PRODUTOS FALSIFICADOS

Região Metropolitana de Campinas ocupa a 7.ª posição no ranking nacional de pirataria

Crescimento do mercado ilegal está ligado ao fortalecimento das facções criminosas

Edimarcio A. Monteiro/edimarcio.augusto@rac.com.br
31/05/2026 às 10:04.
Atualizado em 31/05/2026 às 10:04

Além das medicações, outros produtos falsificados, como calçados, roupas, perfumes, celulares, cartuchos de impressora, aspiradores de pó, causam prejuízo à economia formal; comerciante de produtos ilegais pode ser preso e indiciado por falsificação, contravenção de produtos, sonegação fiscal, crime contra as relações de consumo e crime de estelionato (Kamá Ribeiro)

A comercialização de produtos falsificados gerou o prejuízo recorde de R$ 53,97 bilhões em 2025 na Região Metropolitana de Campinas (RMC), que se manteve na 7.ª posição no ranking nacional de pirataria. O valor representou um aumento de 9,27% em comparação com os R$ 49,39 bilhões de 2024, maior valor anterior, e refere-se às perdas de arrecadação tributária e de faturamento das indústrias legalmente estabelecidas, de acordo com o relatório divulgado pela Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF). 

“O crescimento do mercado ilegal está ligado ao fortalecimento das facções criminosas, à evasão fiscal, à fragilidade na fiscalização de fronteiras e à falta de mecanismos de rastreabilidade”, afirmou o diretor da entidade, Rodolpho Heck Ramazzini, advogado especializado em combate à fraude. Na Grande Campinas, houve a expansão de falsificação de produtos que colocam em risco a vida dos consumidores e com grande apelo de comercialização, como canetas emagrecedoras, suplementos alimentares e bebidas, itens entre os mais pirateados. 

Nos últimos 12 meses, a Polícia Civil e órgãos de vigilância sanitária fizeram pelo menos 11 apreensões de canetas emagrecedoras contrabandeadas ou falsas em cidades da RMC. As ações envolveram desde pequenas quantidades encontradas com pessoas, clínicas e salões de beleza até grandes apreensões. Em novembro passado, os investigadores encontraram no Jardim Itatinga, em Campinas, um galpão com 200 unidades, armazenadas em um depósito escondido atrás de uma porta falsa. 

PERFIS FALSOS 

As investigações revelaram que eram comercializadas por meio de 154 perfis falsos usados para criar lojas virtuais em grandes plataformas de e-commerce. “Verificamos que todas essas contas que foram encontradas ali eram operadas em nome de pessoas que não sabiam que seus nomes estavam sendo utilizados, ou seja, frutos de falsificação e de estelionato”, explicou o delegado Elton Costa, apontando para a atuação de uma organização criminosa nas vendas. 

Além desses perfis, foram descobertas 46 empresas em nomes de terceiros, usadas para movimentar os valores obtidos ilegalmente. Além das medicações, foram encontrados outros produtos falsificados, como perfumes, celulares, cartuchos de impressora, aspiradores de pó e roupas. Um homem foi preso e indiciado por falsificação de medicamentos, contravenção de produtos, sonegação fiscal, crime contra as relações de consumo e crime de estelionato. 

PERIGOS 

A endocrinologista Andressa Veiga alerta que qualquer medicamento somente deve ser tomado com orientação e aponta os riscos para o uso de canetas emagrecedoras de origem desconhecida. O uso pode provocar pancreatite e até mesmo a morte. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 165 mortes relacionadas à utilização desse medicamento e 145 suspeitas de eventos adversos em relação a problemas no pâncreas ocorridos entre 2020 e 2025. “O que a gente entende quando a gente prescreve uma medicação é que ela precisa, antes até de ter se mostrado eficaz, ser segura”, salientou a especialista. 

Em 2024, a Polícia Federal registrou a apreensão de 609 unidades de canetas emagrecedoras falsas ou contrabandeadas, número que saltou para 60.878 no ano passado. Somente nos dois primeiros meses deste ano, o número foi de 53.303. Ou seja, apenas em janeiro e fevereiro o número foi equivalente a 87,56% de todo o ano passado. De acordo com a ABCF, os medicamentos falsificados geraram um prejuízo de R$ 16,8 bilhões em 2025. 

Os perigos para os compradores existem também no consumo de outros produtos. A Região Metropolitana de Campinas registrou dois casos de intoxicação por metanol após consumo de bebidas alcoólicas adulteradas no ano passado. Porém, no Estado de São Paulo, ocorreram 12 mortes e 54 intoxicações entre o final de 2025 e este mês, enquanto no país 22 foram a óbito entre setembro e dezembro do ano passado. 

OUTROS ITENS 

“O metanol pode provocar cegueira e problemas sérios de saúde”, alertou a endocrinologista Andressa Veiga. Em outubro, a Guarda Municipal e a Polícia Civil apreenderam, em Campinas, 14.688 garrafas de cerveja falsificadas – os rótulos e tampas de bebidas mais caras eram colocados em produtos de menor valor. Cinco pessoas, com idade entre 22 e 37 anos, foram presas no depósito localizado no bairro Cidade Singer I, das quais quatro já tinham passagem na polícia por crimes de furto, receptação e tráfico de droga. 

No mês anterior, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Americana apreendeu 4 toneladas de suplementos alimentares adulterados em uma distribuidora na cidade. Os policiais identificaram que os responsáveis usaram a internet para fazer vendas on-line, com clientes em todo o país, do Maranhão ao Rio Grande do Sul. 

Foram encontrados no local produtos como creatina e whey protein (suplemento proteico à base de soro de leite), além de centenas de frascos vazios e rótulos de diferentes marcas. O caso foi registrado como crime contra as relações de consumo e falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais. 

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