Ulisses Junior, ator, pedagogo e produtor cultural, interpreta o personagem, comprometido com a tarefa de devolver à sociedade o que recebeu
“A arte salvou minha vida”. É com essa frase que o ator, pedagogo e produtor cultural Ulisses Junior, 39 anos, começa a contar como era sua história antes de dar vida ao palhaço Custelinha, alter ego que usa para expurgar o sofrimento de uma primeira infância marcada pelo abandono da mãe e a falta de zelo de um pai que se preocupava mais com as garrafas de bebida do que com as necessidades do filho. Júnior começou trabalhando em uma mercearia com apenas 8 anos, mas logo começou a praticar pequenos furtos e outras delitos, como clonagem de celular. Ele foi criado na casa de parentes, no Parque Itajaí. “Morei com todos os tios. Como era moleque bagunceiro, ninguém aguentava", admite. Aos 8 anos, trabalhava em uma quitanda. E nas idas a Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa) já aprontava. "O dono comprava uma caixa de tomate, mas a gente levava dez para o caminhão. Fazia essas fitas, roubava varal de roupa", relembra. O artista afirma que mesmo com todos esses problemas, era bom aluno. "Eu ia bem na escola, mas vivia faltando porque não tinha roupa, nem a camiseta que era obrigatória. Não tinha caderno, eu era muito largado pra rua. Não tinha comida. Comia melhor na quitanda", conta. Os delitos foram ficando mais sérios durante a adolescência, justamente naquela fase em que uma boa base familiar é primordial. "Me envolvi com a galera que fazia bodinho, que era clone de celular, para mandar pra dentro da cadeia", diz. Muitas mulheres de presos procuravam os serviços do adolescente para levar esses aparelhos à cadeia, escondidos nas partes íntimas com a ajuda de preservativos. Até falsificação de documentos constava entre as especialidades do adolescente. Mesmo nos momentos de lazer, a atividade ilegal não era deixada de lado. "Um dia fui com amigos em uma balada em Joaquim Egídio e, chegando lá, fizemos um arrastão nos carros estacionados. Pegamos pelo menos uns cinco tapes e escondemos no motor do carro que a gente tava", revela sem orgulho. O curso da vida Junior começou a mudar em 2000, aos 21 anos, quando estava bebendo na Praça Bento Quirino, no Centro, e viu uma manifestação artística. "Era um espetáculo de teatro. Foi a primeira vez que vi uma peça. Foi uma reviravolta. Eu percebi que era aquilo que queria fazer da minha vida", conta emocionado. O jovem conversou com os atores, que o indicaram um curso gratuito no Centro Cultural Evolução (CCE), que funcionava na Rua Regente Feijó, também no Centro, e era dirigido por Jonas Rocha Lemos. "Cheguei lá e conheci o professor de teatro Marcos Brytto, mas nunca tinha lido um livro", explica. O aprendiz de palhaço foi ingressando no meio teatral e conheceu a atriz, pedagoga e contadora de histórias, Suzana Montauriol. Ela começou a arrumar pequenos trabalhos para ele. Em 2003, ele já atuava como contador de histórias no Solar das Andorinhas, recebia um cachê de R$ 25 e por isso ainda não conseguia parar com "fitas erradas." Nesse meio tempo, continuava estudando teatro, que era pago com os pequenos cachês e com o dinheiro arrecadado da atividade paralela. "Me apaixonei pela linguagem do teatro de rua e o palhaço, pela coisa da comicidade, do corpo, que eu já tinha isso na malandragem", comenta. Ele também fez cursos no Lume e no Barracão Teatro. Nessa época, decidiu sair da casa dos parentes e ir morar sozinho. "Eu sentia que precisava abandonar tudo o que eu tinha, todos esses contatos senão não ia conseguir sair (da vida paralela). Comecei a entender que aquele bodinho que eu fazia tava acabando com a vida daquele senhorzinho que teve o celular clonado. O teatro me trouxe ética. Foi aí que fui entender ética. Deu um boom na vida", explica. Mesmo com a insistência dos antigos amigos, ele se manteve firme na decisão. Apagou toda a agenda do celular e cortou o contato com todos daquele mundo. Mas a decisão não foi fácil. "Comecei a passar fome. Morava sozinho num quartinho no Jardim Garcia, pagava aluguel, não queria mais fazer fita errada e aí parei, abandonei de vez. Mas no teatro não ganhava dinheiro, ganhava R$30, R$50, R$25", relembra. Mudanças Junior passou por momentos que ele classifica como "fortes". Ele começou a trabalhar com a Suzana Montauriol e receber a confiança dela. "Ela me levava para a casa dela num condomínio em Valinhos. Eu era um moleque que não valia nada. Mas me levava, me dava materiais, apresentou livros, conteúdo. Me deixava sozinho na casa dela e eu pensava ‘que louca, não mereço essa confiança’. Mas ela falava: ‘você merece’", diz. Marcos Brytto é outro que teve grande importância nessa fase. "Me levava para assistir teatro, discutir o teatro, relação humana, coisas da vida que eu nunca tinha visto. Me apresentaram filosofia. Me deram possibilidades. Ninguém nunca me mandou parar aquilo que eu tava fazendo (coisas erradas). Nem os amigos, e nem a família nunca ligaram", argumenta. “Sou extremamente grato aos dois. Por isso eu digo que a arte salvou minha vida”. Família Por conta dessa nova vivência, o artista resolveu procurar a família. "Queria estruturar minha família, provocar isso neles. Nas primeiras vezes peguei minha mãe, levei para tomar chope e falei para ela tudo o que fez de errado e o que deveria ter feito, e ela chorava. Hoje, eu não faria isso, mas foi um desabafo. Eu dizia: você devia ter me falado, me orientado, não ter me deixado sair da escola, que são coisas que deveria aprender em casa. E aí voltei a me aproximar da minha família. E hoje temos uma relação ótima", afirma. Obras sociais O palhaço vê no trabalho social uma forma de devolver à sociedade um pouco do que recebeu. "Vi as pessoas investindo em mim em troca de nada. Como pagar isso? Fui fazer pedagogia, trabalhar na periferia. Acho que devo muito ainda", revela. Como palhaço, começou a fazer intervenções artísticas na Fundação Casa. "Toda vez que eu estou lá penso que poderia ser um deles. Eu poderia ter ido parar lá. Não fui por sorte. Apanhei muito de polícia. Dói aquele cassetete. Apanhava só porque tava na rua. Tive muito problema com a polícia. Uma coisa leva à outra", admite. Ele também começou a contar histórias em escolas públicas a partir de um material chamado "Criança Levada a Sério", idealizado por Suzana. Junior ainda escreveu o livro "A Lenda do Boi Falô", — famosa em Campinas —, que usa para contar histórias nos colégios. “A arte salvou minha vida. Casei e tenho dois filhos, um tem 8 anos e faz teatro comigo e a menina tem um ano. Estou muito feliz”, finaliza.