Coronel Leonardo Akira Takahashi iniciou sua trajetória na Polícia Militar há 33 anos

“Em casa, nós somos em quatro irmãos e fui o primeiro a seguir a carreira militar” (Alessandro Torres)
Há quase um ano à frente do CPI-2 (Comando de Policiamento do Interior-2) da Polícia Militar, com oito batalhões, que atuam em 38 cidades, o coronel Leonardo Akira Takahashi trouxe para a região sua experiência de 33 anos como policial militar, em cargos de destaque como o comando das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar, a ROTA.
Tendo iniciado sua trajetória na PM na década de 1990 em bairros da Zona Sul de São Paulo, o coronel Takahashi pôde acompanhar de perto o surgimento da principal organização criminosa de São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), que para ele hoje se distingue pelo fato de agir atualmente de forma mais empresarial, que se assemelha à atuação de uma “máfia”.
Em entrevista exclusiva concedida ao Correio Popular, a convite do presidente-executivo, Ítalo Hamilton Barioni, o comandante do CPI-2 afirmou ainda que sua maior surpresa e um dos grandes desafios que a corporação enfrenta hoje na região é o elevado índice de feminicídios e casos de violência contra as mulheres. “Eu me surpreendi muito neste ano com a quantidade de crimes que envolvem a violência doméstica. Nós apresentamos quase 15 ocorrências deste tipo por dia nas delegacias”, destacou Takahashi.
A gente sempre inicia a entrevista falando um pouco da trajetória de vida do entrevistado. Gostaríamos de saber como surgiu o interesse pela carreira na Polícia Militar?
O meu pai é imigrante japonês. Quando chegou ao Brasil foi para Suzano, na Grande São Paulo, junto da minha mãe que é descendente de japoneses e professora de Inglês aposentada do Estado. Em casa, nós somos em quatro irmãos e fui o primeiro a seguir a carreira militar, inicialmente com o desejo de integrar o Exército. Porém, na época, o governo Collor tinha cortado as verbas e a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) tornou-se o terceiro colegial, o que aumentou a concorrência. Em 1994, acabei conhecendo a Academia da Polícia Militar do Barro Branco e ingressei na segunda tentativa. Completei 33 anos de carreira e essa é uma profissão desafiadora, mas que vale pela possibilidade de ajudar a sociedade e o cidadão.
Atualmente, o senhor está à frente do Comando de Policiamento do Interior (CPI) 2. Quais são as cidades e batalhões de responsabilidade da instituição e as diferenças das áreas de cobertura?
Há um ano, eu comandava o 1º Batalhão de Choque das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) e fui promovido ao último posto da polícia como coronel. Um dia antes da publicação fiquei sabendo que ia comandar a região de Campinas. Eu não tinha conhecimento da região, mas a cidade e a área eram tidas como uma referência e a locomotiva do interior do Estado, não só no campo da pesquisa, mas de tecnologia e de ensino também. Então, foi um grande desafio. O CPI-2 está dividido em oito batalhões: o Batalhão de Ações Especiais de Polícia (1º BAEP), o 8º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPMI) que cobre Campinas e Paulínia, o 35º BPMI que é responsável por Vinhedo, Valinhos e Campinas, o 47º BPMI que conta com Campinas e Indaiatuba. Em relação às outras regiões, o 11º BPMI é responsável por Jundiaí e algumas cidades daquela região, o 49° BPMI conta com Jundiaí, Campo Limpo Paulista e Várzea Paulista, o 34º BPMI conta com Bragança Paulista e Atibaia e o 26º BPMI com Mogi Guaçu, Mogi Mirim e as regiões adjacentes. No total, são 38 cidades.
E em relação aos aglomerados urbanos de Campinas e Jundiaí e a capital, quais são as semelhanças e diferenças entre eles?
Quando vim para essa região, minha maior dificuldade era a falta de informações sobre a região de Campinas. Estamos do lado da capital e ficamos sabendo pouco sobre essa área, até pelas características das cidades em que a imprensa é regionalizada e, por isso, algumas informações não chegam à capital. Então, quando assumimos aqui, nossa ideia foi divulgar mais o trabalho da Polícia Militar e interagir com os municípios para poder mostrar o trabalho dos policiais militares. Nós temos hoje, em torno de 3,8 mil policiais militares nas 38 cidades. Eu sou encarregado de quase 900 viaturas que patrulham a Região Metropolitana de Campinas (RMC) e somos responsáveis por mais de 3,8 milhões de pessoas, 24 horas por dia.
O senhor acredita que a estrutura que vocês dispõem hoje é adequada ou tem alguma melhoria que poderia ser realizada?
No último ano, nós recebemos recursos material e humano praticamente desde o primeiro dia. Eu tenho buscado investimento não apenas do Estado (governo e Secretaria de Segurança), mas também da Polícia Militar e por meio de emendas parlamentares. Então, somando tudo, são quase R$ 34 milhões que eu trouxe em um ano. São 107 viaturas entregues para a região e mais de 225 policiais militares contratados. Realmente, essa é uma mudança positiva para a instituição. Eu falo muito para os oficiais e para a tropa: nós lidamos com a segurança pública e, por isso, não temos um partido, mas uma instituição. Temos que nos preocupar com o cidadão de bem, aquele que sai cedo ou de madrugada e vai pegar o ônibus ou trem, precisamos manter a segurança dessas pessoas. Não é fácil conseguir manter essa estrutura de 4 mil policiais militares operando todos os dias.
Ao comparar Campinas e Jundiaí com a capital, há muitas diferenças entre os crimes registrados nessas cidades?
Campinas tem destaque por causa do nível populacional e pela característica de atração econômica. Toda região onde existe uma atração econômica acaba chamando a atenção da criminalidade. Nós temos alguns tipos de criminalidades que atuam justamente nas regiões do interior e, com o meu conhecimento e vivência na capital, conseguimos na região metropolitana e em batalhões especializados, de forma bem tranquila, transformar as unidades de maneira dinâmica e desburocratizando as ações.
Em relação à sua vivência, o senhor trouxe essa experiência da ROTA para a região?
O grande problema na região de Campinas é o crime organizado que tem migrado para essa área. Historicamente, nós temos alguns integrantes de facções que atuaram aqui e, a partir dessa experiência, a gente tem trabalhado com a inteligência, Ministério Público, Polícia Federal e Polícia Civil de forma integrada. A nossa grande preocupação é a migração de integrantes de facções do Rio de Janeiro, como a milícia, Terceiro Comando Puro, Comando Vermelho. Temos algumas operações que resultaram em prisões com troca de tiros e mortes desses criminosos na nossa região.
Com essa presença das facções na região, inclusive operando exportações para a Europa e Estados Unidos, o senhor acredita que a Polícia Militar acaba se tornando uma vítima desse cenário?
A PM acaba se destacando perante a sociedade de forma geral. Utilizamos ferramentas para auxiliar o policial militar que atende pelo 190, do crime simples de ser resolvido ao mais grave, como os crimes do novo cangaço que visam o roubo de carro forte e empresas de valores com a retenção de vítima. Esses são alguns tipos de crimes presentes nesse novo cenário ao qual a Polícia Militar teve de se adaptar. Nós ainda estamos passando por uma adaptação em relação à migração do crime organizado, obedecendo também à Constituição. Mas trabalhamos de forma integrada junto à Polícia Federal, à Polícia Civil, à Polícia Investigativa e ao Ministério Público de forma que os órgãos possam interagir de acordo com a competência de cada um, em um trabalho conjunto que visa uma sociedade mais tranquila.
No início da sua trajetória, durante a década de 1990, o senhor atuava na região sul da capital paulista onde eram registrados casos de violência devido à ação de facções criminosas de São Paulo. Quais são as mudanças no modo de agir desses grupos e avanços na polícia desde então?
A grande diferença é a evolução do crime organizado do Primeiro Comando da Capital (PCC) aqui no Estado de São Paulo. Diferente da atuação do Comando Vermelho, no Rio de Janeiro, ele tem atuado de forma mais empresarial, o que pode ser considerado atualmente uma máfia. Eles conseguem controlar não só a chegada da droga de outros países para o Brasil, mas também a distribuição dos entorpecentes e sua exportação. Essa informação de que o PCC utiliza o Porto de Santos para exportar drogas para a Europa, isso é verdade. Dentro da inteligência do combate ao crime organizado, o foco é a baixada santista por esse motivo. Quando o crime organizado foca nesse tipo de exportação, ele deixa lacunas com alguns vácuos nas regiões conhecidas como “biqueiras”. Atualmente, qualquer pessoa, mesmo que ela não seja integrante do PCC, pode comprar a biqueira por R$ 1 milhão ou R$ 2 milhões e vender a sua droga de forma tranquila.
A criação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO) pela Polícia Federal aconteceu neste ano em Campinas, como a primeira cidade do interior. O senhor acredita que isso fortalece esse trabalho compartilhado?
Sim. Desde a minha chegada, nós temos operado com a Polícia Federal no combate ao crime organizado, principalmente contra a lavagem de dinheiro e corrupção. É um fator preocupante, porque o crime organizado é silencioso, não aparece e, por vezes, se faz presente dentro da nossa sociedade, no nosso ciclo de convivência. Hoje, a gente tem que ter a atenção voltada mais para esse tipo de situação, o que é preocupante. O crime evoluiu e a gente também. As polícias estão na fase de transição e a criação da FICCO, no mês passado, fortalece o trabalho integrado das polícias da região junto à Polícia Federal. De janeiro a abril, nós prendemos mais de mil procurados pela Justiça, mais de 156 armas e estamos alcançando 700 quilos de droga apreendida, além de 2,3 mil pessoas presas em flagrante. O grande problema agora é a violência contra a mulher, com os casos de feminicídio. Eu me surpreendi muito neste ano com a quantidade de crimes que envolvem a violência doméstica. Nós apresentamos quase 15 ocorrências por dia de violência doméstica nas delegacias. Nesta semana, nós tivemos um feminicídio em Campinas, algumas ocorrências de violência doméstica, quebras de medidas protetivas. O acesso aos aplicativos que a polícia e a Secretaria de Segurança têm disponibilizado para as mulheres, tem facilitado o acionamento da PM e, por consequência, na repressão desse tipo de violência que se dá por uma ação covarde, mas que tem sido muito presente na região. Até o momento, nós temos quase 4 mil ligações via 190 que relatam violência doméstica. Na região do CPI 2, de janeiro a abril, foram contabilizadas mais de 4 mil e 1,2 mil dos casos foram elaborados Boletim de Ocorrência (BO). Agora, também temos o problema do aumento dos moradores de área livre (em situação de rua) na nossa região. Isso faz com que a polícia e a Guarda Municipal (GM) trabalhem de forma mais integrada, justamente para tentar sanar esses problemas sociais.
O senhor acredita que o crescimento desse cenário dos moradores em situação de rua na Região Metropolitana de Campinas traz problemas para a polícia ou são pessoas que ficam vagando sem apresentar ações violentas?
Eu trato isso como um problema social primeiro, diante a desvinculação, dos problemas familiares e do uso de drogas pelos moradores da área livre. Nós temos que entender esse tipo de problema, mas, da mesma forma que uma porcentagem dessas pessoas acaba cometendo delitos de menor potencial ofensivo, como a invasão de domicílio e furtos, que pela legislação são considerados crimes de menor potencial e não requerem o uso de violência. Então, grande parte dessas pessoas que cometem crimes de menor potencial é presa e solta logo em seguida. Alguns indivíduos foram presos quase 35 vezes aqui na região. E a Justiça não prende devido ao que é previsto na legislação. Esse é um problema jurídico, portanto. E quem acaba pagando essa conta é o cidadão que não quer ter a sua casa invadida, o seu carro com o vidro estourado e o seu celular roubado.
O senhor ingressou na Polícia Militar em 1994 e, desde então, a instituição criou muitos programas junto à comunidade, como o PROERDE e a Vizinhança Solidária. Qual a importância desses programas?
Esses programas foram criados porque houve algum tipo de demanda ou cobrança da sociedade frente à criminalidade e, naquele momento, a polícia militar teve como adotar essas frentes. O PROERDE é o Programa Educacional de Resistência às Drogas que é referência no Brasil e na América Latina, em que policiais de outros países vêm visitar a PM de São Paulo por essa ser uma unidade que realmente se destaca nesse tipo de atividade. Nós temos também a Vizinhança Solidária, como uma forma de a Polícia Militar local manter contato com o cidadão comum no seu aplicativo de celular, no seu WhatsApp, o que gera uma interação mais rápida, além de ser uma alternativa de atendimento ao 190. Isso faz com que a Patrulha da Vizinhança Solidária atenda individualmente e de maneira mais humana o solicitante. Os Conselhos Comunitários de Segurança de cada bairro são criados pelos moradores, em que os comandantes de companhia e de batalhão reportam à sociedade para atender as suas demandas e direcionar ações relacionadas aos crimes, o que estimula a interação e a troca de informações.
E agora na sua gestão aqui no CPI-2, o senhor tem planos para ampliar a atuação desses programas na região?
A grande questão hoje é a mudança de geração. Atualmente, o aplicativo se faz mais presente do que a atuação presencial. Por isso, nós temos alguns núcleos de Consegs que estão sendo desativados, porque não há a presença efetiva da sociedade nas reuniões, pessoas essas que migraram para os aplicativos de Vizinhança Solidária. Nós estamos nesse processo de transição aqui na região. Nós temos investido em tecnologia. A Muralha Paulista, por exemplo, é um dispositivo de convênio com a Secretaria de Segurança Pública e municípios, que encaminha às cidades os dados de placas de pessoas procuradas pela Justiça, por exemplo. Da mesma forma, a sociedade colabora com a Administração municipal com a instalação de câmeras. Nós conseguimos colocar policiais militares na região do Centro de Inteligência Metropolitana de Campinas que congrega 20 cidades. Assim, os policiais militares e os guardas municipais estão monitorando e passando as ocorrências para a polícia.
A ROTA é uma força, inclusive pelas suas características, principalmente nas comunidades, mas com uma imagem pública ligada à força violenta. Como uma pessoa que esteve presente nesse cenário, à frente dessa força, qual é a sua avaliação sobre o trabalho e atuação da ROTA?
Dentro de um plano estratégico a partir da disposição do governo, da Secretaria e da Polícia Militar, a ROTA é uma das unidades do choque, uma modalidade que atua dentro de um cenário de combate ao crime organizado. A ROTA só vai atuar quando ela for chamada pelo comandante da região ou quando for designada pela Secretaria de Segurança e pelo alto comando da instituição. Quando nós vamos atuar dentro de uma região, já temos as informações da inteligência sobre o tipo de crime, o que garante uma ação mais cirúrgica e sem quebrar a rotina da unidade territorial. Numa comunidade a gente sabe que 99,99% dos que residem lá são pessoas honestas, trabalhadoras, mas, infelizmente, uma porcentagem mínima é a pedra no sapato daquele local. Porém, tentamos atuar da melhor forma possível, com o uso da inteligência, de drones e informações da sociedade.
Nós não temos em Campinas e na região o chamado Esquadrão Antibombas, que é um grupo especializado de desativação dos artefatos explosivos. Há a intenção de criar esse grupo especializado na cidade?
Essas demandas são bem estudadas junto ao Comando da Instituição e à Secretaria de Segurança Pública. Devido ao alcance da capital até a região de Campinas, muitas vezes não há necessidade de a gente implantar uma unidade especializada antibomba aqui na região. O Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) é deslocado atualmente, mas isso também leva em consideração o valor de investimento, de quanto isso vai custar para o Estado, pois são equipamentos muito caros. Fora a questão do treinamento e da preparação desses especialistas. Nós temos algumas ocorrências que envolvem esses artefatos, mas graças a Deus, dentro da nossa realidade, o GATE tem atendido da melhor forma possível.
E a relação com a Guarda Municipal (GM). Como é esse entendimento da Polícia Militar com a GM? Há mudanças nesse contato?
Desde a minha chegada, tenho me reunido com os prefeitos e secretários municipais de Segurança. Nós aumentamos a quantidade de operações integradas com as guardas e com o trânsito, por causa do problema da alcoolemia, em que o indivíduo dirige embriagado, além das operações contra os pancadões e a questão da perturbação do sossego também é muito preocupante na região de Campinas e no Estado. Nós estamos unindo forças com as guardas e polícia para aumentar essa capilaridade.
E, atualmente, quais são os maiores desafios da Polícia Militar aqui na região?
Acho que o maior desafio hoje para a PM na região é o efetivo. A Polícia Militar tem um estudo com relação à mudança da geração, que hoje é focada em um tipo de problema. Na minha época, quando eu tinha 18 anos, o meu sonho era ter um carro. Hoje em dia um garoto com 18 anos não quer um carro porque ele usa o serviço de carros de aplicativo e quer comprar um iPhone. Nós observamos também os novos policiais militares, que são jovens. A tecnologia está mais acessível do que antigamente e a Polícia Militar tem acompanhado bastante esse cenário.
Agora uma pergunta sobre futebol. Qual é a sua opinião sobre a venda de cervejas dentro dos estádios?
Para entendermos porque a situação se encontra assim hoje, em algum momento da história ocorreu algum problema. Isso acabou generalizando para todos os estádios. Aqui na nossa região quem atua nos estádios, em jogos principais com times grandes como a Ponte Preta, o Guarani, o Red Bull Bragantino e alguns times de outra cidades, o BAEP se faz mais presente e em outros casos há a presença das Forças Táticas. O que a gente vê com o olhar de policial militar é a questão da segurança de todas aquelas pessoas que estão assistindo ao jogo. Venda de bebida alcoólica dentro do estádio, será que isso é plausível? Existe uma fiscalização direta que é realizada dentro do estádio e a indireta que é no entorno. Temos um trabalho de redução, mas com o uso efetivo da Polícia Militar dentro do estádio. São questionamentos que a gente tem que discutir com a sociedade.
Recentemente, os policiais do 47º Batalhão receberam uma palestra de gerenciamento de crise dinâmica. Como foi esse trabalho?
Essa semana nós tivemos uma instrução com o Major do 4º Batalhão de Choque, de Operações Especiais, aqui na sede do CPI, com a presença dos oito batalhões, todas as forças táticas e os BAEPs, junto dos comandantes de pelotão, companhia e batalhão. O objetivo era uma instrução pós-palestra no quartel do Exército com foco em crises dinâmicas. E tivemos uma palestra que envolveu um oficial da Rota e do BAEP para falar sobre crime organizado. Quando chegamos aqui eu percebi o quanto as unidades eram muito regionalizadas. Elas não observavam que o crime não tem fronteiras, não tem divisas. Então, muitas vezes, o batalhão de Jundiaí não sabia o que Campinas estava fazendo. Mas, possivelmente, uma quadrilha que roube em Campinas vai passar por Jundiaí. Por isso, eu criei um grupo de comando e controle em que todos os oficiais, do aspirante ao tenente-coronel mais antigo, estão presentes e a gente fica sabendo de todas as ocorrências que estão sendo apresentadas na delegacia, todos os flagrantes, ações de destaque para manter informado a Central de Operações da Polícia Militar (COPOM) e as unidades especializadas, porque atualmente as crises dinâmicas são isso. Então, uma preocupação que nós temos é junto às escolas, questão que envolve alunos portando armas de fogo, facas, armas brancas.
O senhor mencionou essa questão das mudanças com as novas gerações. E na Polícia Militar, quais são os desafios da geração que tem ingressado? Vocês sentem dificuldade com a disciplina?
Sim, mas não de forma exagerada. É um problema pontual. A sociedade lida com a liberdade individual, mas dentro da estrutura da Polícia Militar nós temos uma hierarquia que demanda disciplina dentro dos nossos quartéis. De forma bem humana a gente consegue lidar com esse tipo de questão. Mas o grande problema é o acesso ao celular durante as atividades de serviço. O cara fica desatento no trabalho e isso pode comprometer a segurança individual dele e dos seus policiais. O policial que vai apresentar uma ocorrência trabalha em torno de 12 horas e, muitas vezes, pode prosseguir por mais 8 horas com o flagrante na delegacia. Ou seja, ele vai ficar em torno de 20 horas trabalhando e, às vezes, o jovem não tem essa percepção, além da falta de resiliência para suportar essa carga horária.
Pela primeira vez o comando geral da Polícia Militar está nas mãos de uma mulher, a Coronel Glauce Anselmo Cavalli. Qual é a importância dessa nomeação ser dirigida a uma profissional dessa competência?
O Governo do Estado, a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Militar, fizeram uma escolha assertiva ao designar uma mulher para comandar a maior polícia da América Latina. Nós contamos com 80 mil homens e mulheres que diariamente saem para as ruas para combater. Uma mulher acaba simbolizando tudo aquilo que a gente conversou aqui,diante à sua valorização. Que ela tenha a mesma oportunidade que um homem para que se tenha essa concorrência saudável que possa migrar para a ascensão da carreira. Então a Coronel Glauce, que é da minha turma, nos dá muito orgulho por tê-la nesse lugar.
E em relação ao uso da câmera corporal, o senhor é favorável? O que pensa a respeito?
A câmera corporal é uma discussão a respeito da real necessidade efetiva dela. A câmera corporal exige um custo do governo do estado, por isso, para cada armazenamento ela demanda milhões. E hoje o estado de São Paulo disponibiliza quase 14 mil câmeras corporais para os policiais militares que estão trabalhando nas ruas. É uma decisão que deve ser tramitada ao longo dos anos e aperfeiçoada para que realmente nós, como sociedade, tenhamos uma polícia mais eficiente, justa, melhor dentro da sua atribuição, reprimindo realmente os policiais militares que têm má conduta para que eles possam ser responsabilizados pelos seus atos. A corregedoria da Polícia Militar de São Paulo, posso afirmar, é uma das mais atuantes do Brasil. É muito mais difícil para o policial militar, que em frações de segundo vai pensar se aperta ou não o gatilho, se vai voltar para casa ou se vai morrer, do que analisar dentro de uma sala com ar-condicionado. São realidades totalmente diferentes, que cada autoridade deve observar o cenário efetivo de cada policial que está ali na ponta da linha e que, em fração de segundos, vai ter de decidir se vai tomar um tiro ou defender terceiros.
Para encerrar a entrevista, vamos para um tema mais leve. Queremos saber como são os seus momentos de lazer. O que o senhor gosta de fazer nas horas vagas?
O meu hobby é atender telefone. Eu acho que é a maior demanda hoje, para um comandante com 38 cidades, 8 batalhões, 3,8 mil policiais militares, 900 viaturas que atendem quase 460 mil ocorrências. Isso demanda muito tempo para você poder descansar. Mas no período que eu tenho, tento ficar com os meus familiares. A família é o essencial, além de ser um alívio psicológico, um descanso maior justamente para poder seguir nessa caminhada de alegria e de tristeza.
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