Aos 83 anos, a economista Liana Aureliano fala sobre sua paixão por ensinar e considera que o aprendizado está na leitura

A reitora entende que a evolução de um aluno que sai da faculdade com o prazer de ler quase vale mais do que toda a graduação em si: “quem lê, aprende” (Alessandro Torres)
A reitora da Facamp, Liana Aureliano, se declara uma apaixonada pela atividade de professora, por ensinar e difundir a educação. “Ser professor é uma profissão extremamente agradável e gratificante”, conta. Ela ocupa o cargo em um momento que o centro universitário instalado em Campinas e reconhecido por sua excelência completa 25 anos. Economista, Liana é uma das fundadoras da instituição, ao lado de outros renomados profissionais de sua área: João Manuel Cardoso de Mello e Luiz Gonzaga Belluzzo.
O trio fez parte do trabalho coletivo de transformar a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em uma das mais prestigiadas e respeitadas instituições de ensino superior e de pesquisa do país. Inclusive, Liana Aureliano ajudou a criar e foi a primeira diretora do Instituto de Economia da universidade, uma das principais fontes do desenvolvimento do pensamento e da política econômica do país, saindo de seus quadros vários nomes atuantes em cargos-chave de vários governos.
Paraibana de Patos, a economista está em plena atividade aos 83 anos, falando com orgulho de ser mulher e negra. Ela concedeu entrevista a convite do presidente-executivo do Correio Popular, Ítalo Hamilton Barioni, e falou sobre o constante processo de inovação da Facamp, música e cinema, tendo no currículo atuação como crítica e apoio à direção de produção do filme “Garota de Ipanema”, com roteiro de Vinícius de Moraes, Glauber Rocha e Leon Hirszman.
A senhora é natural de onde, professora?
Eu nasci na cidade de Patos, no sertão da Paraíba, e me criei em Recife. Eu sou paraibana e pernambucana, porque nós somos muito iguais. Eu acho que o Nordeste é muito igual. Depois de me formar em Economia, saí do Brasil para fazer pós-graduação no Chile, na Escola Latino-Americana para Economistas. Quando terminei a pósgraduação, tinha duas alternativas. Uma delas foi o convite para dar aula numa universidade nova que se criava na cidade de Campinas. Eu creio que eu estou entre os primeiros professores. Eu tive essa honra de estar entre os primeiros professores da Universidade Estadual de Campinas, sob a direção do magnífico professor, fundador da universidade, o professor Zeferino Vaz. Fui dar aula no Departamento de Economia na gestão do reitor Aristodemo Pinotti, também uma figura extraordinária. Nós transformamos o Departamento de Economia em um Instituto de Economia. Então, eu fui a primeira diretora desse instituto. Ser professor é uma profissão extremamente agradável e gratificante. E é uma paixão.
Uma curiosidade é que a senhora é conterrânea de outro reitor da Unicamp, o professor Hermano Tavares.
Por uma estranha coincidência da vida, nós nascemos na mesma rua, acho que ele um ano mais velho do que eu. O meu pai era médico pediatra, o dele era médico ginecologista. Brincamos juntos na infância, nossas famílias eram amigas, os pais trabalhavam juntos. Essa cidade é hoje uma grande exportadora de fruta para a Europa.
A Unicamp completará 60 anos em 2026, o que, na linha do tempo, é quase nada. Ela foi erguida com um trabalho coletivo, evidentemente, e alcançou um sólido reconhecimento. Quais foram os principais desafios?
É uma universidade respeitabilíssima, com uma frente de pesquisa muito boa e que teve essas duas figuras como seus magníficos reitores. Quando eu cheguei aqui, o desafio primeiro era onde sentar, onde dar aula. A Unicamp desde sempre foi uma faculdade com um imenso prestígio. Tinha figuras muito notáveis, a começar, evidentemente, pelo reitor, e uma mescla de professores brasileiros e estrangeiros. O César Lattes foi uma figura extraordinária. Todo mundo sabe hoje que foi merecedor do Prêmio Nobel. O Instituto de Economia teve figuras muito boas, como o professor Carlos Lessa, que depois foi presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), e a professora Maria Conceição Tavares. O Luciano Coutinho também é meu conterrâneo, mas não de Patos, aí já seria demais. Ele é filho de uma grande figura, um médico cardiologista da Universidade Federal de Pernambuco, Dr. Amaury Coutinho. O Luciano Coutinho também foi presidente do BNDES.
A senhora fundou a Facamp junto com outros dois ex-professores de Economia da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo e João Manuel Cardoso de Mello, que também estavam na origem da universidade. Como foi isso?
Os dois vieram um pouquinho antes de mim para a Unicamp, e Belluzzo logo em seguida. Nós ficamos na Unicamp até quase sair para a Facamp. Durante muito tempo nós tínhamos um lema: A Facamp é filha da Unicamp, porque uma parte do nosso projeto pedagógico, do nosso projeto intelectual, foi feito na Unicamp. Para nossa sorte, elas são vizinhas. Facamp é uma faculdade privada, de tempo integral, que completou 25 anos neste ano, mas é extremamente respeitada. Isso é reflexo dos nossos indicadores. Em 2024, tivemos uma empregabilidade de 97%, 75% dos nossos formados estão em cargos executivos, temos mais de 850 empreendedores de sucesso e 92% de aprovação direta na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Talvez não tenha no Brasil outra faculdade que tenha essa resultado. Nós perdemos um pouco porque isso é normal. Tem gente até que se forma em Direito e nem presta o exame. A nossa coordenadora do curso é uma desembargadora aposentada, Dra. Maria Inês, que é uma pessoa fantástica intelectualmente. Como é que a gente sabe do desempenhos dos nossos estudantes? Nós temos um departamento que acompanha todos os nossos ex-alunos. Hoje, com a internet, é uma coisa fácil de fazer e sabemos sobre a ascensão profissional deles. O nosso objetivo é ensinar a pensar. Nós temos cursos obrigatórios de português e inglês. O aluno pode fazer também, mas aí não é obrigatório, espanhol ou mandarim. As ciências sociais fazem parte do ensino. Nós temos bons cursos de engenharia e estamos lançando Psicologia e Inteligência Artificial. Eu acho que essa é a maior diferença, é uma atenção personalizada ao aluno. A Facamp é acolhedora dos seus alunos.
As aulas de mandarim e o curso de Inteligência Artificial mostram que vocês vão mudando, se adaptando a uma nova realidade?
Não só a realidade econômica, mas social e também tecnológica. O mundo muda e precisamos acompanhar isso. Há um novo curso de Inteligência Artificial, mas essa tecnologia faz parte de todos os nossos programas. Qual é o nosso objetivo? É preparar os nossos alunos para esse mundo em mutação permanente. A economia chinesa já é a primeira do mundo, e você dominar o idioma já é um ganho muito grande. Nós tivemos alunos que fizeram a graduação conosco e depois foram fazer mestrado na China. Nós fazemos uma excursão anual, com uma média de 20 e tantos alunos, para a China. Eles ficam lá mais de um mês, conhecem tudo, aprendem tudo, como também fazemos para outros países. Claro, nós temos convênio com algumas dezenas de universidades. A Facamp, inclusive, fornece ao aluno a possibilidade de se formar em duas faculdades ao mesmo tempo, ter duplo diploma.
Eu queria que você falasse um pouco mais sobre a estrutura e os números. Quantos professores, quantos cursos, o centro universitário tem?
Os cursos são 11, e professores nós temos, aproximadamente, 60. Uma coisa que a gente aprendeu na Unicamp é fazer uma seleção muito criteriosa, pela titulação. Todos têm, pelo menos, um mestrado. A Facamp é no meio de um jardim. É uma coisa que ajuda, estudar dá trabalho, mas ter um ambiente acolhedor ajuda muito. Temos uma bela biblioteca, bonita, confortável, que dá para o jardim. Na Facamp, é proibido usar o computador. Isso hoje não é mais assombro. Todo mundo já sabe e concorda. Foi uma mudança que implantamos logo após a pandemia. Nós esperávamos uma reação adversa muito grande dos alunos, mas não houve. Eles entenderam. Todos os trabalhos universitários são recebidos manuscritos. Não que isso impeça um plágio, por exemplo, mas escrever à mão é uma coisa importantíssima para o desenvolvimento. Não podemos desconhecer que a tecnologia da internet é um grande avanço para a humanidade, mas como ferramenta. O seu uso causa um bloqueio das articulações neurológicas que compõem a inteligência. Países da Escandinávia que haviam adotado o ensino todo por via digital recuaram porque os alunos estavam com dificuldades para ler e escrever. Ler é fundamental, é quase uma maneira de você desenvolver o seu raciocínio. Eu tive o prazer de assistir a uma conferência do professor Cristovam Buarque, quando ele ainda era reitor da UnB (Universidade de Brasília). Ele disse um dos nossos problemas hoje é que os jovens querem saber qual é a resposta certa e não querem saber como é que se chega a ela.
Como é que se faz uma boa escola?
Uma boa escola não pode parar de crescer, mas ela não pode ser muito grande. Quando ela é muito grande, ela vai se burocratizando, vai emperrando. Um ponto que eu destacaria da Facamp é que nós fazemos uma permanente revisão dos currículos, das indicações bibliográficas. A capacidade de inovar com rapidez e prudência é o que faz uma grande escola.
Depois do reconhecimento como centro universitário, a Facamp planeja lançar cursos a curto prazo?
Eu acho que não. Nós estamos com 11 cursos, nós cumprimos toda a área de sociais. As faculdades são avaliadas pelo MEC (Ministério da Educação) e nós nunca tivemos um problema. São avaliados os desempenhos dos nossos alunos, as nossas instalações, e sempre tivemos um conceito muito bom. Para ser centro universitário, nos faltavam poucos requisitos, que foram adotados nos últimos anos. Para ser universidade, nos faltam dois requisitos que eu acho que a gente não vai cumpri-los nunca. Um é ter uma Faculdade de Medicina, que é um requisito fundamental. E por que eu respondi com tanta certeza que nós não chegaremos à universidade? Nós não temos nenhum médico na direção da Facamp. Ser um centro universitário aumenta muito nossa autonomia diante do Ministério da Educação. Então, acho que a Facamp vai crescer e vai continuar sendo uma faculdade de excelência.
Em 2018, a Facamp mudou seu processo seletivo e incluiu entrevista e avaliação do histórico escolar do candidato. Por quê?
Eu, pessoalmente, acho vestibular uma coisa meio superada. Se a gente pensar nas universidades argentinas, se você quer entrar na universidade, você se inscreve. Ao longo do primeiro ano, você vai sendo avaliado. O vestibular é um dia tenso, nervoso. Qualquer um de nós passou e sofreu por isso na vida. E pode ser num dia que as pessoas estejam especialmente mal. Eu acho que todo o ensino está sendo repensado no mundo. Eu li há pouco que a avaliação feita no Japão é feita pelas escolas a partir dos 14 anos de idade. Você vai acompanhando devagarinho o desenvolvimento do aluno. Na Facamp, a avaliação do professor é feita pelos alunos, de forma voluntária e anônima.
Quais as atividades de extensão da Facamp?
Na parte de Direito, ela faz o atendimento gratuito das pessoas e tem um Juizado Especial de Conciliação. Nós temos neste momento o início de um projeto junto à Prefeitura para apoio aos imigrantes na cidade de Campinas, feito pela Faculdade de Direito.
Qual a importância da Facamp ter uma mulher na reitoria?
A gente tem discutido já há alguns anos a importância da mulher na ciência, de ampliar essa participação, de trazer esse olhar, essa experiência da mulher. Agora, crescentemente, a mulher vai ocupando o seu lugar. Hoje, não exatamente só na direção, nós estamos formando o nosso Conselho Superior, e eu tenho a alegria de dizer que as mulheres são maioria, e com o apoio dos homens. Na verdade, um homem que pensa bem reconhece o valor da mulher. São poucos. O machismo é a coisa dominante. Há ainda o racismo, que é uma coisa inegável. Uma sociedade como a nossa, e como todas, foi marcada pelo domínio do homem e pelo racismo. Eu tenho uma história muito engraçada de quando eu cheguei na Unicamp, que mostra como isso é uma questão estrutural. Eu precisei tirar a carteira de identidade do Estado de São Paulo porque eu ia ser funcionária pública do Estado. Era uma exigência burocrática, simples, da época. O escrivão estava datilografando os meus dados e havia um balcão entre nós. Ele colocou nome, idade, local do nascimento e depois veio a raça. Quando eu vi, ele estava pondo branca. Eu disse: você está olhando para a minha cara, faça-me o favor. Ele olhou e disse: “Uma mocinha tão bem-vestida”. Ele estava me galanteando, achando que estava me fazendo uma gentileza. Eu disse: o senhor não entende que senhor está me insultando? O senhor me olha e não me vê? Faça a gentileza, ponha preta. Eu acho parda um nome horroroso. Aí ele disse: “Não, eu vou pôr parda.” Eu sei que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) me classificaria como parda, mas e eu acho preta muito mais bonito, mas não botou. Na minha carteira paulista está parda. Ele não queria me ofender, mas ofendeu. No início do século passado, meu pai foi o primeiro preto a entrar na Faculdade de Medicina do Recife. Depois, o primeiro preto a ser professor da Faculdade de Medicina do Recife. A participação das mulheres é sempre inferior à contribuição que elas dão à sociedade. Estão sempre sub-representadas.
Na mesma linha, a Unicamp adotou o sistema de cotas e outros mecanismos. Essa convivência enriquece o diálogo, traz visões Eu queria que a senhora comentasse um pouco dessa importância da diversidade.
A sua pergunta já traz a resposta. Eu vejo, às vezes, pessoas protestando contra o sistema de cotas, dizendo que o sistema beneficia uma parcela da sociedade. É claro que beneficia, mas esse é objetivo, o sistema só tem sentido se beneficiar. Eu, pessoalmente, acho que quando você adota a cota social, você já abarca todos aqueles que foram historicamente prejudicados. Hoje a Unicamp tem meninos e meninas bonitos e bonitas de todas as cores. A escravidão foi uma marca terrível para a sociedade, que traz reflexos até hoje. Nós temos que constituir uma sociedade melhor, uma sociedade mais igualitária. O Brasil é um país muito rico, mas é uma coisa incompreensível que se morra de fome num país como esse, que todos não tenham as mesmas oportunidades.
Qual o caminho para o Brasil crescer econômica e cientificamente?
A raiz está na educação, isso é o fundamental. Desde menina tive uma grande admiração por Monteiro Lobato, e ele tem uma frase, e eu não estou fazendo a citação literal, que diz precisamos enriquecer, fazer a nossa sociedade melhor. O caminho para fazer isso é fácil, é só plantar escolas. A gente não pode imaginar com tranquilidade a taxa de analfabetismo que o Brasil possui. Tira a dignidade. Tem as críticas ao Monteiro Lobato. A Tia Nastácia era preta, era empregada. Ele também não era um ET, era muito avançado, mas merece algumas críticas. Eu, pessoalmente, na minha vida como professora, ou como mulher, me sinto uma grande devedora de Monteiro Lobato. Eu tenho uma história da Facamp que eu adoro. Nessas avaliações do MEC, foi feita uma reunião só com professores, outra só com alunos e uma só com funcionários. No fim da reunião com os funcionários, um avaliador do MEC perguntou para uma senhora faxineira se ela gostava de trabalhar na Facamp. Ela disse: “É o melhor lugar que já trabalhei”. Ele perguntou se lhe pagam mais. Ela disse: “Não, não, senhor, eu aqui ganho como faxineira como em qualquer lugar, mas aqui eu sou respeitada”. A gente reforça algumas educações de casa. “Olha, passando pelo faxineiro, pelo jardineiro, dá bom dia, dá boa tarde”. Quer dizer, essa senhora, para mim, foi emblemática. Ela é respeitada, todo mundo lhe cumprimenta. Para ela, foi o suficiente. Ela estava feliz.
A senhora também tem uma ligação com o cinema?
Eu também trabalhei em jornal há anos, no Última Hora, de Recife, fazendo crítica de cinema. Eu fiz um trabalho de direção, de apoio à direção de produção de um filme carioca chamado “Garota de Ipanema”. O roteiro era do Leon Hirszman, Vinícius de Moraes, Glauber Rocha... Eu adoro cinema. Eu gosto muito de ouvir música e sou uma boa jardineira. Eu costumo dizer que sou reitora e jardineira-chefe da Facamp. Também gosto muito de ler. Um dia desses, falando para os meus alunos, disse que se depois de quatro anos na Facamp o aluno saísse tendo prazer em ler sem ser por obrigação, isso quase valeria mais do que qualquer graduação, porque quem lê, aprende.
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