ENTREVISTA

Precisamos eleger candidatos comprometidos com a região, defende Renato Mesquita

De acordo com o consultor empresarial, a região possui um amplo colégio eleitoral capaz de ampliar sua representatividade na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados

22/03/2026 às 14:09.
Atualizado em 22/03/2026 às 14:09
Segundo Renato Mesquita, a classe política precisa se atualizar e ficar mais atenta às aspirações da população, que tem demonstrado descontentamento com seus representantes nas esferas de poder (Alessandro Torres)

Segundo Renato Mesquita, a classe política precisa se atualizar e ficar mais atenta às aspirações da população, que tem demonstrado descontentamento com seus representantes nas esferas de poder (Alessandro Torres)

Ex-secretário de Planejamento e Urbanismo dos governos Jonas Donizette (PSB) e Dário Saadi (Republicanos), o consultor de empresas Renato Mesquita é um observador privilegiado da política na Região Metropolitana de Campinas. Na opinião dele, de maneira geral, as gestões municipais no âmbito da RMC têm sido positivas, embora as cidades enfrentem percalços naturais da gestão pública. Quanto às eleições deste ano, Mesquita faz um alerta que considera fundamental para o desenvolvimento dos municípios. Segundo ele, a região precisa eleger candidatos comprometidos com as demandas e necessidades locais. “Nós temos um colégio eleitoral muito grande. Poderíamos tranquilamente eleger cinco nomes para a Câmara e seis para a Assembleia Legislativa, dentro de um raciocínio distrital. O sistema precisa ser mudado, aprimorado”, analisa. 

Em visita ao Correio Popular, a convite do presidente-executivo do jornal, Ítalo Hamilton Barioni, Mesquita também falou sobre as ações da Prefeitura de Campinas para requalificar o Centro. Na opinião dele, a Prefeitura deveria constituir um grupo específico para conduzir as discussões e projetos. Além disso, sugere a atração de uma loja-âncora de departamentos para a região, o que ampliaria o movimento de pessoas e estimularia outros negócios ao redor. O consultor empresarial, que é filiado ao União Brasil e ainda estuda se disputará as eleições, revelou que assumiu recentemente a presidência da Associação Brasileira de Comunicadores e Influenciadores Digitais, entidade que nasce para prestar orientação e assistência, mas também para fiscalizar as atividades desses profissionais.

O senhor é natural de que cidade? 

Sou mineiro de Governador Valadares. Vim para São Paulo com 5 anos de idade com meus pais. Depois vim para Campinas em 1976. E aqui estou. Aqui casei, aqui formei família, tive dois filhos. Adotei Campinas como sendo a minha cidade. A minha mulher é campineira, meus filhos são campineiros, meus netos são campineiros

O senhor tem uma atuação reconhecida na área empresarial da cidade. Também ocupou funções públicas aqui em Campinas. Como o senhor vê hoje a gestão pública, de modo geral, na região metropolitana? 

Eu agradeço a Deus o sucesso que obtive na minha vida profissional. Corri atrás e obtive bom resultado. Como pessoa pública, fui secretário do governo Jonas (Jonas Donizette) por um curto período e do governo Dário (Dário Saadi) por um período mais longo, à frente da Secretaria de Planejamento e Urbanismo. Fui feliz nos dois governos. São dois profissionais da política, que a exercem de forma criteriosa. Campinas hoje tem uma administração proba, competente. A gente não vê mais escândalos de ordem política nesta cidade. A cidade tem dificuldades? Quem não tem dificuldades na gestão pública ou privada? Todos nós temos dificuldades. Mas são dificuldades que você administra ao longo do tempo. Até porque o setor público, a gente sabe, é complexo. Tanto nas exigências quanto nos compromissos. As promessas feitas pelo Dário nas campanhas foram cumpridas. A região metropolitana, de modo geral, tem tido bons governos. Jaguariúna, Indaiatuba, Valinhos e Vinhedo são exemplos. Óbvio que o carro-chefe é Campinas. Mas temos as cidades, que eu chamaria de satélites, que estão trabalhando bem. Nós estamos numa região próspera. Agora, estamos numa região que, politicamente, precisa trabalhar para não perder esse eixo. Precisamos de legislações que garantam qualidade de vida ao contribuinte e condições para que os empresários façam investimentos. Vou abrir parênteses aqui. Estive no Paraguai na semana passada. Estive analisando empresas brasileiras que estão instaladas lá. São cerca de 280 que deixaram o Brasil e se mudaram para lá. Isso ocorre porque estão recebendo algum benefício. Boa parte do lucro financeiro dessas empresas fica onde? No Paraguai, claro. O que isso indica, inclusive no âmbito regional? Indica que a nossa região precisa cuidar para atrair e manter empresas, em todos os sentidos, especialmente em termos de legislação. Agora, estamos em época de eleição. Temos que prestar muita atenção às ofertas de candidaturas, tanto no plano estadual quanto federal. São os deputados estaduais e federais que fazem as legislações, que contribuem para a estrutura dos municípios. Precisamos de candidatos imbuídos de propósito, que deixem os interesses particulares de lado em beneficio da coletividade. Hoje nós temos um excelente governo do Estado. Um dos melhores que São Paulo já teve. O governador Tarcísio de Freitas tem grande aprovação. Temos que aproveitar essa onda. Os municípios são favorecidos quando se tem um bom governo estadual. Tarcísio é um homem equilibrado e com propósito. Não é esquerda, não é direita, não é centro. É da sociedade paulista.

Sobre a questão da representatividade, há a avaliação de que a região de Campinas, pelo tamanho e importância, poderia ter maior presença tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara dos Deputados. O senhor concorda com essa análise. 

Precisamos eleger mais políticos comprometidos com a região. O nosso sistema político tem sido criticado porque permite que representantes de outras regiões conquistem votos aqui. Políticos que, muitas vezes, não têm vínculo efetivo com a região. Nós temos um colégio eleitoral muito grande. Poderíamos tranquilamente eleger cinco nomes para a Câmara e seis para a Assembleia Legislativa, dentro de um raciocínio distrital. O sistema precisa ser mudado, aprimorado.

Temos um movimento metropolitano, por assim dizer, em fase de evolução na região de Campinas. Prefeituras têm atuado em conjunto para conquistar avanços, como foi o caso da construção do Hospital Metropolitano, em fase inicial. Qual a importância dessa atuação cooperada? 

É um trabalho importante, mas faço uma observação. Muitos projetos saíram do papel graças à sensibilidade do governador Tarcísio. Ele tem usado ferramentas que trarão benefícios para a região de Campinas. Não que ele tenha preferência por Campinas. Tem preferência pelo Estado. O Dário também batalhou muito pelo hospital, assim como outros prefeitos. Tem muita gente trabalhando, mas tem um governador sensível às pautas voltadas ao bem-estar da população. O hospital é uma necessidade. O Trem Intercidades também, pois vai trazer desenvolvimento. Um governador assim merece ser apoiado e aplaudido.

Ainda estamos em um período pré-eleitoral, mas já temos nomes da região colocados para a apreciação do eleitor. Que avaliação o senhor faz desses pré-candidatos? 

Nós temos bons candidatos. Temos o Jonas Donizette e o Carlos Sampaio, que são lideranças históricas e que têm correspondido. Mas eu entendo que a política tem que ter dinâmica. Como você mesmo falou, temos poucos políticos representando a nossa região. Precisamos eleger mais representantes. Não temos um número que as cidades precisam. Precisamos de mais pessoas pensando e defendendo os interesses da região, com um olhar predominantemente social. A diversidade de ideias é muito saudável.

O senhor citou Jonas Donizette e Carlos Sampaio, que têm registrado queda de votos de uma eleição para outra. Isso indica uma sinalização de desejo de renovação? 

Existe um desgaste natural da imagem do político. Isso não significa que ele não está produzindo bem. Muitas vezes está, mas há o desgaste. A sociedade mudou e, com ela, vários conceitos. As pessoas que estão em destaque são muito mais observadas. Estão sob julgamento contínuo. Isso leva ao desgaste. Ora, nós estamos sujeitos a isso em casa com os filhos e os netos, por que seria diferente com os políticos? É algo natural nas relações interpessoais. Um exemplo nesse sentido é o [vicepresidente] Geraldo Alckmin. Ele foi governador de São Paulo mais de uma vez, mas agora tem tido um resultado pífio nas pesquisas de intenção de voto para o governo de São Paulo.

O senhor falou sobre a mudança da sociedade, o que é verdadeiro. Recentemente, o Datafolha indicou que, apesar dos escândalos recentes, os brasileiros estão mais preocupados com segurança pública que com corrupção. Como o senhor avalia esse dado? 

Os políticos precisam ficar atentos a esse tipo de recado. Há um descontentamento da população com os ocupantes dos cargos legislativos e executivos. As pesquisas demonstram isso. O político atual – e olha que tenho cabelos brancos – está ultrapassado. Eu me sinto atualizado. Procuro me manter informado, por exemplo, sobre o que pensam os jovens de hoje. Quais são os anseios deles, quais os dramas? A leitura sobre as necessidades e demandas da população está errada. Se estivesse certa, não teríamos tantos escândalos. Particularmente, minha maior preocupação é com a questão da corrupção. Ela gera violência, gera promiscuidade e desvia recursos que deveriam ir para a segurança, a saúde e a educação. Precisamos de políticos com vivência para enfrentar nossos desafios. O que e entendo por vivência? Vivência é a soma do conhecimento intelectual com a prática desse conhecimento. Isso gera experiência, que por sua vez gera vivência.

O senhor é filiado a que partido político? O senhor é candidato? 

Estou hoje no União Brasil. Não posso falar que eu sou candidato a algum cargo. Mas posso dizer que eu gosto da política. Sempre gostei, sempre atuei na política. Nunca tive aquela coisa entusiasmada, porque no Brasil nós temos um problema sério com os partidos. Partido tem dono, né? Uma coisa feia. Então, necessariamente, você precisa entrar por cima ou ser muito famoso. Eu não me encaixo em nenhum das duas situações. Então, vou começar uma caminhada na vida pública, na vida política. Não estou dizendo que eu vou ser candidato. Eu fui chamado por outros partidos, partidos de pequeno porte. Eu disse: “olha, eu preciso pensar, eu tenho que orientar isso, orientar aquilo, pautar isso ou aquilo”. Mas não é uma fotografia que eu perco de vista, não. Pelo contrário, é uma fotografia que eu gosto de ver, e eu sei que eu posso, sim. Eu vou deixar até de ser modesto. Eu tenho competência para exercer e tenho a estrutura interna emocional para exercer um cargo eletivo. E tenho a tal da vivência, que eu digo que a pessoa precisa ter. Eu falo isso sem nenhuma preocupação de crítica. Eu nasci paupérrimo. Passei por todas as camadas sociais, todas. E convivo socialmente com todas. Se você for lá no DIC 1, DIC 2, DIC 3, vai ver que eu faço um trabalho na área social, gratuitamente, que eu nem divulgo e nem quero que divulguem. Uma vez por mês eu estou lá, fazendo meu trabalho. Se você for às 7h30 da manhã em uma determinada igreja, que eu também não vou dizer qual é, vai ver que toda segunda-feira estou lá, sem falhar. Aí você pergunta, o que é isso? É crença. E não é só crença religiosa, é crença de mundo, crença de vida, crença em pessoas. Eu sei que eu sou uma pessoa preparada, uma pessoa com condições de colaborar com a sociedade, mas eu sei que é muito difícil você fazer isso no mundo político. Porém, eu faço isso de outras maneiras também. Seria muito melhor se eu pudesse fazer para a maioria. Mas, se eu não puder, vou continuar fazendo do mesmo jeito que faço hoje. Respondendo objetivamente, eu estou pensando nas probabilidades de ser candidato. Só não vou dizer sim ou não porque eu não tenho certeza, porque depende de muita coisa. 

Não posso deixar de explorar sua experiência na Secretaria de Planejamento e Urbanismo. A Prefeitura adotou algumas ações para requalificar o Centro de Campinas. O resultado não foi tão bom quanto se esperava. O senhor teria alguma sugestão de medida nesse sentido? 

Bem, a preocupação com a recuperação do Centro começou na gestão do Jonas Donizette, com a reforma da Avenida Francisco Glicério. O Dário ampliou as ações para revitalizar a região, o que tem sido importante. Fez obras e concedeu benefícios fiscais. Não é pouco. No entanto, acredito que os programas deveriam ser conduzidos por um grupo especifico, capacitado para tal. Não adianta deixar na mão do secretário A, B ou C. Secretários têm muitas outras atribuições. Um grupo específico poderia estudar a questão com mais propriedade, com mais profundidade. Analisar as deficiências, as potencialidades e as demandas de quem mora e trabalha no Centro. Eu tenho um escritório no Centro e não abro mão dele. Fica em um prédio muito bom, mas enfrentamos problemas, como pessoas dormindo na calçada ou na praça. A área da Assistência Social da cidade trabalha bem, mas tem inúmeras outras questões para cuidar. Se eu fosse prefeito por um dia, eu formaria um grupo, sem tendências políticas, com a atribuição de definir medidas que recuperem pessoas e estruturas da área central. Tudo isso, obviamente, com a anuência do prefeito. Vou dar um exemplo de iniciativa que, acredito, traria bons resultados: instalar no Centro uma loja de departamentos popular, tipo Havan. Esse tipo de loja tem um movimento imenso. Claro, é preciso garantir transporte público e estacionamento gratuito para facilitar o acesso dos consumidores. Também é preciso dar incentivo fiscal para atrair um empreendimento dessa envergadura. O movimento na região vai crescer tanto que certamente vai atrair várias lojas menores, satélites.

O senhor assumiu recentemente a presidência da Associação Brasileira de Comunicadores e Influenciadores Digitais. Nós sabemos que essas pessoas dialogam com um grande público e exercem certa ascendência sobre ele, inclusive no campo político. Qual será o papel dessa entidade? 

O foco dessa associação não é exclusivamente a questão política, é uma atuação mais geral. Hoje, a web tem grande influência na vida das pessoas. Ela tem penetração na política, nos negócios, enfim, em praticamente todas as áreas. Eu fui convidado para fazer uma análise sobre a constituição dessa entidade. Depois, me chamaram para ser presidente, e eu aceitei porque acho o propósito dela muito bom. A associação pretende regularizar a atividade do influenciador e do comunicador digital. Esse pessoal tem que ter suporte em todos os aspectos, especialmente no comportamental, para que o exercício da atividade não seja inconsequente, não seja criminosa. Além disso, a pessoa precisa formalizar, legalizar a atividade para que possa ganhar o seu dinheiro. Tem gente, por exemplo, que tem 15 mil seguidores e vende algum produto pela internet. Ele precisa estar regularizado, pagar impostos e ser orientado para não cometer uma irregularidade, um crime. Um exemplo é aquele influenciador da Paraíba que explorava vídeos com crianças. Aquilo era um absurdo. Se ele tivesse uma orientação, seja comportamental ou legal, é possível que não cometesse aquele crime, pelo qual foi condenado. A associação surge para isso, para orientar e dar suporte aos comunicadores digitais e influenciadores. Vamos promover paineis orientativos e palestras mensais para os associados. O grande influenciador, que tem milhões de seguidores, normalmente tem uma retaguarda jurídica e de outras áreas. A maioria, porém, não tem. Cito o caso daquele rapaz, conhecido como Luva de Pedreiro, que ficou famoso, amealhou milhões de seguidores e ganhou muito dinheiro. Depois, perdeu tudo porque não soube administrar a carreira. Se tivesse sido bem orientado, isso talvez não tivesse ocorrido. 

Como os influenciadores e comunicadores digitais poderão aderir à associação? 

Eles poderão fazer sua adesão pela internet, a partir de 28 de março, de qualquer lugar do Brasil. Com isso, poderão encaminhar seus questionamentos, suas dúvidas. Vamos dar uma assistência permanente nas áreas jurídica, comercial, tributária etc. Eu tenho o exemplo de uma menina que trabalha comigo. Ela ganha algum dinheiro fazendo vendas pela internet. Trabalho digno e honesto, mas ela não está regularizada. Não tem noção de como administrar essa receita extra e nem de como ampliá-la. Para pessoas como ela, vamos atuar como se fôssemos uma associação de pequenos e médios produtores de manga. Vamos fornecer informações técnicas para que eles produzam, beneficiem e vendam suas “mangas” da melhor forma possível. Aí alguém vai dizer: “ah, mas o governo deveria ter pensado nisso”. Deveria, mas não pensou. Então, estamos fazendo. 

A entidade terá uma função fiscalizatória sobre os associados? 

Vai ter uma função fiscalizatória. É algo importante para evitar que comprometam a atividade com ações irregulares ou ilegais. Temos que aprender a trabalhar no Brasil sem nos deixarmos contaminar, por exemplo, pela corrupção. Temos uma parcela de corruptos no país, mas a maioria dos brasileiros é honesta. Depois do lançamento oficial da associação, vou procurar as autoridades para discutir todas essas questões. Vale destacar que até um determinado número de seguidores, tipo 100 mil, o associado não pagará nada. Acima disso, será um valor simbólico de R$ 49, que serão destinados para custear o sistema. É quase nada diante dos benefícios que ele terá, inclusive curso de inglês básico, 

O senhor se diz viciado em trabalho. Pratica algum hobby para relaxar diante de tantas atividades? 

Meu hobby é continuar essas atividades (risos). Você vai achar engraçado, mas tem que saber. Minha mulher diz que eu estou ligado no 220 volts. E realmente estou. Eu tenho prazer em ler, em estudar, trabalhar, brincar. Brinco muito. Você nunca vai me ver de mau humor. Eu não sei o que é mau humor. Eu fumava, mas parei. Bebia razoavelmente bem, mas reduzi o consumo para bem menos agora. Eu não tenho dramas pessoais, problema de convivência ou dúvida existencial. Eu me divirto com tudo. Isso aqui que nós estamos fazendo é prazeroso, o trabalho é prazeroso. Sair daqui e cuidar de alguma coisa para alguém me faz bem. Quem me conhece melhor sabe que eu me divirto com a vida. Eu tive vários traumas no passado, mas me curei de todos eles. Um dos meus prazeres é ir para a roça às sextas-feiras à tarde. Lá na roça eu cuido de boi, galinha, porco, grama, árvore. Ou seja, vou lá para trabalhar, mas isso me faz um bem danado. Quando a noite chega, estou pregado. Aí sento à mesa, tomo meu uísque, nado na piscina e depois vou dormir. Acho que precisamos nos divertir com a vida.

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