DEGRADAÇÃO

Pichação apaga a história

Ação de vândalos desrespeita imóveis centenários, muitos tombados como patrimônio público

Henrique Hein
10/06/2018 às 09:41.
Atualizado em 28/04/2022 às 12:15
O belíssimo imóvel onde funciona o Eden Bar: garranchos agressivos  (Leandro Ferreira/AAN)

O belíssimo imóvel onde funciona o Eden Bar: garranchos agressivos (Leandro Ferreira/AAN)

A pichação é um problema crônico, antigo, que compromete a preservação de alguns dos mais importantes patrimônios arquitetônicos da cidade. Os garranchos indecifráveis cobrem as fachadas de edifícios centenários, por toda a região central, alguns deles tombados como patrimônio público. Não faltam exemplos: o prédio do Eden Bar, na Barão de Jaguara, o chamoso edifício onde funcionou a sede administrativa do Correio Popular, na Conceição; imóveis antigos que foram morada de ferroviários na Sales de Oliveira; prédios comerciais da Avenida Campos Salles. Caso emblemático Emblemática é situação da Estação Cultura, um dos principais cartões-postais da cidade. Lá, nada foge da ação dos marginais, que sem dó rabiscam tijolos. vidros, canos e canaletas. “Quem faz isso não tem amor por Campinas. Uma pessoa que se dispõe a destruir a história da cidade por mero prazer deveria estar preso. Infelizmente, isso não acontece porque não existe fiscalização e muito menos punição”, comentou o autônomo Carlos Ferraz, de 38 anos. Inaugurada em 1872, o local foi tombado como patrimônio histórico e cultural da cidade em 1982, servindo como estação ferroviária até 15 de março de 2001, data em que último trem de passageiros partiu, com destino a Araraquara. Com autorização da União, o espaço desde então se transformou num centro cultural, administrado pela Prefeitura. Hoje, quem passa pelo local vê de longe as mais de cem pichações, que se estendem por toda a sua fachada de entrada. A falta de fiscalização no local, segundo a população, é uma das maiores reclamações constatadas pela reportagem. Testemunhos Um dos moradores de rua disse que dorme na Praça Floriano Peixoto, na frente da estação, quase todas as noites. Ele afirmou, que, no começo do ano passado, viu dois garotos pichando os vidros do local. Menores, na certa. “Só não falei nada, porque tive medo de que eles fizessem algo comigo. Preferi não dar bola e continuar dormindo”, comentou. A camareira, Fátima Araújo, de 57 anos, lamentou a atual situação em que se encontra a Estação Cultura. “Campinas perde com isso e a população também. É triste você ver um dos monumentos mais importantes da cidade dessa forma: feio, abandonado e a mercê de pessoas, que a meu ver, não tem educação, respeito e nem vergonha na cara. Infelizmente, falta rigor e sobretudo fiscalização para esses tipos de casos”, comentou a camareira. Resposta Em nota, a Prefeitura informou que aplica penalidades previstas por meio do trabalho da Guarda Municipal (GM) de Campinas, que atua contra os pichadores. “Quando há flagrantes do crime, os suspeitos são encaminhados para o plantão policial para registro da ocorrência, considerada crime pela Lei Federal 9.605/98”, informou o documento. Segundo a Guarda Municipal, em 2018, foram 22 chamados atendidos até quinta-feira, dia 7 de junho. Deste montante, apenas dois casos foram encaminhados ao Departamento de Polícia (DP), com a detenção de quatro suspeitos – dois deles ficaram presos. Em 2017, foram 44 chamados: 11 encaminhados ao DP e 16 crimes constatados, mas sem localização dos pichadores. Os demais casos são denúncias que não se confirmaram, ou se referiam grafite autorizado. Prisão rara O único caso em que houve, de fato, uma prisão decretada esse ano, aconteceu em 15 de abril deste ano, quando quatro jovens foram detidos pela Guarda Municipal de Campinas após picharem dois estabelecimentos comerciais na rua Júlio Frank de Arruda, no bairro Botafogo. O caso chegou à GM por denúncia anônima durante a madrugada. Após averiguação, dois homens, maiores, foram autuados por dano ao patrimônio, pichação, formação de quadrilha e corrupção de menores. Ambos já tinham passagem pela polícia e acabaram presos. Os dois menores, de 17 anos, foram entregues aos pais.

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