Professora usa experiência de tratar (e superar) um câncer para escrever livro e virar exemplo

Darci Maria Pascoal Palombo e seu livro, Não Estamos Sós: "Foi impressionante descobrir como é importante o amparo de quem está por perto" (Dorinaldo Oliveira/ AAN)
Quando a dona Darci estava na clínica para a quimioterapia, ela correu os olhos pela sala e notou, pela primeira vez, os semblantes de tanta gente que, como ela, enfrentava a dura batalha contra o câncer. “Não sou só eu que estou sofrendo”, pensou. No mesmo dia, ela resolveu escrever um livro, com depoimentos de 12 pessoas que precisavam falar, desabafar, compartilhar alegrias e tristezas. Um ano e meio depois, o livro sai da gráfica. São 200 páginas, com fotos dos pacientes e depoimentos emocionados.Darci Maria Pascoal Palombo, uma senhora que já passou dos 70 anos, achou no começo que conseguiria um patrocínio para fazer entrevistas, arrecadar imagens, contratar a impressão. Mas ninguém se interessou. E ela, da sua parte, também não queria esperar. Pagou os R$ 6 mil cobrados pela publicação de 500 exemplares de Não Estamos Sós. Claro, pediu ajuda do marido, o bancário aposentado Gilberto, e da filharada. A obra tinha lançamento previsto para ontem, no Clube de Regatas.A escolha do clube não foi por acaso. Darci, os associados sabem, foi diretora de comunicação do Regatas por quase 23 anos. Ela, professora de formação, se apaixonou pelo trabalho, e nunca pensou em sair de lá. Mas apareceu a doença. Há pouco mais de uma década ela descobriu que tinha câncer no seio. Depois, a doença apareceu no pulmão, em 2008 e 2013. Hoje, após radioterapia e quimioterapia, ela está bem, sorridente. Os cabelos cresceram de novo, e ela deixou de usar a peruca e o lenço. Lá na Oncocamp, que atende pacientes com câncer no Guanabara, ela conheceu e fez amizade com pessoas de várias faixas etárias e ocupações profissionais. Todos, conta, passaram pela fase do inconformismo, da depressão, da dor, da tristeza. O diagnóstico do câncer, fala, abala até os mais fortes: o mundo parece desabar, e os pacientes passam a conviver com a ideia da morte. Mas foi exatamente a troca de experiências que os fortaleceu na luta. “Foi impressionante descobrir como foi importante, para cada um deles, o amparo de quem estava por perto: amigos, parentes. A gente supera os medos e as frustrações quando sente, ao lado, a presença de quem te ama”, fala. Os pacientes também foram unânimes ao relacionar, nos depoimentos, a melhor das terapias: a fé. “Católicos, evangélicos, espíritas... Todos acreditavam que Deus olhava por eles, mesmo nos momentos mais difíceis.” Darci é frequentadora da Igreja de Nossa Senhora das Dores, foi catequista quando mocinha e se considera uma católica fervorosa. A experiência do câncer e os depoimentos colhidos, no entanto, lhe deram um grande ensinamento: “Em todas as religiões, se busca o mesmo Deus. E foi lindo ver como a fé é incondicional: não importa as denominações e os ritos.”Cada exemplar será vendido a R$ 30,00. Ela quer, naturalmente, que a venda do livro cubra as despesas com a gráfica e a organização do pequeno coquetel de lançamento. E ainda sonha que uma editora possa se interessar na publicação. Mas o que ela mais ganhou com o trabalho, diz, foi o enriquecimento pessoal de ouvir tantas histórias. Ah, todos os 12 pacientes ouvidos vão ganhar exemplares do livro, decorados com fita. “Eles animados, saudáveis, retomando a vida de antes”, diz. Bom humor O pensamento positivo durante o prolongado tratamento de saúde também inspirou o lançamento de outro livro escrito por autor campineiro. De Repente o Futuro Ficou curto — Diário de Paciente de Bem Com a Vida, publicado pela Pontes, conta de maneira divertida como a foi temporada no hospital do paciente Marcelo Boanova Gianesi, de 53 anos, administrador de empresas. O cidadão descobriu que tinha leucemia e, no mesmo dia, foi internado em São Paulo, por indicação de um amigo que trabalhava no estabelecimento. O diagnóstico preocupou no começo, já que ele tinha histórico da doença na família. Mas o paciente enfrentou as sessões de quimioterapia com muito bom humor, até ter a chance de fazer um transplante de medula. Gianesi diz que evitava reclamar porque acredita no poder das palavras. E ele conta, no livro, das brincadeiras com enfermeiros, médicos, pacientes, visitantes. Foram três meses de tratamento. A obra, lançada na Livraria da Vila, no Shopping Galleria, tem 140 páginas e custa R$ 35,00.