JOSÉ ERNESTO

"Cercas sin cercas"

05/10/2013 às 00:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 00:59

Capturado pelos republicanos durante a sangrenta guerra civil espanhola (1936-39,) Rafael Sanches Mazas (1894-1966), terceiro homem e ideólogo da Falange Espanhola Tradicionalista, partido de índole fascista, escapa do fuzilamento em massa e esconde-se em um bosque, nas cercanias de Barcelona. Ele é encontrado indefeso em uma vala por um soldado inimigo. Embora com o fuzil apontado em sua direção, o soldado finge não vê-lo e ainda quando questionado grita para os seus companheiros que não há ninguém por perto. Salva sua vida. Verdade ou fantasia? Se verdade, porque um soldado inimigo faria isso?23 de fevereiro de 1981. O tenente coronel Antônio Tejero Molina (Alhurim El Grande, Málaga, 1932-) invade a Câmara dos Deputados espanhola e começa atirar a esmo sobre os representantes do povo. Franco havia falecido a 20 de Novembro de 1975 e depois de um demorado processo, que teve atuação firme e resoluta do Rei Juan Carlos, o primeiro governo democrático pós-franco tivera inicio em junho de 1977 com Adolfo Suárez (Ávila, 1932-) como Presidente. Todos os representantes do povo se esconderam debaixo de suas cadeiras com exceção do próprio Suárez e de Gutierres Mellado e Santiago Carrilo. Insanidade de um louco tentando um golpe de estado? Seriam corajosos e heróis os três políticos que permaneceram em seus lugares?Aparentemente não existe nada em comum entre estes dois fatos. Penso, no entanto, que em ambos estamos na fronteira entre a verdade e a fantasia. ”Isso realmente aconteceu dessa maneira?”. Essas versões que circulam pelos jornais não foram construídas pelos próprios personagens?Esse tema vem sendo abordado de maneira brilhante pelo jornalista e professor de literatura da Universidade de Girona, Javier Cercas (Ibahernando, Cáceres, 1962). O primeiro fato, ele investiga minuciosamente e descreve no livro “Soldados de Salamino” (2002). Cercas busca incansavelmente os personagens (ou seus descendentes) que tiveram alguma participação no fato. Misturando realidade e evidentes pinceladas de ficção procura a explicação, se verdade, porque numa guerra tão cruenta como a civil espanhola, a vida de uma pessoa tão odiada, fora preservada por um soldado inimigo. Vale a pena lembrar que Mazas tornou-se posteriormente membro importante do governo franquista. Baseado no livro foi produzido um filme homônimo. Como não raro, embora muito bom, o livro é mais interessante. O final é emocionante e surpreendente.Para desvendar o segundo episodio, o premiado escritor espanhol tem postura similar. No livro “Anatomia de um instante” (2011), ele busca os fatos até as ultimas consequências e nos deixa uma visão muito mais complexa do que a de um simples insano que tentou retomar o poder e reinstituir um regime recém-destruído. O livro retrata um lado escuro e paranoico das relações politicas. Ao terminar sua leitura fiquei com a certeza que no topo do poder é impossível aos políticos terem relações saudáveis. A traição não tem ética.Posso enumerar vários acontecimentos de nossa historia recente que merecem um Cercas, sem cercas, no caminho. O que sabemos são verdades ou fantasias? Vivemos um momento que deve ser objeto de discussões muito mais amplas do que somente as versões das partes às vezes veiculadas com alto custo pela mídia? Um bom exemplo é a discussão sobre a vinda de médicos estrangeiros, sem habilitação comprovada segundo as leis vigentes no País. Visa realmente esse ato solucionar um problema de saúde publica ou tem outras finalidades?Devemos pensar muito e como escreveu Arnaldo Jabor em sua recente crônica “2013 e o Estado–vampiro”: “o pensamento ideológico distorce a realidade para fazer caber numa certeza anterior ao fato”.Podemos aprender muito, e tenho para isso tenho acompanhado de perto as discussões que estão sendo feitas na Espanha sobre o serio problema de desemprego. O curioso é que mesmo tendo em vista tão grave situação, a independência da Catalunha ganha mais atenção nos noticiários internacionais. Não nos esqueçamos de que a Espanha viveu também uma ditadura longa e tão (ou mais) violenta que a nossa. Mario Vargas Lhosa (Premio Nobel de Literatura) e o próprio Javier Cercas (sem cercas!) se pronunciaram recentemente a respeito do tema no “El Pais” de Madrid. Cercas em crônica intitulada “Democracia y derecho a decidir” e Lhosa com uma analise mais contundente pontos abordados por Cercas. Creio que os dois documentos (disponíveis na internet) valem pena serem lidos e nos servem para analisar o que vem acontecendo em nosso País.Tenho a visão que Cercas busca a realidade sem ideologias, ou quem sabe, as suas verdades se enquadram em minhas ideologias.

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