Trabalhadores dispensados pela companhia mexicana esperam inutilmente há 2 meses pela rescisão
Trabalhadores demitidos das fábricas da multinacional mexicana Mabe em Campinas e Hortolândia estão há quase dois meses sem receber nenhum centavo da rescisão. A empresa entrou em recuperação judicial e os ex-funcionários não sabem quando a fabricante de eletrodomésticos irá pagar salários de abril e os outros direitos referentes às dispensas.
No início do mês passado, a empresa cortou 152 postos de trabalho do setor administrativo. Conforme as informações do processo de recuperação judicial, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas e Região, a dívida total da companhia ultrapassa os R$ 600 milhões. Apenas em direitos trabalhistas, os valores seriam superiores a R$ 56 milhões.
Na última semana, a entidade sindical fechou um acordo com a empresa determinando que os trabalhadores que forem dispensados a partir de 3 de maio - data do protocolo do pedido de recuperação - deverão receber todos os valores da rescisão.
De acordo com o sindicato, as demissões serão apenas de funcionários que mostrem interesse em deixar a empresa.
Até a semana passada, 135 trabalhadores, sendo 25 de Hortolândia e o restante de Campinas, segundo o sindicato, disseram que preferiam ser dispensados.
Inicialmente, a multinacional queria cortar mais de 400 postos de trabalho. Segundo os sindicalistas, a empresa também concordou em manter os direitos dos trabalhadores, que ela ameaçava cortar em decorrência dos problemas de caixa.
“Será mantido, por exemplo, o atual convênio médico. No caso da PLR (Participação nos Lucros e Resultados), serão pagos R$ 1.400,00 no dia 31 de julho e em dezembro voltaremos a dialogar com a empresa sobre o assunto”, afirmou o presidente do sindicato, Jair dos Santos.
Ele disse que a entidade não permitiu que houvesse nenhuma flexibilização dos direitos dos trabalhadores. De acordo com ele, os trabalhadores que foram dispensados antes do dia 3 de maio estão relacionados dentro do processo de recuperação judicial, e os valores devidos pela Mabe aos ex-funcionários foram listados no processo.
Além das demissões dos trabalhadores do setor administrativo da região, a mexicana fechou a fábrica de Itu, com a demissão de 1.300 trabalhadores. Os valores das rescisões não foram pagos até agora.
Prejuízo
Os trabalhadores demitidos reclamaram que estão sem amparo e que houve demora na homologação das rescisões. Sem o documento, eles não puderam nem mesmo sacar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviços (FGTS) ou solicitar o seguro-desemprego.
O presidente do sindicato afirmou que a falta da quitação dos direitos trabalhistas inviabilizava a homologação. “Tentamos uma liminar e ainda não havia nenhuma decisão. Em assembleia, os trabalhadores decidiram fazer a homologação com a ressalva de que não foram pagas as verbas rescisórias”, comentou.
A ex-funcionária da área de logística da Mabe, Daiane Rafaela Correa, afirmou que, de posse do documento, conseguiu sacar o FGTS. “Imagine ser demitida e ficar quase dois meses sem receber nenhum centavo. O sindicato demorou muito para fazer as homologações. E o pior é que não há nenhuma perspectiva de recebermos o que a empresa nos deve da rescisão. Tenho férias vencidas, mas não recebi nem o salário de abril”, disse.
Ela contou que desde o ano passado a multinacional vinha atrasando o pagamento de fornecedores. A situação ficou crítica em abril deste ano, quando a Mabe deixou de pagar todos os credores. “No começo de maio, a empresa fechou a fábrica de Itu e demitiu parte dos funcionários do setor administrativo de Campinas e Hortolândia. Como a demissão foi antes do pedido de recuperação judicial, o dinheiro que a Mabe nos deve foi incluído no plano de recuperação e não há data para o crédito dos recursos”, comentou. Daiane trabalhou por mais de três anos na unidade campineira.
Umoutro ex-funcionário, dispensado da unidadetrabalhadorde Hortolândia, que preferiu não se identificar,disse quesua situação é desesperadora.“Tenho dois filhos e até agora nãorecebi nada da empresa. Fiz a homologação e saquei meu Fundo de Garantia, mas esse dinheiro iria servirpara quitar o financiamento da minha casa.Agora nãosei o fazer. A Mabe simplesmente descartou os trabalhadores e com a demora na homologação darescisão, perdi uma parcela do seguro-desemprego”, lamentou. Ele atuou por quase dez anos na multinacional.