Programa funciona como uma espécie de delegacia para receber denúncias, orientar estudantes e oferecer ajuda
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) criou nesta semana um serviço interno que tem como objetivo combater os casos de violência sexual dentro da universidade. Denominado de Serviço de Atenção à Violência Sexual (SAVS), o programa funciona como uma espécie de delegacia, onde os estudantes podem fazer denúncias anônimas para que a comunidade acadêmica tenha conhecimento das agressões e tome as devidas providências. A criação do espaço ocorre após alguns levantamentos realizados por diferentes órgãos e setores da universidade identificarem a existência de algumas ocorrências frequentes na Unicamp. “A violência sexual será entendida em seu sentido amplo, ou seja, desde casos que envolvam agressão física até casos de assédio sexual, incluindo também o assédio cibernético”, explica a diretora Executiva de Direitos Humanos da Unicamp (DEDH), Néri de Barros Almeida. Entre as medidas que o programa pode tomar para acolher a vítima estão: a busca por uma melhor acomodação nos horários do curso e o apoio no encaminhamento para assistência médica e psicológica; além de um apoio na busca pela punição do agressor por meio de processos disciplinares ou judiciais legais. O serviço já está funcionando em todos os campi da universidade e conta com um espaço físico e um canal de atendimento. O contato com a ouvidoria pode ser feito pelo número (19) 3521-4063 ou pelo sistema de recepção de queixas no site: www.ouvidoria.sp.gov.br.Casos recentes Em maio de 2018, um estudante de matemática foi acusado de cometer atos obscenos no estacionamento da Unicamp. Segundo as vítimas, ele circulava com o carro dentro do campus e pedia informações as estudantes. Quando elas se aproximavam percebiam que ele estava se masturbando na frente delas. O aluno foi detido e o caso foi registrado no 7º Distrito Policial (DP), em Barão Geraldo. A Polícia Civil chegou a instaurar um inquérito, mas o caso foi arquivado. Segundo a Unicamp, a justificativa para que o aluno não respondesse pelo suposto crime ocorreu porque ele desistiu do curso com a repercussão da história e não renovou a matrícula. Em nota oficial, a universidade disse na ocasião que, como ele não fez a matrícula, “não foi possível a instauração de processo administrativo disciplinar”. Um ano antes, em março de 2017, outro caso grave de violência sexual ganhou destaque, dessa vez, no campus da Unicamp em Limeira. Uma aluna do segundo ano de engenharia de manufatura foi encontrada morta a algumas quadras da universidade. Ela havia sido esfaqueada após uma tentativa de estupro. O crime foi desvendado e terminou com a prisão do agressor.Respostas Casos que terminaram sem respostas convincentes, como o do estudante de matemática que teria se masturbado na frente de algumas alunas, deixaram alguns estudantes entrevistados pela reportagem do Correio Popular desconfiados em relação à eficácia do novo programa. A estudante do curso de ciências farmacêuticas, Caroline Ferreira Nunes, por exemplo, disse que acha importante a iniciativa, mas que gostaria de vê-la funcionando antes de dar qualquer parecer. “Acho legal, mas não adianta ter esse serviço se nada for feito em relação aos agressores. Muitos casos de violência sexual acontecem dentro da Unicamp e é preciso que esses agressores sejam, de fato, punidos. Caso contrário, seria mais uma daquelas famosas ações de fachada”, afirmou.