Urbanização desenfreada e emissão clandestina de resíduos industriais ameaçam a represa
O matagal tomou conta da orla. Há tanto aguapé que é impossível saber onde começa a água. Os belos quiosques no canto da praia, onde havia animados churrascos, se tornam imensos depósitos de material reciclável. E o marco de concreto com o nome da Praia dos Namorados, todo arrebentado, está rodeado de lixo. O cenário, deplorável, comprova a degradação da Represa de Salto Grande, que há 40 anos era o mais importante espaço de lazer de Americana. Mas o tempo passou. A ocupação urbana desenfreada, a emissão clandestina de esgoto e efluentes industriais condenaram o reservatório imenso, que deixou de ser apropriado para banho. E os projetos de revitalização, anunciados por prefeitos que se sucedem, nunca saem do papel.
O geógrafo Marcelo Fernando Fonseca, que acaba de defender uma tese de doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) sobre as razões da degradação, afirma que a revitalização do reservatório passa, necessariamente, pela articulação entre os municípios do entorno, para o planejamento e a execução de intervenções. Trata-se, na sua opinião, da primeira etapa de um processo maior, que precisa envolver a própria população na recuperação e na conservação do espaço.
Agressões
Ao longo de quatro anos, o pesquisador (que nasceu em Americana e mora em Santa Bárbara) percorreu a represa com as embarcações disponibilizadas por ambientalistas que, desde o ano 2000, denunciam agressões ambientais, recuperam trechos degradados e oferecem educação ambiental para crianças do Ensino Fundamental (veja matéria nesta página). No final do trabalho, Fonseca tinha em mãos uma radiografia detalhada (e alarmante) sobre a represa. Ele flagrou, por exemplo, que a cana-de-açúcar toma trechos imensos das margens, onde deveria haver mata ciliar.
Ele também constatou que o reservatório está seriamente ameaçado com a aprovação e a constituição de loteamentos residenciais de alta densidade: é certo que a expansão urbana acelerada — e descontrolada — coloca o futuro do reservatório em xeque. Quase a metade das áreas de preservação permanente (APPs) ao redor dos diferente corpos d’água no entorno estão comprometidas.
Nesta semana, a reportagem do Correio Popular também navegou pelas águas da represa em um catamarã cedido pelo Associação Barco-Escola da Natureza, e bastou meio período de um dia para que as lentes fotográficas confirmassem as denúncias do geógrafo.
Construções brotam por toda a orla, tanto nos loteamentos residenciais como as antigas chácaras de recreio ribeirinhas. Tratores rasgam o mato, e abrem ruas dos novos condomínios. No limite de Americana com Paulínia, a água da represa apresenta manchas marrons, densas, provavelmente provocadas por efluentes industriais ou agrotóxicos das roças do entorno.
É justamente naquele ponto do reservatório que a oxigenação da água é menor, como constataram as amostragens feitas pelo geólogo.
O próprio catamarã, usado nos passeios com os alunos, navega com dificuldade, tamanha a quantidade de aguapés. Para o marinheiro Márcio Adriano Claudino, que comanda o leme, o motor da embarcação perde em vida útil, destruído pelo material corrosivo que lançado nas águas. O próprio trajeto navegado das aulas ambientais precisam ser alterados, por conta de trechos assoreados.
Ruas desertas
Salto Grande nasceu em 1949, com o represamento das águas do Rio Atibaia para a instalação de uma usina. Às margens nasceram dois famosos espaços de lazer.
Tanto a Praia Azul (acesso no Km 120 da Via Anhanguera) como a Praia dos Namorados (acesso no Km 124) eram visitados até por gente de outras cidades do Interior, que chegavam em excursões. Mas elas tiveram destinos radicalmente diferentes.
A Praia Azul, por uma imposição do governo municipal, passou a ser o bairro autorizado para a instalação de motéis e boates, proibidos na região central. O resultado é que o espaço se tornou zona de prostituição. Ainda que nos novos (e superpopulosos) bairros tenham surgido na região, ainda hoje existe o baixo meretrício na orla, agora complicado com o tráfico de drogas.
A Praia dos Namorados, que continuou sendo ponto de lazer das famílias, se tornou um dos bairros mais valorizados de Americana, por conta das chácaras elegantes e dos condomínios residenciais luxuosos, que brotam sem parar.
Mas a margem propriamente dita da represa (onde os turistas se banhavam) hoje é um abandono total, e não passa um carro na rua.
Os poucos frequentadores aparecem ocasionalmente nos quiosques, ao domingos, e a bebida alcoólica passou a ser a única diversão.
Durante a semana, só andam pela calçada da praia trabalhadores simples. Uns são pedreiros e serventes nos novos condomínios da região. Outros vivem de arrecadar material reciclável. E são basicamente moradores que se mudaram recentemente para Americana, e que só ouviram falar de um tempo em que a areia era tomada por turistas.
Época dos restaurantes, dos hotéis, dos passeios de lancha, do futebol. E que talvez nunca mais volte.