Pessoas revelam suas aflições resultantes da pandemia e isolamento social sem data para acabar
O isolamento social prolongado e sem data para acabar, decorrente da pandemia da Covid-19, traz consigo o sentimento de medo, incertezas, solidão, distanciamento da família e queda na renda. O cenário não é dos mais fáceis, já que aumentam as dúvidas sobre o futuro e, na mesma proporção, faltam respostas para o presente. É quase impossível encontrar alguém que afirme não ter sido afetado direta ou indiretamente por essa crise de saúde que se instalou no mundo. Até mesmo quem tem uma situação financeira confortável é afetado, à medida que os estabelecimentos estão fechados, não acontecem mais encontros, festividades ou turismo. Nem que seja apenas pelo sentimento geral de incerteza, todos são afetados. Renato Manjaterra, de 43 anos, professor desempregado de karatê e de comunicação, tinha apostado no setor de alimentação, e abriu o Mestre dos Espetos, na Chácara da Barra, como forma de manter seu sustento e do filho de 15 anos. Sua vida foi alterada pela pandemia. "Mudou tudo. Eu tava trabalhando vendendo espetinhos, recebia as pessoas para comer lá, vendia cerveja. Mas parou. Agora eu recebo encomenda por whats'app e a pessoa vem buscar. O faturamento caiu 75%. Minha sorte é que não pago aluguel e nem tenho funcionários", diz. Manjaterra é o atual vice-campeão brasileiro de karatê, na categoria master, acima de 40 anos, e teve a rotina de treinos alterada. "Eu treinava karatê de segunda à quinta, agora só treino on line de terça e quinta. A etapa estadual deste ano nem deve ocorrer mais", detalha. Para manter o contato e saber da mãe, a professora universitária aposentada, Renata Manjaterra, de 69 anos, ele a visita todos os dias, com os acessórios necessários. Mas mantém uma distância segura, sem toques e sem entrar na casa. Ela também se viu em um momento sem precedentes. "Lecionei na PUC-Campinas por 36 anos e me aposentei em dezembro. De repente, fiquei naquele vácuo. Comecei hidroginástica, mas parei. A pandemia interrompeu tudo o que ia planejar para minha aposentadoria", diz. A pandemia também alterou a rotina do coordenador de conteúdo digital, Eder Gonçalves, de 33 anos, tanto para o bem quanto para o mal. Antes da pandemia, durante a semana, ele acordava cedo, às vezes conseguia tomar café da manhã e ia para o trabalho, à noite voltava para casa para descansar ou fazer algum exercício ao ar livre ou mesmo sair com amigos para jogar conversa fora. Hoje em dia, completados 2 meses de distanciamento social, está tudo diferente. "Positivamente, tenho tomado café da manhã todos os dias, aproveitado melhor meu horário de almoço, além de ter estabelecido uma rotina de trabalho com horário para começar e para finalizar o expediente. Isso me abriu espaço para aproveitar com qualidade meu tempo. Por outro lado, tenho sentido uma estafa por perder uma rotina que funcionava há muitos anos. Preocupações aparecem na cabeça, medos e incertezas que me levam a encarar cada dia como um dia único. Me permito estar triste num dia e feliz no outro. E está tudo bem, é o que tenho para este momento em que não há respostas certas para muita coisa", desabafa. A pior parte da alteração da rotina é a maior distância da família. Ele acredita que todos esses sentimentos afloram pelo fato de morar sozinho e não estar presencialmente com os parentes há três meses. "Meus pais moram em Hortolândia e eu sozinho, em São Paulo. Por eles serem idosos, tomei a decisão de manter o distanciamento a fim de evitar qualquer complicação, afinal, vivo na cidade que é o centro da pandemia no Brasil. Mantemos contato por meio de mensagens e vídeos. Em meio a isso, houve um falecimento da minha avó materna por razões não relacionadas à Covid-19, no Paraná. Não pude ir ao enterro dela e passei a semana do falecimento sozinho, longe da minha mãe que tanto precisava de um abraço de acolhimento", conta. O coordenador diz que a mãe compreende, apesar da saudade que sente. "Ao final das nossas conversas, ela sempre diz com otimismo que logo isso tudo vai passar e nós poderemos estar juntos e ainda rir disso tudo no futuro. Espero que ela esteja certa", finaliza. Para muitas outras pessoas, a pandemia impacta diretamente na incerteza sobre o futuro do emprego. A comissária de voo, Lêslia Albuquerque, de 35 anos, moradora de Hortolândia, tinha a base de voos no Recife, em Pernambuco. Pelo medo de ficar indo e vindo e ser contaminada, além da dificuldade com a redução dos voos pelo impacto do coronavírus, ela pediu para voltar a ter base em Campinas. "Tenho mãe idosa e fiquei com medo de ficar viajando pra lá e pra cá, acabar pegando, não ter sintomas e transmitir para ela. Essa é a maior preocupação", diz. Além disso, a falta de atividade no País, seja comercial ou turística, influi automaticamente no seu ramo de atuação. "Cada vez mais as pessoas precisam ficar em casa, então cada vez menos voam, e aí vem o medo, o receio de coisas serem alteradas no meu emprego. Se as pessoas não voam, não precisam de comissários de voo. Pelo menos não na mesma quantidade de antes", avalia. Ela aceitou licença do trabalho, que vai até o mês de agosto e viu a renda despencar. "Ainda bem que veio a Medida Provisória do governo. É com isso que a gente vai se mantendo. Vai gerando ansiedade de ficar muito tempo em casa, sem previsão de quando isso vai terminar. Eu estou sem saber o que pensar nesse momento. Nunca imaginei passar por isso. No momento tudo é imprevisível, tanto para os empregadores quanto para nós empregados", conclui. Outros se negam a acreditar no atual momento e tratam a pandemia como uma doença qualquer. O problema é que atitudes como essa podem ter um custo caro. Exemplo disso é um casal de idosos que morreu em Indaiatuba por Covid-19 em um intervalo de apenas cinco dias, neste mês. Os dois tinham mais de 70 anos. A mulher frequentava uma igreja evangélica que se manteve aberta. Os líderes do templo são contra o uso de máscara de proteção e não acreditam na doença. O casal tinha duas filhas já casadas, que estão revoltadas com o fato de a igreja seguir funcionando. Segundo a filha caçula do casal, Cibele Batista da Silva dos Santos, de 39 anos, a mãe, a aposentada Jadilce Batista da Silva, de 77 anos, e o pai, o também aposentado Manoel Rosa da Silva, de 74 anos, não levavam a sério o uso de máscaras de proteção facial e costumavam fazer caminhadas e ir a supermercados. O casal estava sempre junto, mas somente Jadilce frequentava a igreja, três vezes por semana. A idosa era religiosa e sempre contestava as filhas, quando elas a pediam para que se cuidasse. “Ela dizia que tinha Deus, mas eu retrucava e dizia que sim, que Deus realmente guarda, mas que também temos que vigiar. Mas não adiantava. As pessoas quando envelhecem voltam a ser criança, parece que ficam sem noção do perigo”, diz. Grupo no Facebook ajuda a amenizar as angústias Nessa fase em que as pessoas estão em isolamento social, os grupos virtuais se tornaram ainda mais uma ferramenta de aproximação e fortalecimento. Pensando em ter um local para registrar essa fase da vida, a aposentada do serviço público federal Mariane Horner Schlindwein Botelho, de 60 anos, moradora de Campinas, resolveu criar em março o grupo Relatos de Tempos de Corona no Facebook. O grupo é fechado, é preciso convite para entrar e não é permitido postar links ou notícias. Apenas relatos pessoais."Eu que criei o grupo e foi num estalo. Eu estava sentada uma noite e pensei: o que a gente vai saber desse período um dia? Tem gente escrevendo diário. Mas cada um tem uma percepção. A ideia inicial era para o pessoal do meu face, que nem tinha cerca de 200 amigos. Chamei uma amiga que é jornalista e foi chegando muita gente. Quando chegou em 500 pessoas fiquei até assustada. Hoje tem mais de 700", conta.O grupo é formado por pessoas de diversas regiões do País. "O grupo se solidariza. Fiquei muito surpresa. Uma moça de Aracaju quebrou o pé, já teve uma comoção. Todo mundo apoiando, oferecendo ajuda por meio dos contatos que tem naquela cidade. Outras pessoas com problema de remédio de alto custo, muita gente se mobilizando. Mesmo que não resolva, mas apoia. Ainda mais nesse momento que muita gente fica sozinha em casa", diz Mariane.Os participantes do grupo compartilham pensamentos, aflições vividas na pandemia e a rotina. A professora universitária aposentada, Renata Manjaterra, de 69 anos, é uma das participantes e diz que gosta muito do grupo. "Entrei no grupo e gostei muito, ele ajuda, principalmente, na experiência semelhante. Dá uma sensação de que não estou sozinha no meu perrengue. Entra numa normalidade, legitima o desespero, o desânimo. Sensações que a gente pensa que é só da gente", aponta. Robson Fioranni, de 42 anos, é programador, mora no Rio de Janeiro e também faz parte do grupo. "Ele me ajuda porque além de compartilhar o que estou sentindo, vejo que não estou sozinho. Ele aproxima e me faz ver que tem gente em situação difícil e a gente tenta ajudar um ao outro. Não conheço ninguém do grupo, mas trato todos como velhos amigos. Há muita gente sozinha em casa e aí a sensação de solidão sai. Espero que depois possa conhecer essas pessoas pessoalmente. Pode virar amizade para a vida. Achei a iniciativa muito legal", conta Fioranni.