Riscos de especulação imobiliária e impactos sobre recursos hídricos e corredores ecológicos são motivo de preocupação

Para o presidente do Comdema de Campinas, Tiago Lira, possível venda da fazenda representa riscos ambientais relevantes para Campinas e região (Alessandro Torres)
A possível venda da área da Fazenda Remonta, conhecida como Coudelaria, tem gerado preocupação entre moradores, ambientalistas e os conselhos municipais do Meio Ambiente tanto de Campinas quanto de Valinhos. Entre as principais críticas estão os riscos de pressão imobiliária, mudanças futuras de zoneamento urbano e impactos sobre recursos hídricos e corredores ecológicos.
De acordo com o edital do Fundo Habitacional do Exército (FHE), o leilão da área de mais de 1,6 milhão de m² vai ocorrer no próximo dia primeiro de julho, considerando o valor mínimo de R$ 90 milhões. O objetivo do FHE é destinar o local para o desenvolvimento de loteamento rural. Está marcada uma reunião amanhã (27), na Casa dos Conselhos em Valinhos, entre os conselhos ambientais, Comdema de Campinas e o CMMA de Valinhos, para que uma atuação conjunta seja definida e oficializada contra a continuidade do processo de venda da Remonta.
O presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema) de Campinas, Tiago Lira, afirma que a possível venda da fazenda representa riscos ambientais relevantes para Campinas e região. Segundo ele, a área exerce papel estratégico na conectividade ecológica entre importantes fragmentos de mata e áreas de conservação, funcionando como um corredor ambiental essencial para a manutenção da biodiversidade e da qualidade ambiental do município.
Lira destaca que a região conecta áreas como a Estação Ecológica de Valinhos e a Floresta Serra d’Água, além de outras áreas com potencial para projetos de educação ambiental. Para ele, a transformação do espaço em um empreendimento urbano ou imobiliário pode aprofundar problemas já enfrentados pelas cidades da região. “Existe uma lógica de adensamento urbano que parte da ideia de que toda área rural precisa inevitavelmente se tornar área urbana, sem considerar os impactos desse modelo de ocupação”, argumenta.
Diante desse cenário, Tiago Lira afirma que o Comdema pretende se posicionar formalmente contra o leilão e articula ações junto a entidades ambientais e representantes da sociedade civil. A proposta, segundo ele, é discutir alternativas de uso para a propriedade que conciliem preservação ambiental e interesse público, como projetos voltados à agroecologia ou iniciativas sustentáveis compatíveis com a vocação ambiental da área.
IMPACTOS REGIONAIS
A ambientalista e membro do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Valinhos (CMMA), Tereza Araújo, alertou que a possível venda da fazenda representa uma preocupação que ultrapassa os limites territoriais de Valinhos e pode gerar impactos regionais. Segundo ela, a área possui uma importância estratégica por estar localizada em uma região de conexão ambiental entre municípios. “Não se trata só de Valinhos, trata-se de uma questão intermunicipal”, afirmou. Tereza destacou que os efeitos de uma mudança no uso e ocupação do solo podem atingir diretamente propriedades vizinhas e afetar a dinâmica ambiental de toda a região.
A conselheira também questionou aspectos relacionados ao processo de venda da propriedade e defendeu a necessidade de avaliações técnicas mais aprofundadas antes do avanço de qualquer projeto futuro. “Me parece que o estudo de impacto ambiental deveria anteceder a própria condição de se fazer qualquer coisa na área”, disse. Para ela, iniciativas dessa magnitude precisam ser acompanhadas de análises capazes de mensurar impactos e apontar medidas preventivas antes de qualquer transformação do território.
Ao comentar possíveis alternativas para a área, Tereza Araújo afirmou que existem soluções capazes de unir preservação e viabilidade econômica. “Hoje a gente tem soluções que podem gerar renda em um contexto da própria preservação do meio ambiente”, declarou. Segundo ela, o objetivo deve ser encontrar mecanismos que permitam manter a área protegida e preservar os serviços ecossistêmicos prestados aos dois municípios.
Procurada, a Prefeitura de Valinhos respondeu, por meio de nota, que, com relação aos estudos de impactos ambientais e sociais para eventual implantação de loteamento na área da antiga Remonta, é importante esclarecer que o Decreto Municipal nº 12.421/2025 suspendeu a Diretriz nº 31/2023, impedindo a continuidade da tramitação relacionada ao empreendimento anteriormente proposto para a área. “Dessa forma, atualmente não há diretriz urbanística válida autorizando o avanço de qualquer proposta de loteamento no terreno”.
A prefeitura ainda reforçou que a área está inserida em Macrozona de Conservação Ambiental Natural (MCAN), “condição que impõe critérios e restrições específicas quanto à ocupação e ao uso do solo, em conformidade com a legislação urbanística e ambiental vigente”. Dessa forma, não há um impedimento para a realização do certame; porém, a futura ocupação da área deverá passar por futuras câmaras técnicas.
PULMÃO VERDE
Morador há mais de vinte anos da região, Marcelo Stievano ponderou que a área possui papel estratégico para a conservação ambiental e funciona como uma espécie de “pulmão verde” entre áreas urbanizadas. Ele ressalta que “a região integra fragmentos ecológicos importantes e pode servir como corredor para a circulação da fauna. Você tem áreas verdes que precisam estar conectadas. Os animais necessitam de espaço e circulação. A Fazenda Remonta é vital nesse processo”, afirmou.
Embora a área atualmente possua a classificação de empreendimentos rurais, Stievano argumentou que experiências anteriores mostram que alterações de zoneamento podem ocorrer ao longo do tempo, impulsionadas por interesses econômicos. “Existe uma pressão imobiliária antiga na região. A discussão sobre urbanização não é nova. O problema é que muitas vezes o discurso inicial muda ao longo dos anos, alterando o que estava definido no zoneamento urbano”.
Para Stievano, a discussão sobre a Fazenda Remonta deveria ir além do aspecto econômico imediato e considerar o planejamento urbano e a preservação ambiental de longo prazo. “A função dessas áreas não é apenas ocupar espaço. São territórios que ajudam a reduzir efeitos climáticos e proteger recursos naturais. “Preservar também é planejamento”, concluiu.
Procurado, o Comando Militar do Sudeste informou que a Licitação n.º 91062/2026 está sob responsabilidade da Fundação Habitacional do Exército (FHE), com operacionalização pela POUPEX. A porção sudoeste do imóvel Coudelaria, localizado em Valinhos, foi permutada com a FHE em longo processo que se encerrou em meados de 2024. Em 2025, o Exército deu entrada, na Secretaria do Patrimônio da União/SP, em um processo de escrituração do terreno em nome do novo proprietário (FHE).
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