Além disso, a Administração expande pelos parques públicos um projeto que - já em fase de testes no Ecológico - prevê a redução gradativa das capivaras
A Prefeitura de Campinas está dando sequência a um conjunto de ações para conter os casos de febre maculosa na cidade. Ao mesmo tempo em que incentiva a prevenção — com campanhas educativas nas regiões infestadas pelo vetor —, os profissionais de saúde passam por capacitação periódica para a rápida identificação da doença. Além disso, a Administração expande pelos parques públicos um projeto que - já em fase de testes no Ecológico - prevê a redução gradativa das capivaras, com vasectomia nos machos. Essa ação está em fase de testes no Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim. Com as medidas, o governo municipal pretende dar uma resposta efetiva a campineiros alarmados com o número descontrolado de capivaras na cidade. O roedor, apesar de não ser o único, é o principal hospedeiro do carrapato-estrela, transmissor da bactéria que causa a doença. Endemia De acordo com Rodrigo Angerami, infectologista do Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa), a febre maculosa é endêmica na região de Campinas. Ou seja, existe e vai sempre existir. A incidência da doença (de notificação compulsória) é baixa, se comparada com a dengue, por exemplo. Mas sua letalidade é altíssima. Se não é diagnosticada a tempo, os riscos de morte são imensos. Na Administração, se aposta em ações essenciais de assistência, prevenção e controle. Primeiro, médicos e enfermeiros da rede pública passam por reciclagem periódica, para que eles possam identificar os casos e apressar o tratamento. E a capacitação não se limita aos servidores. Seminários sobre o tema já tomaram o auditório da Sociedade de Medicina de Campinas, por exemplo assim como o de hospitais particulares. As ações preventivas, afirma o infectologista, são executadas por todos os parques e glebas tomadas por vegetação, com a instalação de placas e banners. Panfletos distribuídos em áreas públicas de lazer orientam os visitantes que eles não devem permanecer nos gramados ou na mata. E que a presença do carrapato já é motivo de sobra para se buscar ajuda médica imediatamente. A terceira e mais trabalhosa etapa do plano de ações é o controle dos hospedeiros. “Nem sempre as pessoas se dão conta, mas a capivara não é o único hospedeiro. Os cavalos, por exemplo, também são. E, na mata, é absolutamente impossível executar qualquer tipo de manejo”, afirma. “O trabalho pode ser mais efetivo na cidade, com políticas de controle da população animal, envolvendo Município e Estado”. Médico defende a liberação da caça ao animal O clínico geral campineiro Antônio Jofre de Vasconcellos, de 71 anos, se tornou uma liderança muito respeitada quando começou a fazer campanha pela remoção das capivaras da Lagoa do Taquaral, onde foram registrados os primeiros casos de febre maculosa em Campinas. Ele, por sinal, mora e tem consultório no bairro há quatro décadas. Na opinião dele, o poder público não consegue controlar a população dos roedores por uma razão bem simples. A Constituição proíbe o abate de animais silvestres. E, como todos os roedores, a capivara se reproduz demais. Uma única fêmea tem oito filhotes por ano, pode ter 72 ao longo da vida. “Já é mais que tempo de revermos a legislação, e autorizarmos de novo a caça da capivara, como antes da década de 80”, fala. “A carne é saborosa, rica”, afirma. Outra justificativa, fala, é o próprio fenômeno da urbanização. “A capivara, na cidade, não sofre mais com perseguição das onças, das sucuris, das piranhas, seus predadores naturais. Ela é mais protegida na cidade do que no mato”. Ecológico tem primeiros testes de vasectomia A parceria sugerida pelo médico infectologista Rodrigo Angerami, do Departamento de Vigilância em Saúde (Devisa), dá seus primeiros passos no Ecológico. Uma pesquisa autorizada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente permitiu vasectomia nos machos. A experiência começou no Ecológico, e será expandida para o Lago do Café e Lagoa do Taquaral. Os resultados efetivos da experiência foram comprovados ao longo de onze meses. Na fase de estudos, o Departamento de Bem Estar Animal obteve autorização para analisar um grupo de estudo composto por nove animais. E a população de capivaras não mudou. A cidade começa a ganhar uma política de manejo para executar o controle populacional dos animais. Mas procedimentos só serão adotados, oficialmente, quando o método tiver o aval científico — com a publicação do material em veículos especializados — e aprovação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama). Por enquanto, a Prefeitura tenta conter os vetores com a aplicação de carrapaticidas nas capivaras e com o corte periódico do mato. Conscientização da população é essencial. Mas há quem seja negligente, circulando por áreas infestadas sem proteção e posterior inspeção do corpo.