disso. Tanto é que a empresa possui um sistema remoto que detecta defeitos nos aparelhos instalados. Também realiza vistorias periódicas e presenciais nos orelhões. Mas todos os meses, infelizmente, um volume expressivo de cúpulas, postes e aparelhos são destruídos por desocupados. E a empresa gasta dinheiro para colocar de novo a peça em funcionamento. Denúncias Diante do quadro, sério em todas as grandes cidades brasileiras, a empresa criou uma linha especial onde o usuário pode denunciar o vandalismo e solicitar reparos. O atendimento no 103 15 funciona ininterruptamente, todos os dias da semana. A própria Anatel tem projetos para valorizar a rede de telefones públicos por todo o Brasil. As empresas que exploram a telefonia celular assumem os cuidados com as “tulipas” e estão autorizadas a adequá-las às próprias estratégias promocionais. É uma forma que a Anatel encontrou para resgatar um patrimônio que não pode ser desprezado. Uma invenção genuinamente brasileira Pouca gente sabe disso, mas o orelhão é um produto genuinamente brasileiro. Ele foi lançado em meados de 1972, nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, e logo foi “exportado” para países da América Latina, África e Ásia. Os primeiros telefones de acesso público que se tem notícia são mais antigos. Lá na década de 20, havia caixas de moedas adaptadas a um aparelho comum, instalado em estabelecimentos comerciais. Era tecnologia canadense. Mas os equipamentos ganharam as calçadas quando as cidades brotavam no sertão, e em muitos casos só se podia ouvir e ser ouvido a partir do aparelho instalado em área comum. Aí surgiram as cabines que acabavam sendo usadas para “outras finalidades” — como cenas quentes de namoro. Foi aí que apareceu o protótipo do atual orelhão, desenhado pela arquiteta Chui Ming Silveira, chefe da Companhia Telefônica Brasileira. Ela chegou à estrutura forte, leve, barata, resistente ao sol, à chuva e ao fogo. A partir da forma de um ovo, ela criou um espaço onde as pessoas podiam se acomodar, e contavam com relativa proteção acústica. O orelhão, junto com a calculadora portátil e os computadores, eram considerados as “maravilhas da modernidade” pelos almanaques da década. Já no século 21, ainda que perca espaço como ferramenta de comunicação telefônica, o orelhão quase cinquentenário segue como um ícone de design, símbolo autêntico do Brasil.