Legendas de esquerda em Campinas decidem criar comitê unificado e manter presença em atos
Bruna Mozer
Cecília Polycarpo
Os partidos políticos e entidades de esquerda de Campinas criaram ontem um Comitê Municipal Permanente pelo Direito de Lutar. A ideia é que cada legenda decidida internamente se irá levar bandeiras com siglas nas manifestações que ocorrem desde a semana passada na cidade, mas que todos os integrantes do comitê deem suporte à decisão dos partidos. A iniciativa foi tomada em reunião de quatro horas e meia na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do município.
Dentro de seus diretórios, os partidos discutem a participação nos protestos e definem as reivindicações que pretendem levar às ruas. Mesmo com a rejeição à presença de ativistas com bandeiras nos atos, as siglas consideradas de esquerda — PT, PSOL, PCdoB e PSTU — apoiam os protestos, mas avaliam que as demandas precisam ser unificadas com ajuda dos movimentos sociais organizados. Na passeata de hoje (leia texto abaixo), ficou decidido que o mote do protesto da esquerda campineira será novamente o transporte público. As reivindicações são variadas nas ruas: vão desde o fim da corrupção, o veto à PEC 37 — que restringe o poder de investigação do Ministério Público — até melhorias em saúde e educação e tarifa de ônibus zero.
“Criamos uma unidade para dar sustentação aos socialistas que quiserem participar dos protestos, independentemente se vão levantar bandeira ou não”, disse a vice-presidente do PCdoB, Márcia Quintanilha. Ainda segundo representantes que participaram da reunião, o comitê vai tentar identificar agressores de militantes de partidos, como já está sendo feito na Capital.
Em São Paulo, o Movimento Passe Livre (MPL), que mobilizou os primeiros atos, suspendeu os protestos na última quinta-feira. Entre os motivos, a agressão a militantes de partidos políticos durante passeatas — no sábado, o movimento voltou atrás e disse que retornaria às ruas.
Embora as siglas em Campinas mantenham apoio às manifestações, a reportagem apurou que na sexta-feira, no ato que reuniu cerca de 3 mil pessoas na cidade, houve esvaziamento de militantes.
Lideranças de outros partidos, como o PSDB, DEM e PSB — do prefeito Jonas Donizette —, afirmaram que as siglas apoiam os movimentos, mas que não realizam ações para mobilizar os filiados. O PCdoB, que está no comando da Secretaria de Transportes, setor com mais reivindicações nos protestos, incentivou oficialmente os militantes a saírem às ruas, mas discute em seu diretório a proibição dos partidos nos atos. Nas redes sociais, onde os encontros são organizados, há depoimentos e pesquisas que rejeitam a presença dos partidos com bandeiras.
“Temos várias discussões sobre serviço público, transporte, e achamos que deve haver uma reforma política. Agora, sobre não poder participar, a gente acha que isso é fascismo. Ninguém proíbe que as pessoas saiam mascaradas. Por que proibir bandeira?”, disse Márcia Quintanilha.
Em Campinas, o PSTU se reuniu neste fim de semana para discutir o assunto. A presidente do diretório municipal, Laura Leal de Castro, considera que esse é um momento importante para o País e que o partido mantém o apoio aos protestos, mas que é preciso avançar. “É possível que avancem as propostas em comum. O povo na rua tem proposta, mas precisamos organizar com a ajuda dos movimentos sociais, que têm mais experiência”, disse.
A direção do PSOL também vai ampliar as discussões sobre sua atuação nas manifestações. O partido vai continuar apoiando os protestos, mesmo com a rejeição à participação de militantes.
Para o integrante da sigla, Rafael Moya, as pessoas que saem às ruas possuem “clareza ideológica”, mas é preciso unificar. A maior bandeira do PSOL é a discussão sobre o transporte público: a legenda pede a abertura, na Câmara, de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o aumento da tarifa de ônibus nos últimos anos e a tarifa zero aos passageiros. Essa investigação tem apoio do PT no Legislativo, mas até agora base governista não permitiu que fosse instaurada.
“Estamos chamando (os manifestantes) para uma série de plenárias para discussão. Fazer faixas, cartazes e mostrar para essas pessoas que estão nas ruas, por onde a gente consegue mudar”, disse Moya. Essas reivindicações também estão sendo publicadas nas redes sociais. O PSOL quer ainda que o prefeito crie uma comissão extraordinária, com integrantes da sociedade, para avaliar o preço do transporte em Campinas.
A abertura de uma CPI também deverá ser uma das bandeiras levantadas pelo PT nos protestos que se seguirão. Uma reunião do diretório municipal está marcada para hoje e a direção estadual vai elaborar uma agenda oficial. O presidente do PT de Campinas, Ari Fernandes, afirmou que o partido apoia uma reforma política, campanha nacional encabeçada pelo PT desde março, a partir de um projeto de lei de iniciativa popular. “A luta contra a corrupção passa pela reforma política. A gente está produzindo uma pauta de transporte, apoiando a abertura de uma CPI”, disse.