Equipamento pode ser operado à distância e suportar temperaturas de até 1.000˚C

Além de acessar locais onde os bombeiros e os caminhões-taque não conseguem alcançar, um dos veículos tem capacidade para lançar 32 mil litros de água por minuto (Divulgação)
A Refinaria de Paulínia (Replan), a maior do país, realizou testes com robôs-bombeiros capazes de suportar temperaturas de até 1.000ºC, o que equivale a um incêndio de grandes proporções. Os equipamentos também têm capacidade de acessar locais onde caminhões-tanque não conseguem alcançar. Os protótipos foram desenvolvidos em parceria pela Petrobras e a startup Unidroid, de São José dos Campos (SP), com tecnologia totalmente nacional e com base em dois veículos já existentes, mas que foram aperfeiçoados para combater incêndios na indústria de óleo e gás. De acordo com a estatal, os robôs-bombeiros são os primeiros do mundo adaptados para proteger o setor e áreas com risco de atmosfera inflamável.
Além de combater as chamas, os equipamentos podem circular no meio do fogo e gerar imagens para auxiliar na definição de táticas para debelar as chamas. "Eles reduzem a exposição dos brigadistas, garantindo a segurança das vidas humanas", explica o diretor de Engenharia da Unidroid, o engenheiro elétrico José Carlos de Castro Júnior, que projetou os veículos.
Os robôs-bombeiros, denominados ST-EX e STW-EX, são veículos elétricos operados por rádio controle a até 600 metros de distância. O segundo é o maior deles e está equipado com um canhão capaz de lançar 32 mil litros de água por minuto. As mangueiras são acopladas na parte traseira, com o líquido sendo jogado com forte pressão. Esse robô-bombeiro tem 1,45 metro de altura, 2,1 m de comprimento, 1,21 m de largura e pesa 1,37 tonelada, sendo pouco menor do que um automóvel popular compacto. Em operação, ele mostra que robôs que aparecem em filmes de ação de ficção científica, como "O Exterminador do Futuro", estão cada vez mais próximos de se tornarem realidade.
Outros detalhes
A empresa tem em sua linha outros seis robôs-bombeiros, com configuração para atuar até em usinas nucleares que apresentem com vazamento de radiação. Também podem aspirar fumaça tóxica de ambientes confinados a fim de facilitar a visualização e o acesso dos bombeiros. Os modelos ST-EX e STW-EX são à prova de explosão e equipados com câmeras de alta definição, GPS e Wi-Fi. O STW-EX é dotado de dois motores elétricos, que entregam em conjunto 10 quilowatts de potência, o equivalente a 13,5 cavalos-vapor (cv), potência similar à de uma motocicleta de 125 cc.
A diferença está no torque, 2,7 vezes maior que o que uma picape média com motor a diesel. Essa força é transferida para as rodas que movimentam as "lagartas", o que lhe garante grande capacidade para transpor obstáculos. Os motores são alimentados por baterias de lítio-ferro-fostato, que garantem uma autonomia de até 10 horas de trabalho.
Os robôs têm chassi tubular em aço-carbono, que é de alta resistência, revestido internamente com lã de rocha de 30 milímetros de espessura para garantir o isolamento térmico. De acordo com Castro Júnior, os novos robôs-bombeiros podem trabalhar cercados pelo fogo, suportando o calor de 300ºC por até 1 hora. No caso da temperatura ser de 600ºC, o tempo é de 20 minutos, caindo para 5 minutos no caso de 1.000ºC, radiação equivalente a um sexto da temperatura no centro da Terra.
Além da Replan, os robôs-bombeiros estão em testes na Refinaria Henrique Lage (Revap), em São José dos Campos, também da Petrobras. "Fizemos diversas melhorias com a inclusão de acessórios de combate, facilidades de operação, requisitos de segurança, resistência a fogo, aumento na vazão de água e inclusão de monitoramento por câmeras térmicas, câmeras em HD colorida e óculos de realidade aumentada", afirma Laurence Pereira Siqueira, consultor de Segurança de Processo da Petrobras.
Disponíveis em 2023
Segundo a estatal, os primeiros robôs poderão estar disponíveis para operação nas refinarias já a partir do próximo ano. Os equipamentos também estão aptos a operar em área offshore (plataformas petrolíferas em alto-mar), com algumas modificações quanto ao tipo de esteira e materiais em função da salinidade.
Os robôs-bombeiros são operados a partir de um tablet colorido com tela sensível ao toque e à prova d´água. O veículo pode ser equipado com até duas câmeras de alta definição, que são resistentes ao calor e a choque. Elas oferecem uma visualização de 360 graus, permitindo ao operador ter imagens da situação de todo o entorno da área.
O rádio controle usado para controlar o robô é de 433MHz e tem 85 canais e mais de 20 mil faixas de segurança à prova de interferência. De acordo com a fabricante, o equipamento não sofre ou oferece interferência eletromagnética ao seu redor. As luzes de LED incorporadas na grade do para-choque do robô oferecem total visualização em locais de muita fumaça e ausência de iluminação.
Elas têm potência de 78.800 lumens, praticamente quatro vezes mais do que de um refletor de campo de futebol. Há ainda luzes de LEDS móveis nos canhões de água para auxiliar na visualização das câmeras mesmo em locais altos e distantes a cerca de 100 metros do robô. As luzes auxiliares são de 500 Watts, 50 vezes superior ao de uma lâmpada residencial de LED padrão.
Segundo a startup, o robô é destinado a atravessar ambientes perigosos, confinados e apertados, podendo se esgueirar por corredores estreitos e passar, inclusive, por portas domésticas. Os dois robôs desenvolvidos para a Petrobras são baseados nos modelos ST e STW, destinados a combate a incêndios em indústrias, aeroportos e prédios.
Os veículos também podem ser equipados com canhão com sistema de extintor químico seco capaz de ser operado na posição horizontal via controle remoto. Ele é capaz de lançar até 200 kg de pó químico a 30 metros de distância em apenas 45 segundos.
Os modelos ST e STW podem ter configuração mais leves, pesando entre 690 e 804 quilos, para permitir maior agilidade no combate a incêndio. De acordo com o diretor da Unidroid, os testes foram realizados entre abril e maio, mas somente foram tornadas públicas agora por causa do sigilo necessário para o aprimoramento do equipamento e depois por causa das eleições. "Construímos um robô único no mundo aprovado para a indústria de óleo e gás e esperamos que muitos negócios surjam a partir de agora", afirma Castro Júnior.
Apesar de ter sido desenvolvido para a Petrobras, os modelos poderão ser comercializados para outras indústrias e utilizados até para o combate a incêndios em áreas urbanas e florestais. Os robôs foram desenvolvidos a partir do programa Petrobras Conexões para Inovação. De acordo com a estatal, o objetivo é estreitar o relacionamento com o ecossistema de inovação, especialmente com startups e pequenas empresas de base tecnológica. O investimento direcionado às empresas contempladas com o programa visa a atender demandas mapeadas na companhia e o desenvolvimento ágil de soluções.
Castro Jr. diz que teve a ideia de projetar os robôs-bombeiros após presenciar um incêndio causado em um acidente de trânsito em São Paulo. O veículo explodiu e feriu um dos bombeiros que estavam no local, mas não houve vítima fatal. "Não sei o que ocorreu, mas eu vi que ele se feriu com a explosão. Foi aí que eu tive a ideia de criar uma máquina que pudesse fazer o trabalho perigoso", conta.
Confira o vídeo: