Na coluna de terça-feira, contei como Carlinhos assumiu o Guarani em uma situação crítica no Paulistão de 1996, com apenas 20% de aproveitamento em 15 rodadas. Seu começou foi ruim (quatro jogos sem vitória), mas, em seguida, o time embalou e venceu quatro partidas consecutivas. O duelo seguinte seria com o supertime do Palmeiras. Na concentração, o treinador contou ao presidente Beto Zini como ficou preocupado antes de um jogo importante, nos tempos em que era volante do Flamengo. Carlinhos teria que marcar Pelé num jogo contra o Santos e não conseguia nem dormir na véspera do duelo. Tenso, o treinador contou que desceu para o saguão do hotel. Seu companheiro de quarto percebeu e foi conversar com ele. Carlinhos falou então sobre o temor de passar vergonha no Maracanã, caso Pelé estivesse inspirado. O companheiro tentou transmitir confiança, dizendo a Carlinhos que ele também era um grande jogador e que tudo iria dar certo. Carlinhos se acalmou, foi dormir e fez uma boa partida no dia seguinte. Na preleção do jogo contra o Palmeiras, Carlinhos começou a falar sobre os pontos fortes do adversário, que tinha Velloso, Cafu, Júnior, Djalminha, Muller, Rivaldo e Luizão, entre outros, todos sob o comando de Vanderlei Luxemburgo. O ex-presidente bugrino notou que os jogadores estavam apreensivos com a dificuldade da partida e pediu a Carlinhos que contasse a eles a história do duelo de Carlinhos com o Rei. O treinador repetiu a história e, com sua fala mansa, contou aos atletas sobre a ansiedade que viveu antes de enfrentar o temido Santos de Pelé. E então Zini tentou aliviar a tensão que afetava os bugrinos. Disse que se deu tudo certo para Carlinhos, não havia motivo também para temer o Palmeiras, “que não tem nenhum Pelé”. Não havia comparação entre os dois times (o Palmeiras foi campeão com 49 pontos e 75 gols a mais do que o Bugre, que terminou em 12º, duas posições acima da zona de rebaixamento), mas quem venceu foi o Guarani. Um gol do centroavante Silvio no final do 1º tempo foi o único da partida. Mesmo com um homem a menos durante todo o 2º tempo, o Bugre de Carlinhos segurou o resultado e acabou com a invencibilidade de 30 jogos (a segunda maior da história do Palmeiras) de um timaço recheado de estrelas da Seleção Brasileira. A vitória foi comemorada com euforia pela torcida, que no dia seguinte ao jogo teve uma enorme decepção. Após ganhar cinco jogos seguidos, Carlinhos foi embora para o Rio de Janeiro, sem dizer adeus, a seis rodadas do final do campeonato. Com ele no comando, o Bugre conquistou 63% dos pontos disputados em nove partidas e escapou de um rebaixamento que parecia inevitável. Descanse em paz, Carlinhos.